Olho por Olho: Capítulo 03

OLHO POR OLHO| web novela
CAPÍTULO 03

Criada e escrita por: João Vitor Dias
autorização especial: LRTv

Abertura: https://youtu.be/8ahdCMMC57M?si=u_Pt4LO7-sIslD5A

CENA 01 – EXT. ESTRADA RURAL BR-050 – MADRUGADA CHUVOSA. A chuva não para. Fabiana caminha pela beirada da rodovia, salto quebrado, vestido colado no corpo, malas arrastando no asfalto. A maquiagem escorreu há muito tempo. Ela xinga o céu, xinga Freitas, xinga a própria sorte. O ódio é o único motor que ainda a faz andar.

Um caminhão de carga passa buzinando. Ela corre no meio da pista, abre os braços.

FABIANA

( gritando rouca )  

Para, pelo amor de Deus! Me ajuda!

O caminhão freia com dificuldade. O motorista, um homem de uns 50 anos, barba rala, boné sujo, desce irritado.

MOTORISTA

Tá louca, mulher? Quer morrer?

FABIANA

( ofegante, voz falsa de vítima )  

Roubaram tudo que eu tinha… me deixaram na estrada… Eu não tenho um real, moço. Só preciso chegar na próxima cidade.

MOTORISTA

( olhando de cima a baixo )  

E eu ganho o quê? Gasolina não é de graça.

Fabiana dá um sorriso amargo. Sem hesitar, puxa o decote do vestido encharcado, mostrando os seios.

FABIANA

Isso aqui não paga a corrida inteira?

O homem engole em seco, olha pros lados da estrada vazia. Depois balança a cabeça, cuspindo no chão.

MOTORISTA

Guarda essa mercadoria. Não pego doença de graça. Sobe logo, antes que eu me arrependa.

Fabiana recompõe o vestido, pega as malas e sobe no caminhão com o orgulho engolido.
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CENA 02 – EXT. PALCO PRINCIPAL – FESTIVAL DE JAGUARIÚNA – NOITE. O estádio lotado. Luzes explodem. Chitãozinho & Xororó entram sob um mar de aplausos ensurdecedores.

TRILHA SONORA ON – “Fio de Cabelo” (versão ao vivo) https://youtu.be/0wQ4l9a0fqU

A dupla começa o refrão, vozes inconfundíveis:

CHITÃOZINHO & XORORÓ

( cantando )  

“Quem já esqueceu um grande amor  

Sabe que é difícil de esquecer…”

A plateia canta junto. No final da música, Chitãozinho pega o microfone.

CHITÃOZINHO

Hoje a gente trouxe duas guerreiras do interior de São Paulo que roubaram nosso coração num vídeo da internet. Com vocês… Janice Oliveira e Maria do Rosário!

Explosão de gritos. Janice e Maria do Rosário entram de mãos dadas, vestidas simples, mas com brilho nos olhos. A banda ataca “Evidências”.

Janice começa o primeiro verso sozinha, voz limpa, rasgada, emocionada:

JANICE

“Quando eu digo que deixei de te amar  

É porque eu te amo…”

A plateia delira. Maria do Rosário entra no segundo verso. Quando chega o refrão, Chitãozinho e Xororó se juntam. Quatro vozes em perfeita harmonia. O estádio inteiro canta junto. Janice fecha os olhos, lágrimas escorrendo, vivendo cada palavra.
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CENA 03 – INT. CASA DE JANICE – SALA – MESMA NOITE. Gabriel está sentado no sofá, joelhos no peito. Dona Eulália costura na poltrona.

GABRIEL

( voz baixa )  

Dona Eulália… eu sonhei com a minha mãe hoje. Ela tava numa fazenda grande… desacordada no chão… tinha sangue na cabeça dela…

Dona Eulália larga a costura, pálida.

DONA EULÁLIA

Meu Deus do céu, menino… foi só pesadelo.

GABRIEL

( olhos marejados )  

Eu não quero perder ela também… primeiro o papai, agora a mamãe…

Ele abraça a perna da vizinha, chorando baixinho. Dona Eulália acaricia a cabeça do menino, coração apertado.

DONA EULÁLIA

Deus é maior, meu filho. Sua mãe tá brilhando num palco agora. Nada vai acontecer com ela.
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CENA 04 – EXT. PALCO – JAGUARIÚNA – CONTINUAÇÃO. O show segue incendiado. Agora Janice pega o microfone sozinha. A banda ataca “Festa de Rodeio” em versão acústica que vai crescendo.

JANICE

( cantando com o peito aberto )  

“Eu vim pra beber, pra esquecer um amor  

Que um dia me fez sofrer…”

A cada estrofe a plateia responde mais alto. No final ela joga a cabeça pra trás, solta um grito sertanejo que arrepia o estádio inteiro. Aplausos intermináveis. Chitãozinho abraça Janice forte.

CHITÃOZINHO

Essa mulher nasceu pra isso aqui, Brasil!
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CENA 05 – INT. CAMINHÃO – ESTRADA – MADRUGADA. O caminhão roda. Fabiana fuma o cigarro do motorista, olhar perdido na escuridão.

FABIANA

Me deixa em Amparo. Interior de São Paulo. Tem uma irmã minha lá… Janice. É o único lugar que me resta agora.

MOTORISTA

Amparo? Fica a quase 200 km daqui. Vai me custar o dia inteiro.

FABIANA

( voz sedutora )  

Eu pago direitinho quando chegar… tenho família com grana guardada. E se quiser, na volta eu te recompenso do meu jeito…

Ela passa a mão na coxa dele. O homem dá um sorriso torto.

MOTORISTA

Combinado, princesa.
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CENA 06 – EXT. BASTIDORES – JAGUARIÚNA – APÓS O SHOW. Janice e Maria do Rosário tiram fotos com fãs, abraçam mulheres que choram emocionadas. Janice pega o celular, liga pra casa.

JANICE

( voz embargada de felicidade )  

Alô, meu amor?! Mãe tá aqui viva, viu? Foi o maior dia da minha vida!

GABRIEL (pelo telefone, voz sonolenta)  

Eu te vi no telão, mãe! Você tava linda!

Janice chora de rir e de emoção ao mesmo tempo.

JANICE

Guarda esse amor pra mim, tá? Amanhã eu chego e te abraço até cansar.
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CENA 07 – INT. APARTAMENTO DE LUXO – FREITAS – MESMA NOITE. Freitas deitado na cama, contando maços de dinheiro. Ao lado, um garoto de programa dorme. Ele abre uma garrafa de uísque, brinda sozinho.

FREITAS

( rindo )  

Adeus, Fabiana. O bordel é meu, o dinheiro é meu, a vida é minha.

No antigo bordel, as meninas dançam felizes: o novo dono prometeu que todas serão sócias. Festa rolando.
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CENA 08 – EXT. FRENTE DA CASA DE JANICE – AMPARO – MANHÃ SEGUINTE. O caminhão para. Fabiana desce com as malas, cabelo ainda úmido da chuva. Olha a casa simples com desprezo.

FABIANA

( murmurando )  

Que buraco…

A porta se abre. Gabriel aparece primeiro, desconfiado. Dona Eulália atrás.

GABRIEL

( frio )  

Quem é você?

FABIANA

( abrindo os braços, voz melosa )  

Sou a titia Fabiana, meu amor! Quanto tempo! Você tá tão grande…

Ela tenta abraçar. Gabriel recua um passo. Dona Eulália estranha.

DONA EULÁLIA

Fabiana? A irmã da Janice? Meu Deus, quanto tempo…

FABIANA

( lágrimas falsas )  

Perdi tudo, Dona Eulália… vim pedir abrigo à única família que me resta.
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CENA 09 – INT. CASA DE JANICE – SALA – MEIO-DIA. Fabiana sentada no sofá, falando ao telefone com Freitas em voz baixa, achando que ninguém ouve.

FABIANA

( voz doce )  

Freitas, meu amor… eu te perdoo. Só preciso de um dinheiro emprestado pra recomeçar. Me manda cinquenta mil, vai… eu sei que você tem. Ou você que sabe, eu vou direto pra casa da família da Júlia. E conto pra mãe dela que a filha foi morta por você, já tô na cidade dela mesmo. A arma tá com suas digitais imbecil. Quero o retorno! 

Desliga. Sorri satisfeita. Gabriel estava atrás da porta, ouvindo tudo.

GABRIEL

( voz firme )  

Quem é Julia, titia?

Fabiana congela. Vira-se lentamente.

FABIANA

( sorriso nervoso )  

Julia? Uma amiga antiga, meu amor… por que?

GABRIEL

Você disse no telefone que “teve que matar a Julia pra ele não desconfiar”. Quem você matou?

Silêncio pesado. Fabiana engole em seco. O olhar do menino é frio demais para uma criança de 8 anos.

FABIANA

( forçando risada )  

Criança tem cada imaginação… Eu disse “teve que sumir com a Júlia”, uma vadia que roubava cliente. Vai brincar, vai…

Gabriel não se mexe. Olha fixamente para a tia. A semente do ódio já começa a brotar.

Fade out lento no rosto de Fabiana, que percebe: o jogo mudou.

                         FIM DO CAPÍTULO

Avaliação: 1 de 5.

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