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CAPÍTULO 09
criada e escrita por: João Vitor Dias
autorização especial: LRTv
Abertura:
CENA 01 – EXT. FAZENDA BOA ESPERANÇA – TARDE. O carro preto entra por um portão monumental de ferro. A fazenda é imensa: pastos sem fim, curral, casarão colonial, galpões enormes. Janice desce com a mala e o violão, olhos arregalados de admiração.
JANICE
( sorrindo)
Meu Deus… isso aqui é maior que a cidade inteira de Amparo!
Um capanga de chapéu abre a porta do casarão. Várias mulheres de uniforme simples (vestidos surrados, chinelos) varrem o pátio. Elas erguem o olhar rapidamente e logo abaixam, sem sorrir. Janice acena.
JANICE
Boa tarde, meninas! Tudo bem?
Nenhuma responde. Uma delas, de uns 30 anos, tem hematoma no rosto. Janice franze a testa, mas o motorista a empurra de leve.
MOTORISTA
Vem, dona Janice. O coronel tá esperando.
️
CENA 02 – INT. CASARÃO – SALA DO CORONEL – TARDE. Coronel Damião, 60 anos, charuto na boca, recebe Janice com sorriso largo demais.
CORONEL DAMIÃO
Bem-vinda, minha estrela! Que honra ter a nova rainha do sertanejo na minha humilde fazenda! Senta, senta.
JANICE
( encantada)
Coronel, que lugar lindo! E o cachê… meu Deus, nunca vi tanto dinheiro junto.
CORONEL
Cachê é o de menos. Hoje à noite a senhora faz um showzinho pra meus convidados, a gente come uma costela, bebe uma cachaça boa… e amanhã cedo a gente acerta tudo direitinho. Sua irmã Fabiana chega de manhã pra ajudar na papelada.
Janice sorri aliviada.
JANICE
Que bom! Pensei que ela vinha comigo.
CORONEL
( piscando)
Surpresinha minha. Relaxa, hoje é só curtir.
️
CENA 03 – EXT. ESTRADA DE TERRA – MESMO HORÁRIO. O táxi de Fabiana sacoleja. Ela dorme profundamente no banco de trás, boca aberta, roncos altos. No porta-malas, Gabriel está acordado, suado, segurando uma garrafa d’água que pegou em casa. Ele respira pela fresta, conta os minutos.
GABRIEL
( sussurrando)
Falta pouco, mãe… falta pouco.
️
CENA 04 – INT. APARTAMENTO DE FREITAS – SÃO PAULO – TARDE. Freitas e um garoto de programa de uns 20 anos se divertem na cama, garrafas de champanhe pelo chão.
FREITAS
( rindo)
A Fabiana acha que vai pegar o dinheiro e sumir… coitada. Quando o coronel acabar com ela, eu pego o que sobrar.
O garoto ri, beijando o peito dele.
️
CENA 05 – EXT. FAZENDA – PÁTIO – NOITE. Palco improvisado, luzes coloridas, mesas compridas. Uns 40 homens (peões, capangas, “convidados”) bebem e gritam. As mulheres escravizadas são obrigadas a servir, dançar, sorrir. Janice sobe ao palco com o violão.
JANICE
( animada)
Boa noite, Fazenda Boa Esperança! Vamos fazer essa noite inesquecível?
Aplausos. Ela ataca “Pensa em Mim”.
No refrão, ataca “Chora, Me Liga”:
JANICE
( voz rasgando o céu)
“Chora, me liga, implora meu beijo de novo
Me pede socorro, quem sabe eu volto
Pra você…”
Os homens gritam, assoviam. As mulheres escravizadas dançam mecanicamente. Duas delas cochicham:
MULHER 1
Coitada… ela não sabe que amanhã vai estar aqui com a gente.
MULHER 2
Cala a boca antes que apanhe.
Janice percebe os olhares tristes, mas acha que é cansaço.
️
CENA 06 – INT. GALPÃO DOS ESCRAVIZADOS – MESMA NOITE. Festa rolando lá fora. Um capanga arrasta uma menina de 19 anos que tentou fugir mais cedo. Ele a joga contra a parede, rasga o vestido dela.
CAPANGA
Achou que ia correr, sua vadia?
A menina chora, implora. Os outros escravizados viram o rosto, impotentes. O abuso acontece nas sombras.
️
CENA 07 – EXT. PÁTIO – APÓS O SHOW. Janice desce do palco suada, feliz. Coronel a abraça.
CORONEL DAMIÃO
Arrasou, minha filha! Agora vem tomar uma cachacinha comigo.
Janice ri, aceita um copo. Bebe um gole e começa a sentir tontura.
JANICE
Nossa… que cachaça forte…
CORONEL
É da boa. Vamos, te levo pro seu quarto.
Dois capangas seguram os braços dela. Janice tenta reagir, mas as pernas amolecem.
JANICE
Ei… o que… meu violão…
Ela é arrastada para o galpão. O violão cai no chão.
️
CENA 08 – INT. GALPÃO DOS ESCRAVIZADOS – MINUTOS DEPOIS. Porta de ferro se abre. Janice é jogada no chão de cimento. Acorda assustada, vê as correntes, os colchões imundos, uma grávida de 8 meses chorando no canto, outra mulher com roupa rasgada de prostituição, uma senhora de uns 60 anos.
SENHORA
( voz baixa, apavorada)
Bem-vinda ao tráfico, minha filha. Aqui não tem show, não tem cachê. Só corrente e morte.
JANICE
Que? Tráfico? Tráfico de pessoas?
Todas elas confirmam e Janice se levanta, corre para a porta, bate desesperada.
JANICE
( gritando)
Me soltem! Vocês me enganaram!!
Os capangas riem do lado de fora.
CAPANGA
Engano nenhum, famosa. Amanhã você vai pro Paraguai com as outras.
Janice desliza pela parede, chorando, abraçando os próprios joelhos. As outras mulheres choram junto.
️
CENA 09 – EXT. PORTÃO DA FAZENDA – AMANHECER. O táxi de Fabiana chega. Ela desce arrumada, salto alto, óculos escuros. Coronel a recebe com abraço falso.
CORONEL DAMIÃO
Olha só que gata que entregou a mercadoria! Tá cada dia mais bonita, Fabiana.
FABIANA
( sorrindo)
Cadê meu dinheiro, coronel?
CORONEL
Calma, calma… primeiro vamos tomar um café.
Nesse exato momento, uma caminhonete de entrega de ração entra pelo portão lateral. Ninguém vê Gabriel agarrado embaixo do chassi, sujo de lama, descer e rolar para trás de um monte de feno.
️
CENA 10 – EXT. PÁTIO INTERNO – MESMA MANHÃ. Janice e as outras mulheres são tiradas do galpão a chicotadas leves. Ela cambaleia, olhos inchados de choro.
CAPANGA
Vamos, famosa! Hoje você vai limpar curral!
Janice olha para o céu, desesperada.
Corte para o outro lado do pátio: Fabiana entra na sala do coronel, sorrindo.
Corte rápido para Gabriel escondido atrás de um trator, vendo de longe a mãe sendo levada de cabeça baixa. Ele aperta os punhos.
GABRIEL
( sussurrando, olhos marejados)
Eu cheguei, mãe… agora eu vou te tirar daqui.
A câmera sobe mostrando a fazenda imensa, o sol nascendo vermelho, e o grito abafado de Janice ecoando ao fundo.
Fade to black.
FIM DO CAPÍTULO

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