LOLHO POR OLHO | web novela
CAPÍTULO 11
criada e escrita por: João Vitor Dias
autorização especial: LRTv
Abertura: https://youtu.be/8ahdCMMC57M?si=5Tik1Qg4NEd3uLOV
CENA 01 – EXT. PÁTIO DA FAZENDA – EXATO INSTANTE DO TIRO. A arma de Fabiana ainda aponta para onde Gabriel estava. Fumaça sai do cano. Mas o corpo que cai não é o do menino. É o capanga-refém que Fabiana segurava: ele se jogou na frente da bala no último segundo, tomando o tiro no pescoço.
Gabriel, continua segurando a mãe em seu colo. Derramando lágrimas.
FABIANA
Agora é sua vez!
GABRIEL
Atira!
FABIANA
Eu vou fazer algo muito melhor. Você me perturbou, agora vai ser perturbado a sua vida inteira.
Fabiana pega nos braços de Gabriel, o levantando com força. Fabiana tem ajuda de um de seus capangas, que ergue o menino e leva em seus braços.
FABIANA
( Gritando )
Joga essa peste em qualquer lugar, bem longe de mim!
Fabiana sorri, olhando para a arma enquanto as pessoas e os funcionários que restavam encara ela.
FABIANA
Fiquem tranquilos, eu pago cada um de vocês pra trabalhar pra mim. O Coronel já era..
GUARDA
Mas a dona matou a cantora. Era a única esperança pra gente subir nessa vida. Agora vamos continuar trabalhando feito escravo.
FABIANA
Mas vocês não traficam pessoas? Vai chegar muitas mercadorias ainda. E a Janice era uma ameaça pra gente. Ia dar trabalho. É minha irmã? Sim. Mas foi melhor assim.. Vocês todos podem passar na sala depois, eu vou comprar essa fazenda. Vocês vão ver. E eu ainda os livrei de serem torturados pelo Coronel.
Fabiana arruma o cabelo, sorrindo.
️
CENA 02 – EXT. CURRAL – SEGUNDOS DEPOIS. Janice ainda viva no chão, mão pressionando o peito, sangue escorrendo entre os dedos. Ela tenta rastejar até o corpo do capanga morto, pega a pistola que ele carregava na cintura.
JANICE
(voz fraca, gorgolejando sangue)
Fabiana… você… vai… pagar…
Fabiana se aproxima devagar, recarregando a arma, lágrimas de ódio no rosto.
FABIANA
(baixo, quase carinhoso)
Janice? Você.. Você tá viva?
Eu te avisei, maninha… família é peso morto.
Ela aponta para a cabeça de Janice.
Janice levanta a pistola roubada com as duas mãos trêmulas.
JANICE
(último fôlego)
Olho… por olho…
FABIANA
Olho Por Olho!
A tela escurece.
Tiro.
️
CENA 03 – EXT. FAZENDA BOA ESPERANÇA – NOITE CHUVOSA. A chuva cai pesada sobre o pátio ensanguentado. Corpos são arrastados.
Gabriel, coberto de lama e sangue seco, está sentado no chão, algemado por um policial, olhando fixamente para o corpo de Janice coberto por um lençol ensanguentado.
Dois policiais discutem.
POLICIAL 1
A criança viu tudo. Não tem parente próximo.
POLICIAL 2
Convento das Carmelitas em Amparo é o único lugar que aceita órfão de graça. Leva ele.
Gabriel não reage. Parece uma estátua.
Um policial o levanta pelo braço e o coloca no banco traseiro da viatura.
A chuva bate no vidro. Gabriel encosta a testa no vidro frio e murmura:
GABRIEL
(baixo, sem piscar)
Eu nunca vou esquecer o seu rosto, tia.
️
CENA 04 – INT. SALÃO DO CASARÃO – MESMA NOITE. Fabiana, rosto costurado com pontos grosseiros, perna enfaixada, está sentada na cadeira do Coronel Damião.
Dezenas de capangas, peões e funcionários armados formam um semicírculo. O clima é hostil.
CAPANGA CHEFE (Zé Bigode)
O Coronel tá morto por sua causa, Fabiana. A gente devia te enterrar junto.
FABIANA
( voz firme, sem tremor)
Enterrem. E amanhã quem paga vocês? Quem conhece as rotas pro Paraguai? Quem tem contato com os compradores em Assunção? Eu conheço cada centavo que entra e sai daqui. O Coronel era o rosto. Eu sempre fui o cérebro.
Silêncio pesado.
FABIANA
(levantando-se, mancando)
A partir de hoje eu sou a dona. Vocês continuam comandando a fazenda no dia a dia. Eu só quero 40% do lucro bruto e liberdade pra viajar. Quem discordar, sai agora com uma bala na nuca. Quem ficar, ganha o dobro do que ganhava com o velho.
Zé Bigode troca olhares com os outros. Lentamente baixa a cabeça.
ZÉ BIGODE
Tá fechado, dona Fabiana.
Os demais assentem, contrariados, mas aceitam.
️
CENA 05 – INT. CASA DE DONA EULÁLIA – AMPARO – MESMA NOITE. Maria do Rosário e Dona Eulália sentadas à mesa, café frio. As duas choram baixo.
DONA EULÁLIA
O menino sonhou com sangue na cabeça da Janice… dias antes dela ir pra essa fazenda… eu não dei bola… Meu Deus, eu devia ter falado mais alto!
MARIA DO ROSÁRIO
( voz embargada )
Eu avisei… eu senti o cheiro de podre naquela mulher… e agora os dois sumiram…
Ela aperta o terço com força até os dedos ficarem brancos.
MARIA DO ROSÁRIO
Se aconteceu o que eu tô pensando… eu mesma mato Fabiana com as mãos.
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CENA 06 – EXT. TERRENO BALDIO ATRÁS DA FAZENDA – MADRUGADA. Dois peões jogam o corpo do Coronel Damião numa vala rasa. Jogam terra e cal virgem por cima. Fabiana, de capa de chuva preta, assiste de longe. Quando terminam, ela se aproxima, cospe com força na terra fresca.
FABIANA
(seco)
Vai pro inferno, seu filho da puta. Aqui quem manda agora sou eu.
Ela vira as costas e vai embora mancando.
️
CENA 07 – INT. ESCRITÓRIO DA FAZENDA – MESMA MADRUGADA. Fabiana ao telefone com Freitas.
FREITAS
( rindo do outro lado )
Então a rainha do bordel virou rainha do tráfico? Parabéns, vadia.
FABIANA
(voz gelada)
Escuta bem, Freitas. Eu sei onde você mora. Sei com quem você dorme. Sei até aia de que cor é a cueca que você usa hoje. Se encostar um dedo no meu dinheiro ou abrir a boca sobre mim, eu mando te cortar em pedaços tão pequenos que nem sua mãe reconhece. E eu tenho gente suficiente pra fazer isso antes do café da manhã.
Silêncio do outro lado.
FABIANA
Agora me deseja boa viagem pro Rio. Porque eu vou. E vou rica.
Ela desliga. Vira-se para uma funcionária jovem, Lucrécia (ex-escravizada que agora virou braço direito).
FABIANA
Lucrécia, o cofre secreto do Coronel… abre pra mim. Tudo em dólar. Hoje ainda.
LUCRÉCIA
(assentindo, olhos duros)
Sim, dona Fabiana.
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CENA 08 – EXT. CONVENTO DAS CARMELITAS DESCALÇAS – NOITE CHUVOSA. A viatura para na porta. O policial entrega Gabriel para Irmã Clara, uma freira de uns 40 anos.
Gabriel está encharcado, olhos vazios.
IRMÃ CLARA
(compadecida)
Meu Deus… pobrezinho…
Ela tenta pegá-lo no colo. Gabriel se debate, grita, morde o braço dela.
GABRIEL
(berrando)
ME SOLTA! EU NÃO QUERO FICAR AQUI!
A Madre Superiora, Madre Inês, aparece na porta com um guarda-chuva.
MADRE INÊS
(voz calma, firme)
Deixem comigo.
Ela se ajoelha na chuva, abre os braços.
Gabriel olha para ela, tremendo inteiro. De repente desaba, chorando como nunca, agarrando-se à madre como se ela fosse a última coisa sólida do mundo.
MADRE INÊS
(abraçando forte)
Aqui você está seguro, meu filho. Aqui ninguém te machuca mais.
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CENA 09 – INT. QUARTO DE JANICE – AMPARO – MESMA NOITE. Maria do Rosário entra com uma lanterna, revira gavetas, procura qualquer pista. Acha um papel amassado: impressão do e-mail falso do “show secreto” com o endereço da Fazenda Boa Esperança.
Ela guarda no bolso, lágrimas caindo.
De repente o celular toca. Número desconhecido.
MARIA DO ROSÁRIO
Alô?
GABRIEL
(voz baixa, assustada)
Tia Maria… sou eu… a Fabiana matou a minha mãe… ela atirou nela… na fazenda… eu vi tudo…
Maria do Rosário solta um grito abafado, cai de joelhos.
MARIA DO ROSÁRIO
Gabriel… meu Deus… onde você tá?!
GABRIEL
No convento… eu peguei o celular da irmã cozinheira… vem me buscar… eu quero vingança…
A Madre Inês entra de repente, tira o celular da mão dele com delicadeza, mas firme.
MADRE INÊS
(ao telefone, calma)
Aqui é a Madre Inês. O menino está seguro. Não ligue mais pra esse número.
Desliga.
Gabriel tenta correr, mas as freiras o seguram com carinho.
️
CENA 10 – AMANHECER SEGUINTE – RODOVIÁRIA DE CAMPINAS. Fabiana, óculos escuros, peruca loira, mala de rodinhas, embarca num ônibus executivo para o Rio de Janeiro. Na mala: quase 2 milhões de dólares em espécie dentro de fundos falsos.
Ela sorri pela primeira vez de verdade.
FABIANA
(baixo, para si mesma)
Rio de Janeiro, me espera. A nova Fabiana Albuquerque está chegando.
O ônibus parte. Corte rápido: Maria do Rosário batendo na porta da delegacia, gritando com o delegado, que nega ajuda: “Esse esquema é da máfia paraguaia, dona Maria. Quem entra não sai vivo.” Gabriel no convento, deitado na cama dura, olhando o teto, olhos secos, repetindo baixinho: “Olho por olho… olho por olho…” DIAS DEPOIS: Maria e Gabriel ( que fugiu do convento ) em frente à fazenda. Portão novo, placa “VENDIDA”. Uma senhora idosa abre.
SENHORA
Aqui não mora mais ninguém da antiga administração. Eu comprei legalizado.
GABRIEL
Minha mãe morreu aqui!
SENHORA
(assustada)
Menino, eu não sei de nada…
MARIA DO ROSÁRIO
( Com lágrimas nos olhos )
Mas você deve saber onde ela está enterrada..
CORTA PARA
Maria puxa Gabriel dali, chorando. Os dois entra no cemitério municipal, túmulo simples com placa “JANICE OLIVEIRA – 1987 -2012 – Cantora do povo”. Flores de fãs começam a chegar. O cemitério lota. Maria do Rosário ajoelha, pega o violão e canta “Evidências” com voz partida. Gabriel coloca a mão no túmulo frio.
MARIA DO ROSÁRIO
( Cantando )
Quando eu digo que deixei de te amar, é porque eu te amo..
GABRIEL
( Baixo, sem lágrimas )
Eu volto, mãe.
Eu juro que volto.
A câmera sobe lentamente enquanto a voz de Maria ecoa pela cidade inteira.
FIM DO CAPÍTULO

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