Mar Aberto: Capítulo 06


MAR ABERTO 🌊 | web novela
CAPÍTULO 06

criada e escrita por: Ruan Ferreira
autorização especial: LRTV

Abertura: https://youtu.be/jmBUDjDyPwE?si=f1OG2VJ9tGHcAL-s

CENA 1. DELEGACIA – DIA

Pedro assina os papéis da fiança. Lucas observa à distancia, de cabeça baixa, ainda envergonhado pela situação. O inspetor analisa a assinatura do empresário.

PACHECO: Tá liberado o garoto. (olha Lucas) Sorte que seu pai chegou rápido.

Lucas e Pedro trocam olhares duros. Pedro sai da sala, Lucas pensativo.

PEDRO (OFF): Você tem ideia da vergonha que me fez passar? Vergonha, Lucas! O filho do presidente da Atlântida detido em um racha. Filmado e exposto. Sabe o que vão dizer amanhã nos jornais? No conselho da empresa?

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CENA 2. DELEGACIA – ESTACIONAMENTO – CARRO DE PEDRO – DIA

Pedro no banco do motorista, mãos no volante, tenso. Lucas ao lado, encarando.

LUCAS: Você só pensa na empresa.

PEDRO: A empresa é o que sustenta você! O que mantém essa família de pé há gerações e é o que eu vou entregar pra você um dia… Se parar de agir como um moleque inconsequente!

LUCAS: Sei que errei, mas… Eu não pedi pra ser seu sucessor.

PEDRO (rindo amargo): Não pediu porque não tem maturidade nem pra saber o que quer da vida. Acabou, Lucas. De hoje em diante você vai trabalhar.

LUCAS: Como assim? Onde?

PEDRO: Na Atlântida. Você vai aprender lá. Vai acordar cedo, passar o dia no estaleiro. Vai conhecer o chão da empresa, suar, aprender.

LUCAS (indignado): Eu não quero esse futuro!

PEDRO: Não é uma escolha. Já decidi! Vai conciliar sua faculdade, que você não se dedica há muito tempo. E outra, chega dessa vida irresponsável sem compromisso. Você vai firmar compromisso sério com a Caroline.

Lucas o encara, indignado, arregala os olhos, quase explodindo.

LUCAS: O QUÊ?! Pai, eu e a Carol… Ela nem é…

PEDRO (por cima): Ela é uma garota excelente. Estável. Algo que você precisa ser desesperadamente.

LUCAS (apertando os punhos): Você não vai mandar na minha vida amorosa!

PEDRO (duro): Mando no que for preciso pra te manter no trilho. E se continuar se comportando como maluco, eu vou tomar decisões ainda mais duras. Não vou perder você também!

Lucas vira o rosto, vencido. Pedro com o olhar fixo na estrada, parte com o carro. O veículo saindo do local.

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CENA 3.  COBERTURA DE JOÃO FELIPE – VARANDA – DIA

A cobertura com vista ampla para a orla. Mesa do café posta com frutas cortadas, sucos e pães. João Felipe e ISABEL sentados. Caroline entra no local, sonolenta.

CAROLINE (beijando o pai): Bom dia, bom dia.

ISABEL (beijando a filha): Bom dia, meu amor. Dormiu bem?

CAROLINE: Mais ou menos. Tentei ligar pro Lucas várias vezes, e ele não atendeu. Deve ter dormido cedo e esqueceu do mundo.

João Felipe e Isabel se entreolham, sabendo o que aconteceu.

JOÃO FELIPE: Longe de ter sido isso, minha filha. O Lucas… Ele passou a noite na delegacia.

CAROLINE (boquiaberta): Delegacia? O que aconteceu?

ISABEL (suspira): Racha, Carol. Seu namorado estava disputando um racha! Você tem noção do perigo disso?

Caroline arregala os olhos, quase derrubando o copo de suco.

CAROLINE: Não… Ele disse que ia pra casa cedo, que tinha reunião de família.

JOÃO FELIPE (cínico): Parece que a “reunião” era acelerar carro pela madrugada. Uma denúncia anônima e pronto: polícia, camburão, e o Pedro tendo que ir pessoalmente retirar o garoto de lá.

CAROLINE (furiosa): Meu Deus… Que irresponsável! Moleque!

ISABEL: Filha, sinceramente, isso só confirma o que eu sempre disse. Nunca achei boa ideia esse namoro. Vocês são primos, cresceram juntos, e ele sempre foi esse irresponsável. Termina isso antes que te arraste para mais problemas.

CAROLINE (perdida/ raiva): Eu não sei. Tô tão decepcionada…

JOÃO FELIPE (manipulador): Ou justamente por isso, você não deveria terminar agora. Ele foi preso, o Pedro está decepcionado… Esse é o momento ideal para você influenciar esse relacionamento.

ISABEL: Como é que é? João, você não pode estar falando sério. Isso é manipulação!

JOÃO FELIPE: Eu chamo de estratégia, meu amor. A menina gosta dele e terminar agora, só vai criar mais drama. Com calma, com jeito, minha filha, você pode fazer ele te valorizar mais, te respeitar. Fazer ele entender que não tem espaço pra mentiras, pra irresponsabilidade… (sorri) Você pode levar esse namoro para onde você quer.

Isabel balança a cabeça negativamente, indignada com as palavras do marido. Caroline respira fundo, claramente influenciada.

CAROLINE: Não consigo pensar agora, tô muito magoada… Mas talvez, o senhor tenha razão. Vou pensar nisso.

João Felipe sorri de canto, satisfeito.

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CENA 4. ARRAIAL DO CABO – PRAIA – DIA

A praia quase deserta, exceto por alguns pescadores ao longe, recolhendo redes. Clara encolhida sobre uma canga, encara o mar com olhos inchados de tanto chorar, esfrega os braços, exausta. Passos se aproximam pela areia fofa. Tiago corre até ela.

TIAGO (preocupado): Clara? Caramba, você passou a noite aqui?

Clara não responde, apenas abaixa a cabeça, machucada. Ele puxa delicadamente seu rosto.

CLARA (voz fraca): Eu não tinha pra onde ir, Tiago. Eu não sou quem eu pensava que era. Minha vida inteira foi uma mentira.

TIAGO (respira fundo): Eu vi aquela cena na praia. O Zé Bento tava bêbado, transtornado… Mas o que ele disse depois?

CLARA (engole o choro): Ele disse que não sou filha da Dalva. Que eles me criaram como filha de criação. (chora) Me chamou de ingrata, me disse que eles me criaram por pena. Porque eu não tinha ninguém por mim…

Clara cai no choro. Tiago a abraça acolhendo nos braços.

TIAGO: Isso não é coisa que se fala assim, na cara de alguém. Mas você precisa conversar com a Dalva. Só ela pode te explicar a verdade, de um jeito decente.

CLARA: E se eu não for ninguém, Tiago?

TIAGO (acarinhando seus cabelos): Você é alguém, Clara! Pra mim, pros seus amigos e pra sua mãe, que pode até não ser de sangue, mas te criou com todo amor desse mundo. (encarando carinhoso) Eu tô aqui pra sempre. Você precisa conversar com a Dalva, ela deve estar desesperada. Você precisa ouvir o que ela tem a dizer, de peito aberto.

CLARA: Primeiro preciso conversar com outra pessoa.

Tiago a encara, curioso. Clara chorosa.

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CENA 5. CASA DE VÓ NENA – COZINHA – DIA

Vó Nena abraçando Clara, fragilizada por todo o ocorrido. Tiago ao lado das duas.

VÓ NENA: Dalva tá com o coração pela metade, menina.

CLARA (cabeça baixa): Não consegui voltar pra casa, vó.

Vó Nena senta com Clara, pega em sua mão.

VÓ NENA: O que Zé Bento fez foi crueldade. Daquelas que nem bicho faz, mas você precisa entender uma coisa: Dalva te ama como se fosse carne do corpo dela. Isso ninguém muda, Clarinha.

CLARA: Mas vó, porque ela nunca me contou? Por quê? Eu passei anos achando que tinha uma família, que ela era minha mãe… E agora… Não sou ninguém!

VÓ NENA: Ouça o que vou te falar, menina: Mãe não é só quem pare. Mãe é quem cria! Quem cuida! Dalva foi mais mãe que muitas por aí, ela botou comida na sua boca, ficou acordada quando você tinha febre, ameaçou o mundo pra te proteger. (suspira) Ela errou em esconder a verdade? Errou. Mas foi por medo, minha filha. Medo de te perder.

Clara respira fundo, ouvindo todas aquelas palavras.

CLARA: Entendo tudo isso, mas não consigo perdoar agora. Não consigo olhar pra ela e agir como se nada tivesse acontecido. (seca as lágrimas) Eu sinto que… Que preciso ir embora. Sair de Arraial do Cabo, dar um tempo pra respirar. Entender quem eu sou de verdade.

TIAGO (assustado): Ir embora? Clara, não! Você não pode fazer isso!

Clara encara Tiago, olhos marejados.

CLARA: Acho que é o melhor pra mim, Tiago.

Tiago ajoelha ao lado de Clara, a olhando fundo nos olhos.

TIAGO: E eu? Faço o quê se você for embora? Quer que eu fique aqui fingindo que tá tudo bem, quando você vai sumir do meu mundo?

Ela fecha os olhos, chorosa.

CLARA: Você vai viver sua vida, Tiago. Não posso te prender no caos que virou a minha cabeça.

TIAGO: Não quero ir pra lugar nenhum. Quero ficar com você, pelo menos me deixa te ajudar. Me deixa ficar do seu lado.

Clara segura as mãos dele. Eles se olhando profundamente.

CLARA: Eu preciso que você me entenda e respeite minha decisão. É o melhor que consigo fazer agora.

VÓ NENA: Às vezes, minha filha, o caminho mais difícil é o que faz a gente crescer. Mas não tome decisão com o coração ferido. Espera um pouco e respira.

CLARA (concordando): Vou pensar, vó, mas se eu decidir ir, tenta me entender.

TIAGO (voz embargada): Eu te entendo, mas não aceito te perder assim.

Tiago abaixa a cabeça. Clara o abraça e eles ficam naquele momento, sofrendo em um choro contido.

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CENA 6.  CASA DE DALVA E ZÉ BENTO – TERREIRO – DIA

Zé Bento entra pelo terreiro de casa e se depara na varanda de casa com suas coisas: roupas, botas, ferramentas, a rede de pesca e uma mala velha, tudo jogado de qualquer jeito.

ZÉ BENTO (sem acreditar): Que diabos é isso aqui?

Dalva aparece na porta, rosto abatido, olhos vermelhos de choro e raiva acumulada.

DALVA: Pode parar por aí mesmo, Zé Bento. Não chega nem mais um passo dentro dessa casa.

Zé Bento dá um sorriso torto, achando absurdo.

ZÉ BENTO: Ah, Dalva, pelo amor de Deus. Vai começar com drama logo cedo? Põe isso pra dentro vai, a vizinhança já tá começando a olhar.

DALVA (firme): Quem devia ter pensado na vizinhança, e na família, era você ontem. Não eu.

ZÉ BENTO (impaciente): Eu tava bêbado, mulher! Você sabe como eu fico. A menina desrespeitou minha casa, minha palavra.

DALVA: E você desrespeitou o que, Zé Bento? (se aproximando) Falou pra menina a maior crueldade que já ouvi na vida! Disse pra menina que ela não é minha filha, não é nada nossa, como se fosse um traste qualquer que a gente catou na rua. Um cachorro que a gente achou no meio da estrada e abrigou.

ZÉ BENTO: Só falei a verdade! Uma hora isso tinha que vir à tona!

DALVA (chorando/ tom firme): Não! O que você falou não é verdade, seu cafajeste! Ela é minha filha! Ou pelo menos, sempre foi aqui dentro do peito, no que importa. E você… Você virou um estranho dentro dessa casa.

Ele se irrita, chutando seu próprio balde de pesca.

ZÉ BENTO: Então é isso? Tu me bota pra fora, por causa de uma menina que nem sangue teu é?!

DALVA: Tô te botando pra fora porque você se perdeu. Porque não vou ser mais a muleta da tua fraqueza. E porque eu preferia criar aquela menina sozinha, do que dormir mais uma noite ao lado do homem que você se tornou.

Zé Bento sente o golpe como um soco. A vizinhança vendo das janelas e portas, comentando entre si.

ZÉ BENTO: Dalva, a gente tem anos juntos. Não faz isso comigo, mulher…

DALVA: Já fiz. Vai embora, Zé Bento! É só volta quando for capaz de olhar pra Clara e pedir perdão. Pra ela e pra mim também.

Ele olha ao redor, percebe que todos estão olhando. Humilhado, junta as coisas com raiva, jogando tudo dentro da mala, sem cuidado.

ZÉ BENTO (raiva): Eu volto quando quiser! Essa casa ainda é minha!

Dalva cruza os braços.

DALVA: Não é mais! Some daqui!

Dalva entra em casa e bate a porta com força. Zé vai catando suas coisas aos trancos e barrancos, cheio de ódio.

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CENA 7. MANSÃO MARINS – SALA DE ESTAR – DIA

Estela caminha de um lado ao outro, nervosa. Pedro chega do escritório, expressão carregada. Larga a pasta sobre uma mesa.

ESTELA (nervosa): Eu estava mesmo esperando por você, Pedro.

PEDRO (bufando): Não vamos começar, Estela. Tô exausto.

ESTELA: Exausto? E eu, Pedro? Acha que é fácil lidar com um filho que se perde a cada dia, porque o pai dele vive tão distante quanto um estranho, dentro dessa casa?

PEDRO: Não joga isso pra cima de mim. Lucas fez o que fez porque é irresponsável, mimado e arrogante!

ESTELA (gritando): E quem fez ele assim, Pedro?! Quem tratou esse menino com silêncio, com frieza, com cobranças impossíveis?

PEDRO (duro): Eu fiz o que pude. Tive que carregar essa família depois do acidente! Tive que manter a Atlântida de pé!

ESTELA (voz embargada): Eu também perdi uma filha, Pedro. Eu também acordo pensando nela todos os dias, mas continuo enxergando o Lucas! Você nunca mais viu ninguém.

PEDRO: Cuidado com o que você diz, Estela.

ESTELA: Eu não vou ter cuidado nenhum! Desde aquele acidente você virou outra pessoa. Esse homem frio, duro, inacessível. Não era o Pedro com quem eu me casei.

A porta do corredor se abre silenciosamente. Cecília, surge na penumbra, ouvindo tudo sem ser percebida. Expressão aflita com a discussão.

PEDRO: Alguém tinha que ser firme nessa casa!

ESTELA: Firme? Você chama isso de firmeza? Lucas não te respeita porque você nunca esteve presente. Ele cresceu achando que precisa ser um animal selvagem pra chamar sua atenção!

Pedro passa a mão pelo rosto, cansado.

PEDRO: Estela, chega. Eu já tomei minha decisão. Lucas vai trabalhar na Atlântida, vai aprender disciplina.

Estela começa a rir, nervosa. Pedro irritado.

ESTELA: Disciplina como um soldadinho seu, claro. (triste) Eu não sei mais viver assim. Sinceramente, não sei se quero continuar casada com você. Acho que talvez seja melhor cada um buscar outras formas de ser feliz, já que claramente, essa não está funcionando mais, há muito tempo.

Pedro engole seco, sente as palavras da mulher. Estela sobe as escadas. Cecília entra na sala, observando o filho. Pedro se vira e a encara.

PEDRO: Mamãe…

CECÍLIA: Essa família está desmoronando, Pedro. E se você não fizer nada urgente, a culpa também será sua, meu filho.

Pedro encarando, com olhar perdido.

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CENA 8. CASA DE DALVA – SALA – DIA

A porta de casa se abre, é Clara. Dalva vem da cozinha, nervosa.

DALVA (emocionada): Clara! Minha filha, graças a Deus você voltou! Eu tava desesperada!

Dalva tenta abraçar Clara, que dá um passo para trás, a encarando de forma dura.

CLARA: Eu não voltei. Só vim pegar minhas coisas!

Dalva franze a testa, não entendendo.

DALVA: O quê?

CLARA (dura): Eu não consigo mais ficar aqui, Dalva. Eu vou embora dessa casa.

DALVA (desesperada): Não fala isso, por favor! Eu te amo! Eu te criei! Você é minha filha! Clara, por tudo que é mais sagrado, não faz isso comigo. Não vai embora de casa!

CLARA (engolindo o choro, machucada): Eu preciso entender quem eu sou. E isso… Isso aqui não é mais minha casa.

Dalva chora diante de Clara, desesperada. Clara a encarando de forma endurecida, mas completamente arrasada também.

A imagem congela em DALVA e as águas do mar cobrem a tela.

(FIM DO CAPÍTULO)

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