Mar Aberto: Capítulo 08

MAR ABERTO 🌊 | web novela
CAPÍTULO 08

criada e escrita por: Ruan Ferreira
autorização especial: LRTV

Abertura: https://youtu.be/jmBUDjDyPwE?si=ySbq8A-eb3lqG6-k

CENA 1. RODOVIÁRIA NOVO RIO – MANHÃ
Um senhor que vende água nas proximidades se aproxima de Maria Clara, que chora após o assalto.

AMBULANTE: Acontece direto, moça. Aqui tem que ficar esperta. Chegou agora, né?

Clara apenas acena, tentando se recompor.

AMBULANTE: Se quiser, ali dentro tem delegacia pra registrar. Não vai adiantar muito, mas pode ser que ajude.

Ela agradece com um sorriso fraco, enxuga o rosto e ergue a cabeça, entra na rodoviária, se encaminha até uma lanchonete ali. Tira umas poucas moedas do bolso e compra uma água, bebendo para se recuperar.

CLARA (para si): Respira, Clara. Você não pode desistir agora.

Encosta em um pilar, a mochila rasgada ao lado, dentro dela quase nada. O celular não está mais ali, nem o pouco dinheiro que tinha. Uma senhora vendo a situação, se aproxima dela.

SENHORA: Você tá bem, menina?

Clara ergue o rosto. Diante dela, DONA ELZA, mulher simples, cabelos presos, segura uma sacola de feira.

CLARA: Na verdade, não muito.

ELZA: Isso aí não é cara de “não muito”. Te roubaram, não foi?

Clara hesita, mas a expressão entrega. As lágrimas descem pelo rosto.

CLARA: Levaram tudo. Cheguei agora, não conheço ninguém aqui.

ELZA (sentando ao seu lado): O Rio costuma ser bonito, mas sabe ser cruel com quem chega sozinho. (respira fundo) Você tem pra onde ir?

CLARA (nervosa): Não… Eu ia procurar trabalho, mas agora…

ELZA: Olha, eu tenho um barzinho na Lapa. Nada chique. Trabalho é pesado, o salário é pouco, mas tem um quarto nos fundos. E o mais importante: Não vai te faltar um teto e comida.

Clara surpresa e desconfiada.

CLARA: A senhora nem me conhece.

ELZA: Conheço o bastante. Menina que chega sozinha, com medo nos olhos, não tá aqui pra coisa errada.

Silêncio. Clara pensa em Dalva, em Tiago, na decisão de ir embora. Engole seco.

CLARA: E o trabalho seria o quê?

ELZA: Atender mesa, limpar balcão, ajudar na cozinha. Não é vida fácil, mas é digna. Então, vem comigo ou vai ficar aí sozinha nessa cidade enorme?

Clara respira fundo, olha ao redor na rodoviária, pessoas apressadas e indiferentes. Levanta o rosto, olhos marejados.

CLARA: Eu aceito.

Dona Elza sorri para ela. Clara ainda incerta, mas sem alternativa.
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CENA 2. LAPA – DIA
Um táxi vai atravessando as ruas do bairro da Lapa, passando por ruas grafitadas, bares antigos e casarões históricos. No interior do veículo, ao lado de Dona Elza, Clara sorri hipnotizada com a cidade, maravilhada com o que vê do novo mundo, abrindo em sua frente.

CLARA: Talvez não seja o começo que eu sonhei, mas é o começo que me restou.

ELZA: Pra quem quer começar, essa cidade sempre acolhe mais um, menina. Eu sei que não foi bem o que você esperava, mas tenho certeza que você ainda tem muito o que viver aqui. (sorri) Bem-vinda ao Rio!

Clara sorri ainda triste. Volta sua visão para fora da janela. O carro cruzando os arcos da Lapa.
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CENA 3. MIRANTE DONA MARTA – DIA
O Sol começando a descer, deixando a Baía de Guanabara em tons dourados. Estela, Cecília e Bianca com águas de coco nas mãos. Elas acomodadas em uma mesa, com vista para o Pão de Açúcar. Bianca percebendo o ar preocupado de Estela, troca olhares com Cecília.

BIANCA: Você tá estranha desde o almoço, Estela. Expressão pesada. Aconteceu alguma coisa com o Lucas?

ESTELA (suspira): Lucas é outro problema. Acho que no momento, o motivo da minha “expressão pesada” é o Pedro.

CECÍLIA (ajeitando os óculos escuros, preocupada): Estela e Pedro andaram brigando de novo…

ESTELA: A verdade é que eu cansei. (pesar) Desculpa, dona Cecília, mas estou cansada desse casamento. O Pedro afogou uma parte dele, naquele acidente e nunca mais voltou pra superfície. Eu fiz tudo, tentei entender, mas agora… Ele enterrou a gente também. (suspira) Não posso continuar casada com um homem que só existe como empresário. Como pai e como marido, ele não está mais ali.

Cecília aflita, passa a mão pelo rosto, troca olhares com Bianca, que se surpreende com as palavras da amiga.

BIANCA: Eu nunca te vi falando assim… Tão resolvida.

CECÍLIA: Estela, sei que meu filho mudou muito. Mas você sabe que ele… Ele amava aquela menina. Perder a Lia foi devastador pro Pedro.

ESTELA: Eu também perdi uma filha. Mas não perdi a capacidade de amar o meu filho vivo. O Pedro sim.

Bianca segura a mão de Estela, solidária.

BIANCA: E vocês tentaram talvez, uma terapia de casal?

ESTELA (ri amarga): Terapia? Ele mal fala comigo, Bianca. Só dita regras, cobra o Lucas e vive trancado naquela empresa. Quando eu falo, ele ignora, não ouve. Se nada mudar, vou pedir o divórcio.

Cecília baixa a cabeça. Bianca aperta a mão da amiga.

BIANCA: Eu estou com você. De verdade. Seja qual for sua decisão.

CECÍLIA (triste): Só peço que seja justa com você, minha filha. Com a história de vocês… E com o meu neto. Ele vai precisar de você forte.

ESTELA: É exatamente por isso… (seca uma lágrima) Que eu não vou mais viver pela metade.

Elas se entreolham. Estela sofrida, coloca novamente os óculos escuros, tentando controlar a emoção. Bebe um gole da água de coco.
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CENA 4. ATLÂNTIDA NÁUTICA – ESTALEIRO – DIA
Movimentação dos funcionários na fabricação das embarcações. Lucas, sujo de graxa, empurra um carrinho com peças pesadas. Suas mãos, pouco acostumadas ao trabalho pesado, tremem.

ENCARREGADO: Vamos, garoto! Tá demorando demais com isso, Lucas!

Lucas cerra os dentes, engole o orgulho e continua. Observa acima um grupo de engenheiros discutindo projetos, ocupando o lugar que achou quer estaria. Caroline surge caminhando pelo estaleiro, elegante demais para o ambiente. Alguns funcionários cochicham entre si, ao vê-la passar.

CAROLINE (se aproximando, sorri): Amor!

LUCAS (surpreso): Carol? O que você tá fazendo aqui?

CAROLINE: Vim ver meu noivo trabalhando, no seu primeiro dia. (decepcionada) Só não pensei que seria aqui.

LUCAS (forçando um sorriso): Pois é, nem eu. Bem-vinda à realidade!


Caroline toca em seu braço, carinhosa.

CAROLINE: Vai passar. Seu pai só quer te dar uma lição. Conheço o tio Pedro, daqui a pouco, ele amolece e te coloca em uma posição que você merece estar.

Antes que Lucas responda, Pedro vem se aproximando em direção à eles.

PEDRO: Algum problema por aqui?


CAROLINE (sorrindo): Oi tio. Vim ver meu noivinho.



PEDRO (impaciente): Tudo bem, Carol, mas o estaleiro da Atlântida não é ponto de encontro. Se quer ver seu noivo, fico feliz, mas fora do horário de trabalho, como todos os outros funcionários. (encara Lucas) Lucas tem muito trabalho por aqui, não pode se distrair.


LUCAS (cara fechada): Eu não parei de trabalhar… Doutor. Não precisa me humilhar na frente de todo mundo.

PEDRO: Se quer provar que merece estar na Atlântida, comece respeitando as regras. (aponta ao redor) Aqui não tem privilégios. Você ainda não entende o que é responsabilidade, Lucas.

Lucas vê os funcionários olhando a cena e cochichando, se divertindo com a situação, aproxima-se do pai, sentindo a humilhação.

LUCAS: O que você quer de mim, afinal? Que eu sofra? Que eu vire outra pessoa?

PEDRO: Quero que você vire um homem!

Lucas respira fundo, se controlando. Pedro encarando, severo.

PEDRO: Pare de agir como se você fosse um erro, Lucas. Volte ao trabalho! (olha Carol) E você, por favor, vá pra casa.

Caroline encara Lucas, insegura, machucada.

CAROLINE: Eu ligo mais tarde.

Ela se afasta. Lucas acompanha com o olhar, frustrado. Pedro encarando. Lucas volta ao trabalho, com o semblante fechado. Empurra o carrinho com força e raiva. A câmera fecha no olhar duro de Pedro.

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O Sol se pondo nas águas cristalinas de Arraial do Cabo. As ondas quebrando suaves, enquanto alguns pescadores vão recolhendo as redes mais ao longe.

CENA 5. ARRAIAL DO CABO – PRAIA – FIM DE TARDE

Tiago caminha sozinho pela praia, claramente abatido, para diante do mar, olhar distante. Gabi surge logo atrás, aproximando-se devagar.

GABI (sorrindo leve): Sabia que te encontraria aqui.

TIAGO (sorriso amarelo): Aqui sempre foi o lugar que venho quando a cabeça tá cheia. Não é difícil me encontrar.

GABI: É por causa da Clara, né?

TIAGO (respira fundo): É. Eu sei que ela precisava ir, precisava pensar, fugir do sufoco, mas parece que arrancaram um pedaço de mim, sabe?

GABI: A Clara foi egoísta, Tiago. Ela pensou na dor que estava sofrendo, na decepção por ter descoberto a verdade sobre a origem dela, e não ligou pro que você sentia… Sente…

Tiago encara, duro.

TIAGO: Não fala isso. A Clara estava machucada, muita gente agiria da forma que ela agiu.

GABI: Você tem um coração do tamanho desse mar inteiro, Tiago. A Clara não soube ver isso. Você acha que ela volta? Vai sonhando…

Tiago nervoso, passa a mão pelo rosto. Caminha, tentando se afastar. Gabi vai atrás.

GABI (toma sua frente): Desculpa. Eu só não quero te ver sofrendo desse jeito. (toca seu rosto) Eu gosto tanto de você, será que você não consegue enxergar isso? Eu faria tudo pra não te ver dessa forma, com essa âncora que você tá carregando aí, no peito.


Tiago respira fundo, fecha os olhos.

GABI: Só queria que você me olhasse… Do mesmo jeito que olha pra ela.

Antes que possa responder, Gabi dá um passo à frente, e o surpreende com um beijo. Tiago pego de surpresa, demora alguns segundos até recuar, afastando-se devagar.

TIAGO (nervoso): Gabi… Você não devia…

GABI (voz embargada): Desculpa. (baixa a cabeça) Sei que você não sente o mesmo… Só precisava te mostrar que eu me importo.

TIAGO (confuso): Eu gosto muito de você… Como amigo. Mas nesse momento, tô despedaçado. Não consigo abrir meu coração pra ninguém, que não seja a Maria Clara. Me desculpa.

Tiago se afasta pela areia da praia, em direção à vila de pescadores. Gabi com olhos marejados, passa a mão pelos cabelos, com raiva e vergonha.

GABI: Você ainda vai ser meu, Tiago… Eu juro!

Gabi se volta para o mar, amarga.
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CENA 6. CASA DE DALVA – COZINHA – NOITE
A casa em silêncio. Dalva sentada à mesa da cozinha, diante de um prato intocado. Passa a mão no lugar onde Clara sentava.

DALVA (sofrendo): Você nunca reclamava da comida… Sempre dizia que estava boa demais…

Ela levanta, anda até o quarto de Clara. Abre a porta devagar, o quarto intocado, cama esticada, no armário nenhuma roupa. Anda até uma penteadeira e vê um colarzinho de conchas, esquecido. Pega e aperta contra o peito.

DALVA (choro contido): Volta pra casa, filha… Cuida dela, meu Deus. Mesmo longe, não deixa que nada aconteça com a minha menina. (aperta o colar) Esse aperto no peito…

Dalva senta na cama, abraça o travesseiro e finalmente desaba. O choro vem forte. A câmera se afastando.
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CENA 7. LAPA – BAR – NOITE
A noite agitada na Lapa. Música alta, risadas, bebida e petiscos sendo servidos de mesa em mesa. Os arcos iluminados ao fundo. O bar simples, antigo, mesas ocupadas por clientes barulhentos. Clara, com avental simples, expressão cansada, leva uma bandeja com duas cervejas de garrafa. Se aproxima de uma mesa com três homens. Um deles, encara com malícia.

CLARA (tom baixo, educada): Boa noite. As cervejas.

Ela coloca os copos na mesa. Quando se vira para sair, o homem segura levemente seu pulso.

FREGUÊS: Calma aí, princesa. (sorri malicioso) Você é nova por aqui, não é?

Clara congela, engole seco. Ela puxa o braço de volta.

FREGUÊS (rindo): A gata é arisca. Calma, princesinha, só tô sendo simpático.

Os amigos riem. Clara se afasta rápido, quase tropeçando, volta para trás do balcão, onde está dona Elza.

CLARA (assustada): Dona Elza… Aquele homem… Ele segurou meu braço.

Elza olha rapidamente a mesa, volta a limpar um copo, indiferente.

ELZA: Ele bebe aqui há anos. Fala besteira mesmo.

CLARA: Mas eu fiquei com medo. Ele me olhou de um jeito…

ELZA (encarando dura): Escuta aqui, menina, aqui é um bar na Lapa. Cantada, olhar atravessado, gracinha… Isso faz parte do pacote. Você me disse que não tinha pra onde ir, eu te dei um quarto, comida e emprego. Agora engole o choro, tem muita mesa pra atender.

Clara surpresa com as palavras duras da dona do bar. Engole o choro.

CLARA: Eu só queria trabalhar em paz.

ELZA: Paz aqui é luxo. Aqui você aprende a se defender e ignorar… Ou não fica. (entrega outra bandeja) Mesa sete. E anda, que cliente não gosta de esperar.

Clara segura a bandeja com as mãos trêmulas, olhos tristes. Respira fundo e sai para servir mais uma mesa. Elza a analisando, de trás do balcão.
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CENA 8. MANSÃO MARINS – SALA – NOITE
Sala da mansão parcialmente iluminada. Estela sentada no sofá, folheia um livro, desatenta. Uma taça de vinho tinto sobre a mesa de centro. Pedro surge no topo da escada, observa a esposa por longos minutos. Desce lentamente, até alcança-la.

PEDRO: Ocupada?

Estela fecha o livro, olha com pesar.

ESTELA: Tentando me concentrar, mas… O pensamento não estava mesmo no livro.

Pedro suspira, senta ao seu lado no sofá.

PEDRO: Pensei que se endurecesse, não iria sentir, mas, é mentira. A dor não passou mais rápido.

ESTELA (concorda): E nesse processo, você me deixou sozinha, carregando essa dor. Eu chorava pela Lia, chorava por você… Porquê eu não te reconhecia mais.

PEDRO (engolindo seco): A verdade é que eu via você sofrer, e me sentia culpado demais pra me aproximar, Estela. Era mais fácil fingir que conseguia controlar os negócios, já que naquele dia, não consegui controlar nada. Eu perdi a minha filha.

ESTELA: Nossa filha sumiu no mar, Pedro. O nosso filho cresceu com medo de errar e ironicamente vive errando sempre, por isso, e eu… Virei uma estranha dentro da nossa própria casa. Nós dois viramos estranhos nesse casamento.

Pedro baixa a cabeça, entristecido.

PEDRO: Eu sei. Falhei como marido e como pai.

Estela cruza os braços, tentando se proteger emocionalmente.

ESTELA: Você sabe o que mais me doeu em todos esses anos? Foi perceber que você preferiu se refugiar no trabalho, a encarar quem estava esperando por você aqui. Você virou as costas pra quem te amava.

PEDRO: Estela…

ESTELA (interrompe, direta): Eu pensei em divórcio, Pedro.

Pedro a olha com espanto, olhos arregalados.

PEDRO: O quê?!

ESTELA (respira fundo): Eu quero me separar de você.

Closes alternados. Pedro atingido de forma profunda. Estela mantendo sua decisão.

A imagem congela em ESTELA e as águas do mar cobrem a tela.


(FIM DO CAPÍTULO)

Avaliação: 1 de 5.

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