Mar Aberto: Capítulo 10

MAR ABERTO 🌊 | web novela
CAPÍTULO 10

criada e escrita por: Ruan Ferreira
autorização especial: LRTV

Abertura: https://youtu.be/jmBUDjDyPwE?si=_XySJe63VWO9nuUi

CENA 1. LAPA – BAR – NOITE
Clara tenta gritar por socorro, mas a música no bar cobre qualquer som. O cliente a pressionando na parede, enquanto fala próximo de seu ouvido.

CLIENTE: Fica quietinha, princesa. Agora você vai aprender a servir direitinho os clientes daqui…

O corpo de Clara tremendo de medo. Clara o empurra com todas as forças, grita por socorro e tenta correr, mas ele a segura novamente por trás e a vira para ele.

CLARA (gritando desesperada): ME SOLTA! SOCORRO!

Ele a agarra, e ela chuta entre as pernas dele. O homem geme de dor, se curva tropeçando. Clara o empurra e corre para o salão, ofegante, cabelos desgrenhado e olhar de completo pânico.

No SALÃO DO BAR, alguns clientes riem, bêbados. Clara atravessa até o balcão, onde ELZA enxuga copos.

CLARA (desesperada): Aquele homem… Nojento… (chorando) Ele me agarrou lá atrás. Ele tentou…

Elza a olha com indiferença, sem muita importância.

ELZA: Do que cê tá falando, garota?

Clara aponta para os fundos, tremendo.


CLARA (voz embargada): O cliente que me assediou na mesa… Ele me agarrou!

Dona Elza suspira fundo, larga o copo com força no balcão e encara Clara de cima a baixo.

ELZA (irritada): Cê mal chegou e já tá me dando dor de cabeça, garota!

CLARA (surpresa): Eu?! Mas foi ele que…

ELZA (interrompendo, raiva): Você acha mesmo que eu não conheço esse tipo de história? Menina, você chegou aqui sozinha… Bonita… Homem bêbado confunde mesmo as coisas…

CLARA (chorando): Eu não fiz nada! Eu só tava trabalhando! Ele tenta abusar de mim, e agora a culpa é minha?

ELZA: A culpa é de quem não sabe onde tá se metendo. (seca) Acho melhor tu pegar tuas coisinhas e dar o fora do meu bar. Tá na cara que o teu lugar não é aqui!

Clara, chocada, a encarando. O cliente que a agarrou, vindo dos fundos do bar, a encarando com raiva. Clara encara Elza, seca as lágrimas com força e raiva. Concorda.

CLARA: Vocês são farinhas do mesmo saco! Eu tenho nojo de vocês!

Clara sai dali, revoltada. Sem dizer mais nada, vai até o quartinho onde estava, joga as poucas roupas em sua velha mochila, as mãos tremendo. Chora baixinho, coloca a mochila nas costas e sai dali.
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CENA 2. LAPA – NOITE
A noite pulsando na Lapa. Música, risos, gente bêbada, luzes coloridas. Clara caminha sem rumo, abraçando a mochila contra o corpo, lágrimas escorrendo sem controle. Para no meio da calçada, perdida, o barulho da cidade a engolindo.

CLARA (sussurrando para si): Eu tô sozinha, meu Deus… Sozinha!

Continua andando, pequena no meio da imensidão da cidade que não conhece. A câmera se afastando por cima, alcançando o céu.
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CENA 3. RIO DE JANEIRO – PRAÇA – DIA
A câmera vai descendo. O Sol já despontando, céu azul. Em um banco de concreto numa praça qualquer da cidade, Clara dorme encolhida, a mochila servindo de travesseiro. Rosto cansado, marcado pelas lágrimas da noite anterior. Barulho de pássaros, ônibus e gente andando no início da manhã. Uma mulher com sacolas de feira vai passando pela praça, para de repente, volta alguns passos e observa melhor. É CEMA, mais velha, simples.

CEMA (surpresa): Clara?!

Clara se mexe, abre os olhos com dificuldade. Demora a reconhecer.

CLARA (confusa): Onde eu tô? Quem… A senhora…

CEMA (tocando em seu ombro): Minha Nossa Senhora, é você mesma. A filha da Dalva.

Clara senta de supetão, espantada.

CLARA: Cema? (emocionada) O que você tá fazendo aqui?

CEMA (rindo emocionada): A vida me trouxe, ué. (olha em volta) E você, Clarinha? O que tá fazendo dormindo aqui, menina? E tua mãe, cadê ela?

CLARA (abaixa os olhos): É uma longa história. Eu não tenho pra onde ir.

Cema senta ao seu lado, no banco.

CEMA: Depois tu me conta direitinho então, mas você não pode ficar mais aqui. Vem, vamos pra minha casa.

Clara tenta segurar, mas desaba em choro, cobre o rosto com as mãos. Cema a abraça, acolhendo.

CEMA (sensibilizada): Chora, filha. Chora tudo que tiver pra chorar.

Cema a acarinhando. Clara buscando abrigo na velha conhecida.
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CENA 4. SUBÚRBIO – CASA DE CEMA – COZINHA – DIA
Clara sentada à mesa, segurando uma caneca com as duas mãos. Olhos inchados de chorar, mas aliviada. Cema coloca um prato com pão e manteiga diante dela.

CEMA: Come. Depois a gente conversa.

Clara morde o pão, mas logo as lágrimas voltam.

CLARA (emocionada): Se não fosse você… Eu nem sei o que teria acontecido comigo.

CEMA (sentando em sua frente): Às vezes, Deus cruza os caminhos com um propósito. (sorri) Fui vizinha de vocês em Arraial, durante anos. Sua mãe cuidou da minha mãe quando ela ficou doente, lembra?

Clara sorri, balança a cabeça positivamente. Cema segura sua mão sobre a mesa.

CEMA: Então… Chegou minha vez de retribuir, cuidando da menina dela. Aqui você não tá sozinha, nem hoje, nem nunca.

Clara levanta e abraça Cema com força. A câmera afastando no abraço.
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CENA 5. ATLÂNTIDA NÁUTICA – ESTALEIRO – DIA
O galpão industrial da Atlântida tomado pelo som de máquinas, soldas e empilhadeiras. Em uma área mais reservada, mesas técnicas cobertas de plantas e pranchetas. Lucas reunido com o SUPERVISOR de setor. Na mesa, folhas espalhadas.

LUCAS: Eu sei que tô começando, mas quero aprender. Quero fazer algo que realmente conte aqui dentro.

SUPERVISOR: Fiquei sabendo que você anda interessado em se destacar. Talvez aqui seja sua chance.

Ele aponta para os cálculos impressos, cheios de gráficos e esquemas do novo modelo de jet-ski.

SUPERVISOR: O projeto do novo casco esportivo. Leve, mais rápido e mais eficiente. (finge hesitar) Ainda está em fase de ajustes, mas se alguém aparecer com uma solução pronta, bem estruturada… Isso pode impressionar muita gente. E eu soube que você se formou em Engenharia.

Lucas folheia os papéis, olhos brilhando. O supervisor o analisando.

SUPERVISOR: Você acha que consegue finalizar o projeto a tempo pro lançamento da nova linha? O prazo é apertado.

LUCAS (empolgado): Isso aqui… Isso é grande! Se der certo, é o tipo de projeto que meu pai respeita.

SUPERVISOR (satisfeito): Pedro Marins valoriza resultados. Se você apresentar esse projeto, sólido… Funcional… Ele vai começar a te enxergar diferente. Então, garoto? Acha que consegue?

Lucas engole seco, encara os papéis, vislumbra a possibilidade que tanto esperava.

LUCAS: É tudo o que eu quero.

SUPERVISOR (sorri satisfeito): Perfeito. Esses cálculos já foram revisados, pode confiar. Preciso apenas de alguns ajustes finais. Pode confiar, depois disso aqui, o seu pai vai passar a te enxergar de outra forma.

LUCAS: Não sei nem como agradecer. Essa era a oportunidade que eu sempre esperei. Obrigado de verdade.

Lucas sorri nervoso, vai recolhendo as folhas de projeto, sob o olhar atento do supervisor. A câmera vai desviando para o segundo piso da fábrica, onde João Felipe os observa, sorriso de canto, satisfeito pelo sucesso da isca que jogou.
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CENA 6. RIO DE JANEIRO – CENTRO – GALERIA – DIA
(Ao som de: Por Supuesto – Marina Sena)

A luz do Sol atravessa os vãos de uma galeria no Centro do Rio. Bianca surge do lado de fora, discretamente, óculos escuros, olhar fixo em Gustavo, alguns metros à frente. Ele anda com pressa, o celular no ouvido, falando baixo para não ser ouvido. Bianca mantém distância, tentando parecer apenas mais uma entre tantos.

GUSTAVO (cel. Tenso): Não agora… Eu já tô chegando. (pausa) Não, não dá pra ser em outro lugar, você sabe.

Gustavo entra pela galeria, Bianca hesita, mas vai atrás. Dentro da galeria, Bianca acelera o passo, mas perde o marido de vista entre os corredores transversais.

BIANCA (sussurrando): Droga!

Procura, olhando para os lados, anda mais alguns passos, e não encontra Gustavo.

BIANCA: Onde você se enfiou, Gustavo?

Bianca desconfiada e frustrada.
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Com a música anterior ainda tocando, várias imagens do Rio de Janeiro entardecendo, anoitecendo e amanhecendo novamente, em algumas tomadas de pontos turísticos, como o Pão de Açúcar, Cristo Redentor e a Lagoa Rodeiro de Freitas. A tomada final em tela é nos estaleiros da Atlântida Náutica, onde se faz presente uma grande movimentação. É a festa de lançamento da nova linha de jet-skis da empresa.

CENA 7. ATLÂNTIDA NÁUTICA – ESTALEIRO – DIA
Bandeiras com a logomarca da empresa tremulam por toda a extensão do estaleiro. Jet-skis alinhados sobre plataformas, reluzem sob o sol, enquanto convidados circulam com taças de bebidas. Clima de celebração. Câmeras de TV, fotógrafos e jornalistas se espalham pelo espaço. Entre eles, VICKY (Lellê), segurando um microfone com a logomarca do portal para o qual trabalha.

VICKY: Estamos aqui no estaleiro da Atlântida Náutica para o lançamento da nova linha de jet skis da empresa, que promete unir tecnologia, desempenho e sustentabilidade.

Ela encerra com naturalidade. O cinegrafista abaixa a câmera.

CINEGRAFISTA: Boa, Vicky. Vamos pegar umas imagens de apoio agora.

Ela concorda, observa o movimento ao redor. Seus olhos percorrem os convidados e param em Lucas, próximo a um dos jet skis, expressão um pouco tensa. Ela se aproxima, fingindo interesse técnico no produto. Lucas percebe sua presente e se aproxima, forçando um sorriso.

LUCAS: Se quiser testar, esse modelo é o mais estável da linha.

VICKY (sorri interessada): E você é o garoto propaganda?

LUCAS (ri): Longe disso. (Cumprimenta) Lucas.

VICKY: Vitória… Vicky. E você claramente não parece confortável nesse evento todo.

LUCAS (respira fundo): É… Eu só preferia estar sem essa gente toda, esse palco… Me sinto meio sufocado aqui dentro.

VICKY: Uau, isso vindo de quem vai herdar tudo isso aqui um dia, é uma declaração até meio chocante. Posso publicar?

LUCAS (rindo): Meu pai me mata se ler a matéria. Mas interessante, você me conhece… (jogando charme) Não sabia que a minha fama já tinha se espalhado assim.

VICKY: Nesse meio é difícil não conhecer os Marins. Seu pai é uma lenda no meio empresarial. Deve ser interessante ter um chefe exigente assim…

Antes que responda, Lucas desvia o olhar e vê Pedro alguns metros dali, cercado de executivos importantes. Expressão meio entristecida.

LUCAS: Você nem imagina o quanto…

VICKY: Bem… (entregando um cartão) Se um dia quiser falar sobre a Atlântida… Ou sobre qualquer outra coisa, me procura.

Lucas pega o cartão, os dedos deles se tocam rapidamente. Um novo olhar se cruza, mais intenso.

LUCAS: Acho que tenho muita coisa pra falar…

VICKY (sorri de canto): Então o caminho natural é nos vermos de novo… Lucas Marins.

Ela se afasta, voltando ao trabalho, enquanto Lucas a observa ir. Olha o cartão, sorri de canto e guarda no bolso. A festa continua, vista de cima.

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CENA 8. CASA DE CEMA – SALA – DIA
Clara sentada no sofá, com o celular nas mãos. Desliza a tela, para de repente, lendo com atenção.

CLARA (Lendo baixo): Precisa-se de doméstica. Dormir no local. Urca…

Ela vai lendo, respira fundo. Cema entrando no local, sentando junto.

CEMA: Aconteceu alguma coisa aí, Clarinha? Desde cedo nesse celular…

CLARA (sorri): Achei, Cema. Na Urca, uma vaga de doméstica. Dormindo no emprego.

CEMA (Avaliando): Urca é um bairro bom, costumam pagar bem, mas dormir no trabalho… É pesado, filha.

CLARA: Eu sei. Mas é carteira assinada, casa, comida… E eu penso em ir mais longe, Cema. Não quero só sobreviver, eu quero estudar. Quero voltar a sonhar com a faculdade… (Sorri) Biologia marinha. Sempre foi isso… O mar, os bichos, a natureza. Eu deixei tudo pra trás em Arraial, mas esse sonho eu não quero abandonar.

Cema pega na mão de Clara.

CEMA: E você acha que esse emprego pode te ajudar nisso?

CLARA (Sorri): Tenho certeza. Alguma coisa aqui dentro me diz que esse emprego aqui, é a porta de início pra minha vida mudar pra sempre…

As duas trocam olhares cheios de esperança. A imagem congela em CLARA e as águas do mar cobrem a tela.

(FIM DO CAPÍTULO)

Avaliação: 1 de 5.

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