Mar Aberto: Capítulo 11

MAR ABERTO 🌊 | web novela
CAPÍTULO 11

criada e escrita por: Ruan Ferreira
autorização especial: LRTV

Abertura: https://youtu.be/jmBUDjDyPwE?si=PCWknCmUYr7kvK74

CENA 1. CASA DE CEMA – QUARTO – DIA
Clara entra no quarto e senta-se na beirada da cama, com o celular em mãos. Respira fundo, juntando coragem. Clica o nome “MÃE” na tela. (A imagem intercala entre a casa de Cema, e a casa de Dalva, na ligação).


DALVA (aflita): Clara? É você, filha? Onde você tá?


Clara fecha os olhos por um instante, antes de responder.


CLARA: Tô bem… Pode ficar tranquila. Eu tô na casa da Cema, lembra dela? Nossa vizinha em Arraial.

DALVA (mão no peito): Graças a Deus. Eu não consigo dormir direito, desde que você saiu de casa, Clara. Pelo amor de Deus, volta pra sua casa, minha filha. Volta pra sua mãe…

CLARA (controlando o choro): Ainda não… Eu não consigo, ainda preciso de um tempo pra toda essa história.

Dalva enxuga uma lágrima.

DALVA: Sei que as pessoas podem me julgar, que você pode me condenar por ter escondido a verdade por todos esses anos, mas eu quero que você saiba que eu tive medo, filha. Medo de te perder… Mas uma coisa nessa história nunca foi mentira: Eu te amo, Clara! Eu te amo mais que a minha própria vida! A minha casa sempre vai ser a sua.

Clara chora de um lado da linha, e Dalva chora de outro.

CLARA (engolindo o choro): Eu sei. É por isso que tô ligando, pra você não achar que tô jogada por aí. Eu tô segura.

DALVA: Promete que vai me ligar? Pelo menos pra dizer “tô viva”…

Clara segura o choro.

CLARA: Prometo.

DALVA (baixinho): Eu te amo, minha filha.

Clara fecha os olhos, a mágoa e o amor misturados. Ela vai encerrando a ligação devagar. Fica olhando o celular por alguns segundos, deita na cama simples, encarando o teto, ainda machucada.
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CENA 2: ATLÂNTIDA NÁUTICA – ESTALEIRO – DIA
Um MESTRE DE CERIMÔNIAS sobe ao palco montado diante dos jet-skis. Os convidados se aproximam, taças nas mãos. Funcionários se alinham mais atrás, atentos.

MESTRE DE CERIMÔNIAS: Senhoras e senhores, é com grande orgulho que convidados para fazer uso da palavra o presidente da Atlântida Náutica: Pedro Marins.

Aplausos. Pedro sobe ao palco com passos firmes, os olhos percorrendo os presentes, entre funcionários, executivos e jornalistas. Seu olhar cruza com o de Lucas, mais afastado, pigarreia, enquanto ajusta o microfone.

PEDRO: Boa tarde à todos. Hoje não é apenas o lançamento de uma nova linha de jet skis. É a reafirmação de um compromisso que a Atlântida assumiu há décadas. Compromisso com o mar, com a inovação e com as pessoas que constroem essa empresa todos os dias.

Alguns executivos assentam, satisfeitos.

PEDRO: A Atlântida Náutica nasceu pequena, como um sonho quase improvável. Cresceu enfrentando crises, perdas, momentos difíceis… (Voz pesada) Vivemos em um país onde muitos acreditam que a herança é garantia de sucesso. Eu nunca acreditei nisso. Aqui, ninguém tem lugar garantido.

O clima pesado. Estela desviando o olhar, ao lado de Bianca incomodada. Lucas, em outro ponto, bebe um gole de uísque, duro. Silveira e João Felipe trocando olhares.

PEDRO: O que nos mantém em pé é o trabalho. Responsabilidade. Respeito. E a coragem de aprender. Essa nova linha de lançamento, representa exatamente isso: tecnologia de ponta, segurança, sustentabilidade, e compromisso com o futuro. Nada disso seria possível sem nossos engenheiros, técnicos, operários, mergulhadores, parceiros e colaboradores. Pessoas que chegam cedo, saem tarde e não aparecem nas manchetes… mas são o verdadeiro motor dessa empresa.

Alguns funcionários se emocionam, trocando olhares orgulhosos.


PEDRO: Que este lançamento marque não apenas um novo produto no mercado, mas uma nova etapa de crescimento, seriedade e responsabilidade para todos nós. Muito obrigado. E sejam todos bem-vindos ao futuro da Atlântida Náutica.

Aplausos fortes ecoam pelo estaleiro. Câmeras disparam flashes. O mestre de cerimônias retorna ao palco.

Lucas aplaude, contido, com sentimentos misturados. João Felipe se inclina discretamente para Silveira, murmurando algo inaudível, enquanto observa Pedro ser cercado por empresários e jornalistas.

Ao longe, Vicky anota algo em seu bloco, olhando alternadamente para Pedro e para Lucas.
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CENA 3: ARRAIAL DO CABO – CASA DE DALVA – FRENTE – DIA
Dalva está em frente à sua casinha simples, de paredes gastas pelo salitre. Com as mãos trêmulas, prende uma placa de “VENDE-SE” no portão de madeira. Se afasta um passo, observa a casa. Os olhos marejam. Ao longe, Zé Bento surge vindo do bar. Para abruptamente ao notar a placa.

ZÉ BENTO (incrédulo): Que palhaçada é essa, Dalva? “Vende-se”?

DALVA: Não é palhaçada nenhuma. Essa casa foi tudo que eu tive por muitos anos, mas agora ela não me serve mais.

ZÉ BENTO: Você enlouqueceu de vez? Essa casa é tudo que a gente tem! E desde quando você toma decisão assim sozinha, Dalva?

DALVA (firme): Desde que você deixou de ser meu marido e virou um estranho.

ZÉ BENTO (debochando): E pra onde você acha que vai? Atrás da sua filhinha ingrata? Você vai vender a nossa casa por causa daquela menina?!

Dalva dá um passo para frente, o encarando sem medo.


DALVA: Não ouse falar da minha filha desse jeito. Ela foi embora porque você a afastou daqui com a sua boca suja e com suas mentiras.

ZÉ BENTO: Eu falei a verdade! E eu fico como nessa história, hein? Vai me largar aqui, sozinho?

DALVA: Você já tá sozinho faz tempo, Zé Bento. FIquei foi tempo demais ao seu lado esperando o homem que você foi um dia voltar. Eu vou vender essa casa. Vou juntar cada centavo e vou atrás da minha filha. Se ela precisar de mim dormindo num quarto apertado, num canto qualquer do Rio… é lá que eu vou estar.


Zé balança a cabeça atônito, amargurado.

ZÉ BENTO: Você não vai conseguir. A cidade grande engole gente como você.

DALVA: Pois eu prefiro ser engolida, tentando salvar minha filha, do que morrer afogada nessa casa, do teu lado.

Ela passa por ele, entra em casa. Zé Bento fica parado, segurando a placa amassada nas mãos. Olha em volta, perdido, ressentido.
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CENA 4: ATLÂNTIDA NÁUTICA – ESTALEIRO – DIA
(Ao som de: Garden of Eden – Lady Gaga)

Garçons circulam com bandejas de espumante. Jornalistas entrevistam executivos. O sol já começa a baixar, dourando o estaleiro. Estela caminha distraída entre os convidados, ainda impactada pelas palavras do marido. Segura a taça com delicadeza, perdida em pensamentos, quando de repente, esbarra em alguém. O choque é leve, mas suficiente para quase derramar o espumante.

ESTELA: Ai, me desculpa, eu estava distraída…

Ela levanta o olhar e seus olhos cruzam com os de RAFAEL (Felipe Roque). Ele segurando copo, sorrindo para ela.

RAFAEL (gentil): Não foi nada grave. Foi só o susto, prejuízo emocional.

Estela sorri, sem perceber.

ESTELA: Aproveite a festa! E desculpe mais uma vez.

Estela se afasta. Rafael sorrindo, meio bobo, em sua direção. Francisco se aproxima.

RAFAEL: Que mulher incrível, meu amigo.

FRANCISCO: Pelo visto, você não tem lido as colunas sociais do Rio, tem pelo menos uns vinte anos, meu amigo.

RAFAEL (sem entender): Como assim? Você sabe quem ela é?

FRANCISCO (rindo): Só uma das donas disso tudo aqui. Ela é Estela Marins, esposa do Pedro, presidente da Atlântida.

Rafael coloca a mão sobre o rosto.

RAFAEL: Que azar o meu…

FRANCISCO: Pela taça derramada e por esse brilho aí que surgiu nos seus olhos. (encara) Ela é casada há quase tantos anos quanto você tem de vida. Pode tirando essa mulher da cabeça. Com essa, você não vai conseguir nada, doutor.

RAFAEL: Às vezes a gente não escolhe por quem se encanta.

FRANCISCO: O que a gente escolhe é não se meter onde vai dar ruim.

Rafael não responde, bebe um gole, pensativo. Do outro lado do estaleiro, Bianca conversa animadamente com convidados, quando Gustavo congela por um instante ao ver SÉRGIO (Túlio Starling) entrar na festa. O sorriso de Gustavo desaparecendo. Sérgio, elegante, cumprimenta algumas pessoas pelo caminho. Gustavo vira incomodado. Bianca percebe.

BIANCA: Amor? Você ficou pálido de repente. Tá tudo bem?

GUSTAVO (Tentando disfarçar): Deve ser o calor… evento grande assim sempre me deixa meio tenso.


BIANCA: Quer sair um pouco daqui? Pegar um ar?

GUSTAVO: Não precisa. Já, já passa.

Enquanto Bianca se vira para cumprimentar alguém, Gustavo lança um olhar rápido para Sérgio, que percebe, e responde com um discreto sorriso de canto, quase imperceptível. Gustavo se vira, engolindo seco.
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CENA 5: ATLÂNTIDA NÁUTICA – ESTALEIRO – PÍER – DIA
O píer no lado de fora do estaleiro foi montado exclusivamente para a demonstração da nova linha de jet skis da Atlântida. Câmeras de TV posicionadas, fotógrafos atentos, drones sobrevoando o mar calmo. Um telão exibe o logo da empresa enquanto a voz do cerimonialista ecoa.

CERIMONIALISTA: E agora, para demonstrar a potência e a inovação da nova linha Atlântida WaveX, convidamos Lucas Marins, representante da nova geração da empresa!

(Ao som de: Adventure Of a Lifetime – Coldplay)

Aplausos. Lucas surge vestindo colete salva-vidas, confiante. Troca um olhar rápido com Pedro, que observa sério, mas atento. Na beira do píer, João Felipe acompanha tudo com um sorriso contido. Ao lado dele, o Supervisor que passou os cálculos errados evita encarar qualquer pessoa. Lucas sobe no jet ski. Liga o motor. O ronco potente arranca aplausos da plateia. Ele acelera suavemente, faz uma curva elegante perto do píer. A imprensa vibra, flashes pipocam.

No meio da manobra seguinte, Lucas decide forçar um pouco mais, afim de impressionar. De repente, o som do motor engasga. Lucas franze a testa, confuso. Ele acelera novamente, mas nada acontece. O motor morre completamente, deixando o jet ski à deriva, balançando de forma constrangedora bem diante do público. Um silêncio pesado cai sobre o estaleiro. Os fotógrafos não perdem tempo.

JORNALISTA 01: Isso faz parte da apresentação?

JORNALISTA 02: Parece que não…

Lucas tenta dar partida de novo, visivelmente nervoso. Um barco de apoio se aproxima às pressas para rebocar o veículo. A cena é registrada por todos os ângulos possíveis.

No píer, Pedro fecha o rosto.


PEDRO (furioso/ para Gustavo): Quem autorizou o Lucas a conduzir essa demonstração com esse modelo?

GUSTAVO: Lucas garantiu que estava tudo revisado.

Pedro tenta manter a postura, encara Estela, aflita, e sai pisando firme. Lucas chegando ao píer, frustrado, já sendo cercado pela imprensa. A poucos metros dali, João Felipe se vira para Silveira, segurando uma taça de champanhe nas mãos.

SILVEIRA (Sorrindo de canto): Conseguiu o que queria, João. O Pedro saiu furioso com esse circo todo.

JOÃO FELIPE: Nada derruba um filho mais rápido do que a decepção do pai. Um tropeço de cada vez… Até o meu irmãozinho cair de vez.

Lucas frustrado e envergonhado cercado pela imprensa. A festa virou um cenário lamentável e vexatório.
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Imagens do Rio de Janeiro anoitecendo aos poucos. As luzes diurnas dando lugar as paisagens noturnas da cidade. Close final na frente da mansão da família Marins.

CENA 6: MANSÃO MARINS – SALA – NOITE

Lucas entra em casa com Estela, ainda tensos, ele joga a jaqueta no sofá. Pedro está de pé, próximo à janela, de costas. Segura um copo de uísque. Se vira de súbito.

LUCAS: Pai, eu queria te dizer que…

PEDRO (cortando a fala): Você tem noção do que fez hoje?

LUCAS: Eu segui o projeto que me passaram. O jet ski estava liberado.

PEDRO: Liberado por quem? Por você?! (Se aproxima, nervoso) Você se acha no direito de decidir quando um produto da Atlântida pode ou não ir pra água?

LUCAS: Eu só quis mostrar serviço! Provar que posso ser mais do que o filho-problema que você enxerga!

PEDRO: Serviço?! Você transformou a empresa da minha vida num circo! Jornalista rindo, acionistas me cobrando o vexame, além dos concorrentes brindando esse espetáculo!

ESTELA: Pedro, chega. Ele também foi vítima de uma falha técnica.

PEDRO: Vítima, Estela? Ele é irresponsável, sempre foi!

LUCAS: Você nunca quis me dar uma chance de verdade! Desde que a Lia sumiu, eu virei um estorvo nessa casa!

PEDRO (explodindo): Não ouse usar o nome da sua irmã!

LUCAS (gritando): Por quê? Porque lembrar dela dói demais pra você?! Porque naquele dia foi o filho errado que desapareceu naquele maldito acidente? PORQUÊ ERA PRA TER SIDO EU?!

Estela segura o braço de Lucas, chorando. Cecília descendo as escadas. Clima de tensão. Pedro se vira de costas, chora furioso.

PEDRO: Você me faz pensar exatamente isso com cada atitude inconsequente!

ESTELA: Chega, Pedro! Você tá indo longe demais!

PEDRO (se vira): Longe demais eu fui quando tentei ser um pai compreensivo! Quando fechei os olhos pra tudo que ele fazia achando que uma hora ele ia amadurecer! (se aproxima de Lucas) Você só sabe me envergonhar!


LUCAS (choro de raiva): Você nunca me enxergou como filho!


PEDRO: Eu perdi a Lia. E ganhei um filho que não sabe honrar o que tem!


Estela segurando Pedro pelos braços, tentando fazer com quem ele a encare.

ESTELA: Chega, para com isso! Não se diz isso pra um filho, Pedro! Você está cego pela dor. Está transformando seu luto em violência!

PEDRO: Violência foi o que o destino fez comigo! E agora eu pago o preço vendo o filho errado no lugar da minha filha QUE DEVERIA ESTAR VIVA! DO MEU LADO!

ESTELA (explode): CHEGA!

Estela dá um tapa sonoro no rosto de Pedro, que a encara, surpreso. Lucas chora diante do pai. Cecília chocada com aquela cena. Pedro e Estela se encaram fortemente.

ESTELA: Você passou de todos os limites, Pedro! SAI DESSA CASA! AGORA!

Closes alternados. O choque de Pedro diante da fúria de Estela.

A imagem congela em PEDRO e as águas do mar cobrem a tela.

(FIM DO CAPÍTULO)

Avaliação: 1 de 5.

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