MAR ABERTO 🌊 | web novela
CAPÍTULO 12
criada e escrita por: Ruan Ferreira
autorização especial: LRTV
Abertura: https://youtu.be/jmBUDjDyPwE?si=Olt7q_aJ5LmXnvSN
CENA 1. MANSÃO MARINS – SALA – NOITE
Pedro encara fortemente Estela. A família chocada com a cena da briga.
PEDRO: Estela…. Você sabe que eu estou vivendo sob pressão…
ESTELA (cortando a fala): Chega, Pedro. A dor não te dá direito de destruir o que ainda resta da nossa família, do meu filho… Eu tô colocando um ponto final nessa história essa noite.
PEDRO: Eu perdi a Lia, Estela…
ESTELA: Eu também perdi! Mas em nenhum momento eu virei um monstro, uma pessoa cruel.
PEDRO: Você vive passando a mão na cabeça do Lucas.
ESTELA: EU PROTEJO O LUCAS! Alguém precisa fazer isso quando você perde o controle! (passa a mão pelo rosto) Nesse momento, eu quero que você saia dessa casa. Não quero dormir debaixo do mesmo teto, depois do que você fez.
PEDRO (rindo incrédulo): Você está me expulsando da minha própria casa?
ESTELA: Da NOSSA casa! E neste momento, você não tem condições de ficar aqui. Arruma suas coisas, vai para um hotel, um flat, sei lá… Qualquer lugar!
Estela sai do ambiente, subindo as escadas, nervosa. Cecília se aproxima do filho.
PEDRO: Você viu, mamãe? Acha isso certo?
CECÍLIA: Você tem machucado todas as pessoas à sua volta, Pedro. Em algum momento, precisava responder pelas suas atitudes.
Pedro e Lucas se encaram com frieza. Lucas sai do local, batendo a porta. Pedro bufa, passando a mão pelos cabelos.
PEDRO (concorda): Responder pelas minhas atitudes…
Nele, pensativo.
🛥️
CENA 2. RIO DE JANEIRO – FLAT – QUARTO – NOITE
(Ao som de: Sensível Demais – Marília Mendonça)
Pedro entra no flat silencioso, impessoal. Joga a mala no chão, senta-se na cama, exausto. Tira do bolso a carteira, abre, observa uma foto antiga de Lucas e Lia crianças, sorrindo. O homem duro desmorona, leva a mão ao rosto, chorando copiosamente. A câmera desvia para a vida lá fora. O céu escuro.
🛥️
Ainda rolando a música anterior, o Sol vai surgindo no Céu, revelando a paisagem magnífica do alto de Arraial do Cabo. Arredores da vila de pescadores.
CENA 3. ARRAIAL DO CABO – CASA DE VÓ NENA – COZINHA
O Sol entrando pela janela da cozinha. Vó Nena servindo uma xícara de café para Dalva, sentada na mesa.
VÓ NENA: Decidiu mesmo vender a casa…
DALVA: Preciso ir atrás da minha menina, vó. Clara pode até não querer me ver agora, mas precisa saber que eu tô por perto. Nem que seja de longe.
Do lado de fora, Tiago passa pelo quintal, arrastando uma rede de pesca sem vontade alguma. O semblante abatido chama a atenção das duas.
VÓ NENA: Esse menino anda com o coração apertado desde que a Clara partiu. O riso sumiu do rosto dele… E isso nunca é bom sinal.
DALVA: Ele sempre foi apaixonado por ela. Só que amor guardado dói mais do que amor vivido.
Dalva levanta, vai até a porta e chama o rapaz com suavidade.
DALVA: Tiago… chega aqui um instante. Tava aqui conversando com a Vó Nena… E pensei numa coisa que talvez você não tenha coragem de pensar sozinho. (pausa) Você já pensou em ir pro Rio?
TIAGO: Pro Rio? Se for sobre a Clara, dona Dalva, ela não quer nem me ver… Ela saiu daqui magoada com todo mundo.
DALVA: Às vezes, a gente não vai pra ser recebido. Vai pra mostrar que não desistiu.
Tiago encara Vó Nena, sem saber o que responder.
TIAGO: O que a senhora acha, vó?
VÓ NENA: Ficar parado também é uma escolha… só que costuma doer mais depois. (o acarinha) O destino gosta de quem atravessa o medo.
TIAGO: Eu nunca saí de Arraial. O mar sempre foi meu chão.
DALVA: E talvez agora ele esteja te empurrando pra outro caminho. Ninguém tá dizendo que é pra sempre. Mas se você não for, pode passar a vida inteira se perguntando “e se…”.
Tiago pensativo, olha o mar ao longe, buscando respostas dentro de si.
TIAGO: Preciso pensar.
DALVA (sorrindo): Pense. Mas não pense demais a ponto de perder o trem.
Tiago concorda, vai saindo do local. Dalva encara Vó Nena.
DALVA: Tomara que ele vá. Clara vai precisar de alguém que a ame sem pedir nada em troca.
VÓ NENA (tocando seu ombro): E você também, minha filha.
Dalva a encara, pensativa.
🛥️
CENA 4. ARRAIAL DO CABO – PRAIA – DIA
Tiago sentado num tronco de madeira, mexendo distraído na areia com um pedaço de galho. Gabi se aproxima, sentando ao seu lado.
GABI: Tá com cara de quem perdeu o rumo. Aconteceu alguma coisa?
TIAGO: Dalva me chamou pra conversar hoje. Disse que tá indo pro Rio atrás da Clara… (pausa) E sugeriu que eu fosse também.
GABI (fecha a cara): Pro Rio? Tiago, isso é loucura. Clara saiu daqui dizendo que queria distância de todo mundo. Você acha mesmo que ela vai ficar feliz em te ver aparecer lá, do nada?
TIAGO: Não é “do nada”. Eu gosto dela… sempre gostei.
GABI: Gostar não é suficiente pra invadir a vida dos outros. Ainda mais agora, que ela tá tentando se virar sozinha.
TIAGO: Clara tá sozinha porque foi empurrada pra isso. Eu só queria ter certeza de que ela tá bem.
GABI: E você vai fazer o quê lá? Largar tudo aqui? O trabalho, o mar, a sua vida? (segurando seu rosto) Acho que você tá confundindo as coisas. Saudade, culpa… isso tudo passa.
TIAGO: Pra mim não passou!
GABI: Então faz assim… Em vez de decidir isso agora, vamos sair hoje à noite. Beber alguma coisa, esfriar a cabeça.
TIAGO (hesita): Não tô muito no clima, Gabi.
GABI (forçando um sorriso): Justamente por isso. Você anda pesado demais… uma cerveja não vai te matar.
Tiago suspira, concorda cansado.
TIAGO: Tá. Só pra conversar.
Gabi sorri satisfeita, planejando. Tiago permanece olhando o mar, pensativo.
🛥️
CENA 5. ARRAIAL DO CABO – BAR DO OSVALDO – DIA
Bar quase vazio. Zé Bento encurvado no balcão, copo atrás de copo de cachaça. Os olhos vermelhos, a barba por fazer. Osvaldo do outro lado do balcão, observando.
OSVALDO (preocupado): Vai com calma, homem!
ZÉ BENTO (amargo): Calma pra quê, Osvaldo? Pra chegar em casa e não ter mais nada? (bate o copo) Desce mais uma.
Antes que Osvaldo responda, um homem se aproxima. É TAINHA, pescador conhecido na região, olhar esperto. Encosta ao balcão, como quem não quer nada.
TAINHA: Tá pesado o clima hoje, hein, Bento…
ZÉ BENTO (impaciente): Se veio conversar, fala logo. Não tô com paciência pra rodeio.
Raul faz um sinal discreto para Osvaldo, pedindo uma bebida. Osvaldo serve, desconfiado.
TAINHA: Fiquei sabendo que você anda… precisando de dinheiro. E de esquecer umas coisas.
ZÉ BENTO (encarando): Todo mundo anda sabendo demais da minha vida ultimamente.
TAINHA (voz baixa): Tenho um negócio bom. Rápido. Limpo… Coral.
ZÉ BENTO: Coral?!
TAINHA: Tráfico, Bento. Os mais raros. Gringo paga em dólar. Uma saída só e você tira mais dinheiro do que meses puxando rede.
Osvaldo para o que está fazendo. Fica atento, tenso.
OSVALDO: Tainha… Isso aí não é brincadeira.
TAINHA: Relaxa, Osvaldo. Hoje em dia tudo é ilegal pra quem é pobre. Risco zero. Área afastada, fiscalização quase nenhuma. Ninguém desconfia de pescador velho.
OSVALDO: Bento, não entra nessa. Coral dá cadeia pesada, multa, destrói o mar… Isso não combina com você.
ZÉ BENTO (rindo): Combinar com quem, Osvaldo? Com o homem que eu era? Dalva me botou pra fora. A menina, aquela moleca acabou com a minha vida! Perdi minha casa, minha família… Minha dignidade. Eu perdi TUDO!
TAINHA (rondando): Então pensa comigo, homem… Se não tem nada a perder, por que não ganhar alguma coisa?
Zé Bento encara o líquido transparente no copo, como se visse ali o fundo do poço. Depois, levanta os olhos para Tainha.
ZÉ BENTO: Se eu entrar nessa… É pra ir até o fim.
TAINHA (sorri): Amanhã cedo a gente conversa melhor. No cais.
Tainha se afasta. Osvaldo fica parado, olhando para Zé Bento.
OSVALDO: Isso vai acabar mal, Bento.
Zé Bento não responde. Apenas bebe mais um gole, o olhar perdido.
🛥️
CENA 6. ATLÂNTIDA NÁUTICA – ESCRITÓRIO DE PEDRO – DIA
Pedro analisando plantas técnicas de uma embarcação espalhadas sobre a mesa. O paletó pendurado na cadeira, a gravata afrouxada. Parece cansado, mas concentrado.
A porta se abre sem cerimônia. Estela entra.
PEDRO (surpreso): Estela?! Se veio falar da discussão de ontem…
ESTELA (interrompendo): Não é sobre ontem. É sobre todos os outros dias. (respira fundo) Eu tomei uma decisão, Pedro, eu vou pedir o divórcio.
Pedro imóvel.
PEDRO: Eu pensei que nós tivéssemos conversado sobre isso.
ESTELA: Eu não vou mais fingir que está tudo bem. Não vou mais criar um filho num ambiente de gritos, humilhação e frieza. E não vou mais ser invisível dentro do meu próprio casamento. Eu esperei que você mudasse, tentei, dei meu máximo, me calei por você, pela família, até mesmo pela empresa… Mas eu cheguei no meu limite!
PEDRO: Você não pode decidir isso sozinha.
ESTELA (firme): Posso sim. Porque, sozinha, eu já estou há muito tempo. Você passou anos usando a Atlântida como desculpa pra ser um homem amargo! Você virou outra pessoa, Pedro. Frio, agressivo, cruel!
PEDRO: Você não sabe o que eu perdi pra manter tudo isso de pé!
ESTELA: E você sabe o que EU perdi? Minha voz. Minha dignidade. Meu casamento! (chorando) Eu cansei de ser saco de pancada emocional. Cansei de pedir respeito.
PEDRO (levanta): Então o que você quer? Que eu me ajoelhe?
Estela o encara e nega com a cabeça.
ESTELA: Eu quero ir embora. Ficar do seu lado virou um sacrifício. E eu não vou mais me sacrificar por você!
PEDRO (gritando): VOCÊ NÃO PODE FAZER ISSO! NÃO ASSIM!
ESTELA: Posso e vou! Acabou, Pedro! De verdade!
Estela sai. Pedro fica sozinho. Furioso, ele arremessa um objeto da mesa contra a parede, que se espatifa. O barulho ecoa pelo escritório vazio.
🛥️
CENA 7. PEDRA DA GÁVEA – DIA
Movimentação de pessoas por ali. Lucas sentado próximo à borda, joelhos dobrados, olhar perdido no horizonte. Lá embaixo, o mar parece distante demais. Passa a mão pelos cabelos, respira fundo, claramente esmagado pelos últimos acontecimentos. Uma sombra se aproxima. Vicky surge com uma mochila nas costas, câmera pendurada no pescoço, olhar curioso e atento. Observa Lucas por alguns segundos antes de falar.
VICKY: Bonito, né? Dá a sensação de que tudo lá embaixo fica pequeno.
LUCAS (sorri): Você…
Os dois se encaram, sorriem um para o outro.
VICKY: Normalmente, quem vem parar aqui não tá procurando paisagem. Tá fugindo de alguma coisa.
LUCAS: Então você é boa de leitura.
VICKY: Jornalista… E também estava ontem no lançamento frustrado do jet ski. Eu vi o que aconteceu.
LUCAS (suspirando): Eu fiz tudo errado. Meu pai não confia em mim. Cada passo que eu dou parece um erro anunciado. E quando eu tento provar o contrário… eu caio.
VICKY: Cai porque acredita nisso. Porque você vive tentando corresponder a um roteiro que não escreveu. Aí qualquer tropeço vira sentença.
LUCAS: Às vezes eu queria sumir. Ou apertar um botão e recomeçar.
VICKY: Eu tenho uma proposta melhor.
Ela aponta para o céu aberto, onde uma asa delta se prepara para decolar.
VICKY: Que tal voar?
Lucas sorri para ela. Os dois trocam olhares.
(Ao som de: BLUE – Billie Eilish)
Um CORTE para a plataforma de vôo. Lucas veste os equipamentos. Vicky ajusta o capacete dele com cuidado.
VICKY: Confia em mim!
LUCAS: Essa frase costuma dar errado na minha vida.
VICKY (ri): Então confia no vento.
Eles se posicionam. O instrutor faz a contagem. Eles correm e o asa delta se lança no ar. Lá embaixo, o Rio de Janeiro se abre em toda a sua beleza: mar, montanhas, cidade pulsando vida. Lucas ri, quase incrédulo.
LUCAS: Meu Deus…
VICKY: Tá vendo? Às vezes, pra não cair a gente precisa aprender a voar.
O vento passa forte. Lucas fecha os olhos por um instante, deixando o peso ir embora. A asa-delta desliza livre pelo céu.
🛥️
CENA 8. APARTAMENTO DE GUSTAVO E BIANCA – SALA – TARDE
Gustavo entrando no ambiente. Bianca desligando o celular.
GUSTAVO: Parece tensa. Quem era?
BIANCA: Estela… Ela pediu o divórcio para o Pedro.
GUSTAVO (surpreso): O quê?!
BIANCA: Parece que foi hoje na Atlântida. Eles discutiram feio, e o Pedro está em um flat.
Gustavo senta devagar no sofá, tentando assimilar.
GUSTAVO: Mas… Eles sempre brigaram, não é possível que… Estela teve coragem de fazer isso?
BIANCA: Te surpreende tanto assim?
GUSTAVO: Surpreende. O Pedro sempre foi o centro da vida dela. A Atlântida, a família, aquela imagem perfeita…
BIANCA: Às vezes a imagem cansa mais do que a verdade. Mas parece que agora é pra valer. Nunca tinha visto minha amiga tão decidida antes.
Gustavo caminha até o bar, se serve de outro gole de uísque, bebe de uma vez.
GUSTAVO: Nunca achei que ela fosse dar esse passo.
BIANCA: Pois deu. E quando uma mulher chega a esse ponto não tem volta.
Gustavo pensativo. Bianca o observa, desconfiada.
🛥️
CENA 9: MANSÃO MARINS – JARDIM – TARDE
O Sol da tarde atravessando a copa das árvores. Clara sentada na beirada de um banco de pedra, segurando com força uma pasta simples onde guarda seus documentos.
Ela observa a casa imponente à sua frente, respira fundo, tenta se recompor. O vestido é modesto, os sapatos gastos. Clara ajeita os cabelos, nervosa.
CLARA (baixo para si): É só uma entrevista… só isso…
(Ao som de: Instrumental Profundo)
O som distante de um carro se aproximando quebra o silêncio. Clara levanta o olhar por reflexo. Um utilitário entra pelo portão. Para próximo à garagem lateral. A porta se abre.
Lucas surge, ainda com roupas de voo e a mochila pendurada em um ombro. Começa a caminhar pelo jardim, distraído, passando a mão pelos cabelos, respirando fundo, como quem tenta organizar os próprios pensamentos. Clara o acompanha com o olhar sem perceber. Algo a prende. Ela franze levemente a testa, como se reconhecesse algo naquele desconhecido, não o rosto, mas a sensação.
Lucas sente o olhar e levanta a cabeça. Os olhos dos dois se encontram. Em câmera lenta, como se o tempo desacelerasse. Lucas para no meio do caminho, sem entender por que o coração dispara. Encarando Clara, sente um impacto estranho, quase físico. Clara levanta, o encarando. Os irmãos finalmente se encontrando após anos longe um do outro… Lucas se aproxima e os dois se encaram, próximos.
A imagem congela em LUCAS e CLARA e as águas do mar cobrem a tela.
(FIM DO CAPÍTULO)

Deixe um comentário