
TOCAIA DO ALTO 🌴 web novela
CAPÍTULO 1 • GRANDE ESTREIA
Novela criada e escrita por: Luan Maciel
Produção executiva: LRTV
Abertura:
CENA 1. EXTERIOR — FAZENDA FERREIRA LEMOS — AMANHECER
Plano Geral da Fazenda de Cacau. Homens trabalham na colheita. Ritmo pesado. Silêncio. Facões cortam frutos. Sacas são arrastadas. A imagem se intercala com caminhão cruza a estrada de terra, carregado de sacas de cacau. Poeira sobe.
TRILHA SONORA: Entre a Serpente e a Estrela — Lenine.
Volta para os trabalhadores. Um deles desacelera por cansaço. A CASA-GRANDE ao fundo. Na varanda, TENÓRIO (Antônio Calloni) observa. Chapéu. Postura firme. Um chicote na mão. Ele começa a descer as escadas. Os trabalhadores percebem. O ritmo aumenta. abaixa a cabeça e acelera. TENÓRIO chega ao chão de terra.
Olha ao redor. Silêncio absoluto. Ele ergue levemente o chicote. Não bate. O medo no olhar dos trabalhadores é real. TENÓRIO bate o chicote contra a própria bota.
Som seco. Os trabalhadores continuam. Ele vai embora.
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CENA 2. EXTERIOR — ARREDORES DE TANHANHEM — CAMPO — MANHÃ
Campo aberto. Céu azul. O dia já clareou por completo. crianças: Ela (8 anos) e ele (10 anos) estão deitados sobre a grama do campo bem perto um do outro. LINDA FLOR (Duda Batista) e JERÔNIMO (Guilherme Tavares) olham para o céu com ingenuidade.
O silêncio entre eles é bastante confortável.
LINDA FLOR: — Tá vendo aquela nuvem ali?
JERÔNIMO (confuso): — Qual?
LINDA FLOR: — A que parece um cavalo.
JERÔNIMO aperta os olhos.
JERÔNIMO: — Pra mim parece um bode.
LINDA FLOR sorri.
LINDA FLOR: —Você não tem imaginação nenhuma.
JERÔNIMO: — Tenho sim. Só não vejo cavalo voando.
Pausa. O vento passa suave pelo campo.
LINDA FLOR: — Você já pensou em ir embora daqui?
JERÔNIMO vira o rosto e olha para ela.
JERÔNIMO (direto): — Já.
LINDA FLOR: — Pra onde?
JERÔNIMO: — Pra qualquer lugar onde a gente possa andar sem pedir licença. Onde possamos ser livres.
LINDA FLOR absorve a frase.
LINDA FLOR: — Eu nunca saí de Tanhanhem.
JERÔNIMO: — E tem vontade?
LINDA FLOR fica pensativa.
LINDA FLOR: — Às vezes eu sinto que tem alguma coisa me esperando… mas eu não sei o quê. Não sei explicar.
JERÔNIMO: — Talvez seja o mundo.
LINDA FLOR (confrontando): — E você? O que você acha que tá te esperando? Eu sinto que você quer isso.
JERÔNIMO olha para o céu novamente.
JERÔNIMO (sério): — Justiça.
Ela franze levemente a testa.
LINDA FLOR: — Justiça?
JERÔNIMO (firme): — É… justiça de viver mais do que a gente nasceu pra viver. A gente merece isso.
LINDA FLOR: — Você fala estranho às vezes.
JERÔNIMO: — E você confia em mim mesmo assim.
Silêncio. Os dois se encaram agora. Mais próximos.
LINDA FLOR: — Eu gosto quando você fala das coisas como se o mundo fosse maior do que isso aqui.
JERÔNIMO: — E Ele é. Você pode acreditar, Linda Flor.
Um instante. Ela segura a mão dele, quase sem perceber.
LINDA FLOR: — Me promete uma coisa?
JERÔNIMO: — O quê?
LINDA FLOR: — Que se um dia você for embora… você me leva junto. Tanhanhem não tem graça sem você.
JERÔNIMO olha para ela com intensidade.
JERÔNIMO: — Prometo.
O vento sopra mais forte. Plano aberto dos dois deitados no campo imenso. Pequenos diante do horizonte.
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CENA 3. INTERIOR — FAZENDA FERREIRA LEMOS — CASA GRANDE — COZINHA — MANHÃ
Mesa farta de café da manhã. CARLOTA (Patrícia Pillar) está sentada. Postura impecável. Olhar frio.
Empregadas servem em silêncio. Evitam encará-la.
A porta se abre com força. TENÓRIO entra com o chicote na mão. As empregadas se entreolham e saem rapidamente, quase tropeçando. Silêncio pesado.
Tenório coloca o chicote sobre a mesa. O som ecoa.
TENÓRIO (frio): — Onde está a Linda Flor?
CARLOTA toma um gole de café antes de responder.
CARLOTA: — Não sei. A sua filha é uma jovem rebelde.
TENÓRIO (duro): — Como assim você não sabe? Onde está a minha filha, Carlota? Não vou perguntar de novo.
CARLOTA: — Não sou carcereira de filha. A Linda Flor está cada vez mais atrevida. E isso é culpa sua, Tenório.
TENÓRIO perde a paciência. Ele encara CARLOTA.
TENÓRIO: — Ela deve estar com aquele morto de fome… o filho do Xavier. Eu já disse que não queria ver ela perto daquele moleque infeliz. Mas ela parece gostar de me enfrentar. A Linda Flor está muito desobediente.
CARLOTA ergue os olhos.interessada.
TENÓRIO: — Mas isso acaba hoje.
CARLOTA se levanta devagar. Fica frente a frente com ele. Eles se olham de uma forma bem fria.
CARLOTA: — Você não conseguiu comprar as terras do Xavier. (aproxima-se mais) E ainda acha que vai conseguir afastar a menina do filho dele?
TENÓRIO aperta o maxilar. Pega o chicote da mesa. Levanta levemente. CARLOTA o encara sem medo.
TENÓRIO: — As terras do Xavier ainda vão ser minhas.
(baixo, ameaçador) Custe o que custar. Me ouviu?
Ele sai decidido. A porta bate.CARLOTA permanece imóvel por um segundo. O olhar bastante gélido.
CARLOTA (fria, gélida): — Ah, Tenório…. Se não fosse por mim você hoje não teria um herdeira. Porque afinal das contas fui eu que consegui a Linda Flor para você.
Depois, lentamente, leva a xícara aos lábios. Um gole demorado. Um sorriso ardiloso surge.
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CENA 4. EXTERIOR — ESTRADA DE TERRA — ENTRADA DE TANHANHEM — MANHÃ
Estrada de terra. Um homem surge a cavalo. Algumas pessoas da cidade param para olhar. Sussurros.
Ele desmonta com firmeza. É ZÉ BENTO (Renato Góes). Rosto marcado pelo tempo. Olhar decidido. No pescoço, uma medalha antiga. Ele a segura. Abre. Dentro, a foto de uma mulher. A foto de MARIA DAS DORES. A mulher que ZÉ BENTO mais amou em toda a vida.
ZÉ BENTO se emociona. Ele beija a medalha.
ZÉ BENTO (baixo, firme): — Eu voltei.
Ele respira fundo. O olhar bastante calejado.
BENTO: — Nada vai me impedir de contar a verdade pra minha filha. Ela merece saber toda a verdade.
Pausa. O nome pesa.
ZÉ BENTO (emocionado): — Linda Flor.
O olhar endurece. Ele fica bastante pensativo.
ZÉ BENTO: — Nem as ameaças do Tenório. (pausa) Ele ainda vai me pagar caro por ter me tirado a minha filha.
ZÉ BENTO fecha a medalha. Guarda debaixo da camisa.
Monta no cavalo novamente. Esporeia.
Segue na direção da fazenda de Tenório. Plano fechado nos olhos dele. Um misto de determinação e coragem.
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CENA 5. EXTERIOR — ARREDORES DE TANHANHEM — RIACHO — MANHÃ
Água corrente. Sol refletindo nas pedras. JERÔNIMO (10 anos) se banha no riacho, rindo, jogando água para o alto. LINDA FLOR (8 anos) observa sentada na margem, pés descalços na grama. A troca de olhares entre eles é bastante nítida e de um jeito delicado.
JERÔNIMO (rindo): — A água tá fria demais!
LINDA FLOR: — Você que é frouxo!
JERÔNIMO mergulha. Some por um instante. Os segundos vão passando. LINDA FLOR se assusta
LINDA FLOR (gritando): — Jerônimo!
JERÔNIMO surge atrás dela, molhando seus pés.
JERÔNIMO: — Eu não morro fácil.
Ela ri. Depois o sorriso diminui. JERÔNIMO sai da água, sério agora. LINDA FLOR percebe em seguida.
JERÔNIMO: —.Linda… você precisa tomar cuidado.
LINDA FLOR: — Cuidado com o quê?
JERÔNIMO: — Todo mundo em Tanhanhem sabe do que o coronel Tenório é capaz. Eu tenho medo por você.
Ela fecha a expressão. JERÔNIMO a encara.
LINDA FLOR: — Você tá falando do meu pai.
JERÔNIMO: — Eu sei. (pausa)Mas ser seu amigo não me deixa fingir que eu não vejo. Seu pai é um covarde.
LINDA FLOR: — Meu pai não é ruim. Ele é um bom homem. Nada do que você me diga vai mudar isso.
JERÔNIMO: — Ele é com o meu pai.
Silêncio. LINDA FLOR fica visivelmente incomodada.
LINDA FLOR: — Você não devia falar assim.
Ela se vira para ir embora. JERÔNIMO segura a mão dela com delicadeza. Ela para. Vira-se devagar. Os dois se encaram. Os olhos de ambos se cruzam em silêncio.
JERÔNIMO: — Eu nunca vou deixar ninguém te machucar. Nem mesmo o seu pai, Linda Flor.
Ele solta a mão dela… e tira do pescoço um pequeno cordão simples de barbante com uma pedrinha lisa.
Coloca na mão dela. A simplicidade dele é tocante.
JERÔNIMO: — Quando você tiver medo… segura isso.
Eu vou estar do seu lado. Medo que esteja longe.
LINDA FLOR sente o gesto como algo maior do que entende. Os olhos dela brilham. Ela encara JERÔNIMO.
TRILHA SONORA: Espumas ao Vento — Fagner.
LINDA FLOR: — Promete?
JERÔNIMO: — Prometo.
O som do riacho continua correndo. Os dois pequenos diante do mundo. O destino começa seguir seu rumo.
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CENA 6. INTERIOR — CASA DE XAVIER — SALA MODESTA — MANHÃ
Um homem bastante simplório está sentado em uma cadeira de madeira e o semblante bem sério. Ele é XAVIER (Malvino Salvador). O som de xícara sendo pousada. Passos firmes na varanda. TOC TOC TOC.
XAVIER abre a porta. Ele congela. TENÓRIO está ali. Elegante. Frio. Sorriso quase imperceptível.
XAVIER (seco): — O senhor está perdido? Aqui não é lugar pra gente como o senhor. Queira ir embora agora.
TENÓRIO (sorrindo de canto): — Justamente por isso que eu vim, Xavier. Tem algo que eu quero muito e você não pode mais continuar fugindo. Você sabe o que é.
XAVIER: — Minhas terras não são extensão da sua fazenda. Pode voltar pelo mesmo caminho que veio.
TENÓRIO (olhando ao redor, avaliando): — Terras boas… produtivas… Vou ser direto: quanto você quer por elas? Seja o preço que for eu pago. O que em diz, Xavier?
O olhar de XAVIER fica cada vez mais endurecido. Ele dá um passo para frente na direção de TENÓRIO.
XAVIER (encara firme): — Não estão à venda.
Pausa. O sorriso de TENÓRIO desaparece.
TENÓRIO: — Cuidado com a teimosia. Ela costuma custar caro. E você não está em posição de recusar.
XAVIER: — Mais caro que a minha dignidade, não.
TENÓRIO se aproxima um passo. A voz fica mais baixa.
TENÓRIO: — Seria uma pena… Se algo ruim acontecesse com o seu filho. É isso que você quer?
Silêncio. O ar parece parar. XAVIER fecha os punhos.
XAVIER (raiva contida): — O senhor não ouse falar do meu filho. Deixe ele fora desse seu jogo sujo.
TENÓRIO: — Estou apenas… prevendo possibilidades.
XAVIER: — Eu não sei como Linda Flor consegue ser tão amável… sendo filha do senhor. Ela é diferente de você.
Os olhos de TENÓRIO ficam duros. Por um segundo, parece que ele vai perder o controle. Mas não. Ele passa a mão pelo chicote em sua cintura. XAVIER o encara.
TRILHA SONORA: Tensão.
TENÓRIO: — Você tem 24 horas, Xavier. Depois disso… eu não respondo pelo que pode acontecer. Entendeu?
TENÓRIO se vira e vai embora. O som dos passos ecoa.
XAVIER fecha a porta com força. Respiração pesada. Ele pega a cadeira e a arremessa contra a parede.
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CENA 7. EXTERIOR — FAZENDA FERREIRA LEMOS — ESTÁBULO — DIA
O som dos cavalos. O ranger da madeira. CARLOTA caminha com postura firme, observando tudo ao redor. Elegante. Controlada. Passos atrás dela. Ela para.
Vira-se lentamente. ZÉ BENTO está ali. Silêncio pesado. O olhar dele é de quem esperou anos por esse momento. CARLOTA se mantém parada gélida e bem ardilosa.
CARLOTA (sem perder a pose): — Eu devia imaginar que você teria a ousadia de aparecer aqui. Seu maldito.
ZÉ BENTO: — Você sabe muito bem por que eu vim.
CARLOTA (irônica): — Imagino. Dinheiro? Chantagem?
ZÉ BENTO: — Não. Eu vim pela minha filha.
O olhar de CARLOTA endurece, mas ela não recua.
CARLOTA: — Você não tem filha nenhuma aqui.
ZÉ BENTO: — Tenho. E você sabe disso desde o dia em que me separou dela. Criou ela como se fosse sua filha.
CARLOTA se aproxima um passo, baixa o tom.
CARLOTA: — Cuidado com o que fala. Essas terras têm ouvidos. É melhor você ir embora antes que seja tarde demais, Zé Bento. Eu estou te dando uma chance.
ZÉ BENTO (esbravejando): — Que escutem. Eu vou contar tudo pra Linda Flor. Ela vai saber quem é.
E de onde veio. E quem você é de verdade, Carlota.
CARLOTA perde a paciência.
CARLOTA (fria): — Eu não vou deixar você destruir a reputação que eu levei anos pra construir! Me ouviu?
ZÉ BENTO: — Reputação? Você roubou a minha filha…
E tirou de mim a mulher que eu amava. Já esqueceu?
Pausa. ZÉ BENTO engole toda a sua dor.
ZÉ BENTO: — Maria das Dores morreu acreditando que nunca mais ia ver a própria menina. Isso não é justo.
O nome ecoa. CARLOTA disfarça o impacto.
CARLOTA: — Você não pode provar nada.
ZÉ BENTO (sério): — Não preciso provar. Preciso falar.
Ele se aproxima. Fica frente a frente com CARLOTA.
ZÉ BENTO: — Eu não tenho medo de você.
CARLOTA (de ódio contido): — Você não faz ideia do que eu sou capaz. Eu posso acabar com a sua vida.
ZÉ BENTO: — Já vi do que você é capaz. E mesmo assim eu voltei. A Linda Flor merece saber quem eu sou.
Silêncio. O vento levanta poeira entre eles.
ZÉ BENTO: — Amanhã eu volto. E a Linda Flor vai saber toda a verdade. Sobre o nascimento dela… E sobre quem são os verdadeiros pais. E você não vai me impedir.
CARLOTA mantém o olhar firme até ele virar as costas.
Quando ele se afasta, o controle dela racha por um segundo. O olhar agora não é só ódio. É medo.
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CENA 8. INTERIOR — FLASHBACK — CASA DE MARIA DAS DORES E ZÉ BENTO — COZINHA — NOITE
A chuva vai do lado de fora da simples casa de uma forma torrencial. A lamparina está acesa já há muito tempo. No centro da cena está MARIA DAS DORES (Isadora Cruz), grávida, sentada à mesa. Mãos sobre o ventre. ZÉ BENTO anda de um lado para o outro, inquieto. Ele se aproxima de sua amada suavemente. ZÉ BENTO e MARIA DAS DORES se olham fixamente.
MARIA DAS DORES (voz baixa, aflita): — Eu tenho medo, Zé… Faz dias que eu não consigo dormir direito.
ZÉ BENTO (preocupado): — Medo de quê?
MARIA DAS DORES: — Da Carlota. Do jeito que ela me olha… Como se tivesse esperando alguma coisa acontecer. Ela é capaz de tudo para ter o que quer.
ZÉ BENTO segura o rosto dela com carinho.
ZÉ BENTO: — Eu não vou deixar nada acontecer.
Nem com você… Nem com a nossa filha. Eu juro.
MARIA DAS DORES segura a mão dele e coloca sobre a barriga. Ela e ZÉ BENTO se olham com intensidade.
MARIA DAS DORES: — Ela não é capaz de aceitar que você me escolheu. Eu sinto… que ela não vai parar.
ZÉ BENTO: — Isso é coisa da sua cabeça.
MARIA DAS DORES: — Não é. E você sabe disso.
MARIA DAS DORES respira fundo. O medo é real.
MARIA DAS DORES: — Se alguma coisa me acontecer…
Promete que vai cuidar da nossa menina? Custe o que custar? Ela vai precisar muito de você. Por favor.
ZÉ BENTO se afasta um pouco.
ZÉ BENTO: — Não fala assim. Nada vai acontecer.
MARIA DAS DORES (já com os olhos marejados): —
Jura, Zé. Eu preciso ouvir você me falar. Eu te peço.
Silêncio. Ele respira fundo. Relutante.
ZÉ BENTO: — Eu juro. Eu juro que vou proteger a nossa filha… Com a minha própria vida. Eu te prometo.
e prometo.
MARIA DAS DORES fecha os olhos, aliviada. Eles se beijam. Um beijo intenso. Amor e medo misturados. Eles não percebem que estão sendo observados. A porta entreaberta. Atrás dela, CARLOTA. Observando.
O sorriso é frio. Calculado. Ela sussurra para si mesma:
CARLOTA: — Esse bebê… Vai ser meu. Custe o que custar. Você vai me pagar pelo o que fez, Maria.
Ela se afasta lentamente, sem fazer barulho. O sorriso permanece. MARIA e ZÉ BENTO ficam abraçados.
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CENA 9. EXTERIOR — ESTRADA DE TERRA — ARREDORES DE TANHANHEM — DIA
O céu está cor de laranja. Grilos começam a cantar.
JERÔNIMO caminha chutando pedrinhas pelo caminho.
LINDA FLOR anda ao lado dele, segurando a barra do vestido para não sujar. Eles não andam muito perto.
Mas também não se afastam. Existe uma sintonia silenciosa. A troca de olhares é bem inocente.
LINDA FLOR: — Seu pai vai brigar?
JERÔNIMO dá de ombros, tentando parecer corajoso.
JERÔNIMO: — Às vezes ele fala alto… Mas não é sempre. Eu sei que o meu pai é um homem bom.
Ela olha para JERÔNIMO, preocupada.
LINDA FLOR: — Se ele falar alto… você não precisa fingir que não dói. Você não tem que fingir comigo.
Ele para de andar. Olha pra LINDA FLOR como se ninguém nunca tivesse dito algo assim.
JERÔNIMO: — Eu não finjo.
LINDA FLOR inclina a cabeça.
LINDA FLOR (teimosa): —Finge sim.
Pequeno silêncio. Ele volta a andar, mais devagar.
Pequeno incidente LINDA FLOR pisa numa poça de lama. Faz uma careta. JERÔNIMO sorri dela.
LINDA FLOR: — Ai! Olha meu sapato!
JERÔNIMO agacha imediatamente. Sem cerimônia, começa a limpar com a própria manga da camisa.
LINDA FLOR: — Não! Vai sujar sua roupa!
JERÔNIMO: — Minha roupa já tá suja mesmo.
Ele dá um sorriso torto. Ela observa aquele gesto com atenção. Não é grandioso. É simples. Mas é cuidado.
Eles continuam andando. Sempre lado a lado.
JERÔNIMO: — Eu gosto quando você vem comigo.
LINDA FLOR (confusa): — Por quê?
Ele pensa bastante antes de responder.
JERÔNIMO: — Porque quando você tá perto… Eu fico menos bravo. Eu gosto de que você vê o melhor em mim.
LINDA FLOR: — Eu fico menos com medo.
Eles trocam um olhar rápido, quase envergonhado.
A casa simples aparece ao longe. JERÔNIMO hesita.
Linda Flor, sem dizer nada, segura a mão dele.
Não é romântico. É instintivo. As mãos pequenas se encaixam. Ele olha para os dedos entrelaçados.
Depois olha para ela. Com bastante ternura.
JERÔNIMO: — Você não precisa ir se não quiser.
LINDA FLOR: — Eu sei. Mas eu quero.
JERÔNIMO aperta a mão dela com cuidado. Respira fundo. E seguem juntos. O sol brilha atrás das duas silhuetas pequenas. Dois corações ainda crianças.
Mas já aprendendo que amar também é proteger.
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CENA 10. EXTERIOR — ESTRADA DE TERRA — PRÓXIMO A CASA DE XAVIER — DIA
JERÔNIMO e LINDA FLOR caminham de mãos dadas. O som de casco de cavalo ecoa. Eles param. TENÓRIO surge montado. Imponente. Sombrio contra o pôr do sol.
O cavalo para diante deles. Silêncio pesado. TENÓRIO encara JERÔNIMO com ódio. JERÔNIMO sustenta o olhar. TENÓRIO desce do cavalo lentamente. Vai direto até LINDA FLOR. Ela e JERÔNIMO se olham tensos.
TENÓRIO (furioso, ardiloso): — Eu já disse que não é pra você andar com esse moleque morto de fome.
LINDA FLOR engole seco, mas não recua.
LINDA FLOR: — Ele não é moleque. Ele é meu amigo.
TENÓRIO olha para ela como se não acreditasse no que ouviu. Ele se aproxima de sua filha ainda mais.
TENÓRIO: — Amigo? Eu não acredito nisso.
TENÓRIO ri sem humor. Ele olha para JERÔNIMO.
TENÓRIO (sem paciência): — Você é minha filha.
Não nasceu pra andar no meio de qualquer um.
LINDA FLOR: — Eu não sou melhor que ninguém.
O maxilar de TENÓRIO trava. Ele leva a mão devagar até o chicote preso à cintura. JERÔNIMO percebe.
Dá um passo à frente. Fica na frente de LINDA FLOR.
Pequeno. Mas firme. Esse ato de coragem de JERÔNIMO deixa TENÓRIO com mais ódio ainda.
TENÓRIO: — Sai da frente, moleque. Eu estou mandando. Não me obrigue a fazer algo contra você.
JERÔNIMO: — Não. Eu não vou sair de perto da Linda Flor. E você não tem como me impedir. Me ouviu?
Silêncio. O vento levanta poeira ao redor.
TENÓRIO: — Você não sabe com quem tá falando.
JERÔNIMO: — Eu sei sim. E eu não tenho medo de você, Coronel Tenório. Eu vou proteger a Linda Flor.
O olhar de TENÓRIO se enche de fúria. Num movimento rápido ele dá um tapa violento no rosto de JERÔNIMO. O menino cai no chão. LINDA FLOR grita.
LINDA FLOR (desesperada): — Não!!!
LINDA FLOR se ajoelha ao lado de dele. JERÔNIMO tenta segurar o choro. O rosto vermelho. TENÓRIO respira pesado. O olhar de quem se acha superior.
TENÓRIO: — Isso é pra você aprender o seu lugar.
TENÓRIO olha para LINDA FLOR.
TENÓRIO (autoritário): — E você vem comigo. Agora.
LINDA FLOR encara o pai. Assustada. Mas algo mudou no olhar dela. Ela ajuda JERÔNIMO a se levantar antes de sair. TENÓRIO observa o gesto. Mais furioso ainda.
Ele monta no cavalo. Ele coloca LINDA FLOR atrás dele, mas olha para JERÔNIMO. Os olhos dos dois se encontram. Dor. Promessa silenciosa. TENÓRIO esporeia o cavalo. A poeira sobe. JERÔNIMO fica parado na estrada. Pequeno. Mas agora com algo diferente no olhar. É o nascimento do ódio.
🌴FIM DO 1° CAPÍTULO 🌴

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