
TOCAIA DO ALTO 🌴 web novela
CAPÍTULO 2
Novela criada e escrita por: Luan Maciel
Produção executiva: LRTV
Abertura:
CENA 1. INTERIOR — FAZENDA FERREIRA LEMOS — CASA GRANDE — SALA DE ESTAR —
Plano Geral da cena. CLOSE na porta da SALA DE ESTAR da CASA GRANDE. A porta se abre com violência. TENÓRIO entra puxando LINDA FLOR pelo braço com bastante truculência. Ela tenta se soltar das garras de seu pai, mas só que TENÓRIO é muito mais forte do que ela. O ódio no olhar dele é bem nítido.
LINDA FLOR: — Ai! Me solta! O senhor tá me machucando! Porque você está fazendo isso, pai?
TENÓRIO (furioso): — Eu avisei! Mas parece que você gosta de me humilhar. E isso eu não vou aceitar nunca.
TENÓRIO a arrasta até o centro da sala.
LINDA FLOR: — Solta! Por favor! Pai….
TENÓRIO a empurra. LINDA FLOR cai no sofá. Nesse momento, CARLOTA surge na porta do outro lado da sala. Elegante. Fria. Ela e TENÓRIO se encaram.
CARLOTA: — O que está acontecendo aqui?
TENÓRIO: — Sua filha foi se encontrar de novo com o morto de fome do filho do Xavier. Aquele moleque.
LINDA FLOR se levanta rapidamente. Os olhos marejados, mas firmes. Ela olha para CARLOTA.
LINDA FLOR: — Ele tem nome. É Jerônimo.
TENÓRIO se vira lentamente para ela.
TENÓRIO: — Você não levanta a voz pra mim.
Silêncio pesado. Os olhos de LINDA FLOR se enchem de lágrimas. TENÓRIO olha para ela com muito desdém.
TENÓRIO: — Você nunca mais vai ver esse moleque.
LINDA FLOR: — O senhor não pode mandar em quem eu gosto. O Jerônimo não merece esse seu descaso.
TENÓRIO se aproxima dela. Muito perto.
TENÓRIO: — Posso e mando. E você vai me obedecer.
LINDA FLOR respira fundo enquanto olha nos olhos de seu pai. CARLOTA vai encarando sua filha com frieza.
TENÓRIO (ardiloso): — E quando eu tomar as terras do pai dele… Eles vão embora dessa cidade. E você nunca mais vai ver aquele maldito. Isso é uma promessa.
LINDA FLOR olha para CARLOTA. Busca abrigo. Busca proteção. Mas só encontra o olhar gélido de sua mãe.
LINDA FLOR: — Mãe…. Fala alguma coisa. Por favor.
CARLOTA mantém o olhar frio. Distante. Sem um gesto de acolhimento. Ela e TENÓRIO se encaram em silêncio.
CARLOTA: — Seu pai sabe o que faz.
O mundo de LINDA FLOR quebra ali. Ela balança a cabeça, incrédula. As lágrimas descem. Ela corre para fora da sala. Silêncio.bO ódio no olhar de TENÓRIO é quase incontrolável. CARLOTA caminha até ele, calma.
CARLOTA: — Se você continuar assim…
CARLOTA a encara. TENÓRIO se mantém irredutível.
CARLOTA: — Uma tragédia ainda vai acontecer.
TENÓRIO respira fundo. Irritado.
TENÓRIO: — Eu já estou preparado pra ela.
CARLOTA o observa. Não é medo. É cálculo.
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CENA 2. INTERIOR — CASA DE XAVIER — SALA — DIA
A casa simples, iluminada pela luz do sol. XAVIER está sentado à mesa, imóvel. O olhar perdido. Eco da lembrança: “Você tem 24 horas…” A porta se abre devagar. JERÔNIMO entra. Caminha tentando parecer normal. XAVIER percebe algo diferente. Ele encara seu filho. JERÔNIMO fica estranhamente calado..
XAVIER (estranhando): — O que foi que aconteceu com você, Jerônimo? Eu nunca vi você desse jeito calado.
JERÔNIMO evita olhar. XAVIER fica bem cismado.
JERÔNIMO (seco): — Nada.
XAVIER (mais firme): — Jerônimo…. Eu te conheço melhor que qualquer um, meu filho. Eu sei que está acontecendo alguma coisa. E eu quero que você me diga.
O menino suspira. Silêncio. XAVIER o encara.
JERÔNIMO: — O coronel… me deu um tapa.
XAVIER congela. Levanta devagar. JERÔNIMO o olha.
XAVIER: — Por quê? O que fez aquele maldito fazer isso? Eu não acredito que o Tenório foi capaz disso.
JERÔNIMO (respirando fundo): — Porque eu fiquei na frente da Linda Flor. (Pausa) Ele ia machucar ela.
A respiração de XAVIER pesa. A raiva cresce visivelmente. Ele não consegue esconder sua raiva.
XAVIER: — O Tenório passou de todos os limites.
Ele anda pela casa, tentando se controlar.
XAVIER (furioso): — Mexer comigo é uma coisa…
Agora levantar a mão pra você… Isso foi inadmissível.
Ele fecha os punhos. JERÔNIMO fica preocupado.
XAVIER: — Dessa vez não.
JERÔNIMO abaixa a cabeça.
JERÔNIMO: — Desculpa, pai. Eu só queria proteger ela.
XAVIER para. Se aproxima. Ajoelha para ficar na altura do filho. Eles trocam um olhar bastante cúmplice.
XAVIER: — Você gosta dela? Da Linda Flor?
JERÔNIMO hesita. Mas confirma.
JERÔNIMO: — Gosto. E muito, pai.
XAVIER respira fundo. Ele encara JERÔNIMO.
XAVIER: — Eu não vou proibir você de ver a Linda Flor.
JERÔNIMO levanta os olhos, surpreso.
XAVIER: — Mas você precisa ter cuidado, meu filho. O Tenório é capaz de qualquer coisa. Você entendeu?
Silêncio. JERÔNIMO cria coragem.
JERÔNIMO: — O senhor vai vender as nossas terras?
A pergunta pesa. XAVIER segura o rosto do filho com firmeza. A troca de olhares entre eles é decisiva.
XAVIER: — Não. (Pausa) Eu prefiro morrer do que entregar o que é nosso pra ele. Não se fala mais nisso.
JERÔNIMO absorve aquilo. Sem pensar, abraça o pai com força. XAVIER retribui. Um abraço verdadeiro.
De proteção. De promessa. A lamparina balança com o vento. Pai e filho abraços em um momento raro.
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CENA 3. INTERIOR — FAZENDA FERREIRA LEMOS — CASA GRANDE — QUARTO DE LINDA FLOR — FIM DE TARDE
As horas passam. Quarto simples, mas bem cuidado.
A janela aberta. A cortina balança com o vento.
LINDA FLOR está sentada na cama. Os olhos vermelhos de chorar. Ela segura algo nas mãos. A pedrinha presa ao barbante que JERÔNIMO lhe deu naquele mesmo dia mais cedo no riacho. Ela passa o dedo sobre a pedra, como se aquilo fosse proteção. Silêncio. Ela lembra do tapa. Fecha os olhos com força. Uma lágrima escorre.
LINDA FLOR (baixinho, quase um sussurro): — Eu não tenho medo… O meu pai não pode fazer isso. Não pode.
Mas a voz falha. Ela levanta e vai até a janela. Olha para a escuridão do lado de fora. Imagina a casa de JERÔNIMO em algum ponto daquele fim de tarde.
LINDA FLOR: — Eu não vou deixar ele mandar em mim.
Ela aperta a pedrinha contra o peito. O gesto é infantil. Mas decidido. Os seus olhos ficam marejados.
LINDA FLOR: — Eu prometi.
O vento sopra mais forte. A porta do quarto range levemente. LINDA FLOR se assusta e olha para trás.
Mas não há ninguém. Ou será que há? Ela fecha a janela devagar. Deita na cama. Segura o cordão. Os olhos se fecham. A câmera se aproxima do rosto dela. Mesmo com medo… há algo novo ali. Coragem nascendo.
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CENA 4. EXTERIOR — VENDA NO CENTRO DE TANHANHEM — FIM DE TARDE
A luz do sol já vai indo embora. Mesas de madeira espalhadas na calçada. Lampião pendurado.
Poucas pessoas conversando baixo. ZÉ BENTO está sentado sozinho. Um copo de cerveja diante dele. Intocado. O olhar distante. Lembrança de CARLOTA:
“Você não sabe do que eu sou capaz…” Ele aperta o copo com força. Uma voz feminina surge atrás.
CANDINHA (em off): — Eu pensei que você nunca mais pisaria em Tanhanhem. Que tinha esquecido tudo isso.
Ele ergue os olhos. CANDINHA (Drica Moraes) está ali. Bem vestida, segura de si. Observadora. Ela puxa a cadeira e senta sem pedir licença. Eles se encaram.
CANDINHA: — Depois que Maria das Dores morreu…
Eu jurava que você tinha enterrado essa cidade junto com ela. Eu pensei que nunca mais iria te ver, Zé.
ZÉ BENTO respira fundo. Ele olha para CANDINHA.
ZÉ BENTO: — Eu também jurava. (pausa) Mas tem coisa que a gente não consegue enterrar. Mas algo mudou. E tem algo que eu preciso muito fazer.
CANDINHA percebe o peso na voz de ZÉ BENTO.
CANDINHA: — Você voltou por causa da menina.
ZÉ BENTO (ele confirma com um aceno): — Ela precisa saber a verdade. Sobre quem é. Sobre quem foi a mãe dela. E isso é uma coisa que o Tenório não vai impedir.
CANDINHA solta um riso curto. Sem humor.
CANDINHA: — Você tá comprando uma guerra, Zé Bento. E não é guerra pequena. Você sabe bem disso.
ZÉ BENTO finalmente toma um gole da cerveja.
ZÉ BENTO: — Eu sei com quem eu tô mexendo.
CANDINHA: — Será mesmo? Tenório não perde.
E Carlota… Ela joga sujo sem sujar as mãos.
ZÉ BENTO: — Pra minha filha saber a verdade…
Eu enfrento qualquer um. Até o maldito do Tenório.
CANDINHA o encara. Vê que ele está decidido.
Ela olha ao redor, algumas pessoas cochicham discretamente. O seu semblante muda radicalmente.
CANDINHA (apreensiva): — Você não se incomoda de todo mundo ver a gente conversando? Eu sou mulher da vida, Zé Bento. E todos em Tanhanhem vão falar.
ZÉ BENTO sorri de leve. Cansado, mas sincero.
ZÉ BENTO (sincero): — Você é uma pessoa boa, Candinha. É isso que importa. Você não acha?
CANDINHA se surpreende com a resposta. Desarma por um segundo. Depois recupera a postura e o encara.
CANDINHA: — Cuidado. Homem bom demais nessa cidade acaba pagando caro. (pausa) Tenório é capaz de qualquer coisa pra manter o império dele limpo… Mesmo que precise sujar as mãos de sangue.
ZÉ BENTO (decidido): — Então que ele venha.
Silêncio entre os dois. O vento passa levantando poeira.
CANDINHA se levanta devagar. ZÉ BENTO a olha sério.
CANDINHA (firme): — Eu espero que você esteja preparado… Porque essa cidade não perdoa quem mexe com os Ferreira Lemos. E no fundo você sabe disso.
CANDINHA sai. ZÉ BENTO fica sozinho na mesa.
Agora o copo está vazio. E a decisão, tomada.
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CENA 5. INTERIOR — FAZENDA FERREIRA LEMOS — CASA GRANDE — ESCRITÓRIO DE TENÓRIO — NOITE
A noite chega que nem um sopro. Escritório amplo. Iluminação baixa. Sobre a mesa, papéis e fotografias das terras de XAVIER. TENÓRIO observa uma das fotos com cobiça. Passa o dedo pelo limite do rio que corta a propriedade. A porta se abre sem bater. CARLOTA entra. TENÓRIO fecha a expressão. Eles se encaram.
TENÓRIO: — Eu mandei ninguém me incomodar.
CARLOTA (fria): — Então vai ter que abrir uma exceção.
TENÓRIO joga a foto sobre a mesa. CARLOTA dá mais um passo para frente confrontando seu marido.
TENÓRIO: — O que é agora? Diga logo, Carlota.
CARLOTA ( direta, sem rodeios): — Zé Bento voltou.
Silêncio. TENÓRIO não demonstra surpresa imediata.
Mas o olhar muda. Ele olha CARLOTA com desprezo.
TENÓRIO (impaciente): — Voltou pra fazer o quê?
CARLOTA: — Contar a verdade. (pausa) Para Linda Flor. E nós não podemos deixar que ele faça isso.
TENÓRIO se levanta devagar. Anda até a janela.
TENÓRIO: — Nós só estamos nessa situação por sua causa, Carlota. Você está satisfeita com tudo isso?
CARLOTA não recua. Ela mantém a pose.
TENÓRIO: — Foi você que inventou essa loucura.
Roubar a filha daquele homem… Criar essa história toda. Deixou aquela infeliz da Maria das Dores morrer no aorto da Linda Flor. E olha onde estamos agora.
CARLOTA (gélida): — Eu fiz o que precisava ser feito. Eu não iria deixar aquela mulher me humilhar daquele jeito. E hoje eu sou a mãe da Linda Flor. Apenas eu.
TENÓRIO: — Precisava? Não me provoque, Carlota.
TENÓRIO se vira irritado. Os olhos fervendo de ódio.
TENÓRIO: — Olha o tamanho do problema agora!
CARLOTA mantém a frieza.
CARLOTA: — Não é hora de apontar culpa. É hora de impedir que ele abra a boca. O Zé Bento é muito perigoso solto, Tenório. Você consegue entender isso?
TENÓRIO respira pesado. CARLOTA o enfrenta.
TENÓRIO: — Primeiro eu resolvo as minhas pendências com o Xavier. Estou com ele atravessado na garganta.
TENÓRIO aponta para as fotos na mesa.
TENÓRIO: — Aquelas terras vão ser minhas. (pausa)
Depois eu vejo o que faço com Zé Bento. Entendeu?
CARLOTA observa o marido. TENÓRIO se mantém frio.
CARLOTA: — Você está subestimando ele, Tenório.
TENÓRIO (esbravejando): — Ninguém me enfrenta em Tanhanhem. O Zé Bento não vai me enfrentar.
O silêncio entre os dois é tenso. CARLOTA o encara com algo próximo de desprezo. TENÓRIO não diz nada.
CARLOTA: — Então trate de continuar assim.
CARLOTA se vira para sair. Antes de abrir a porta, para.
CARLOTA (ardilosa): — Porque se a Linda Flor descobrir a verdade… Não é só o seu império que cai.
CARLOTA sai. TENÓRIO fica sozinho. O olhar volta para as terras de XAVIER. Agora não é só cobiça.
É urgência. Ele pega o chicote que está pendurado atrás da cadeira. Aperta com força. O olhar cheio de ódio.
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CENA 6. INTERIOR — CASA DE XAVIER — SALA — NOITE
A casa está quase às escuras. Só a luz fraca da lamparina ilumina o ambiente. Do lado de fora, o som dos grilos.
XAVIER veste o chapéu. O rosto duro. Ele caminha até o canto da sala. Pega a espingarda. Confere o cano.
Decidido.Quando se vira em direção à porta ouve o barulho de passos vindo em sua direção. Ele se vira.
JERÔNIMO (respirando fundo): — Pai?
XAVIER para. JERÔNIMO está parado no meio da sala.
Olhos atentos. Assustados. XAVIER encara seu filho.
JERÔNIMO: — Onde o senhor vai? Já está de noite.
XAVIER tenta suavizar o tom, mas não consegue esconder a tensão. JERÔNIMO percebe a aflição do pai.
XAVIER ( direto, seco): — Resolver um assunto.
JERÔNIMO olha para a espingarda.
JERÔNIMO: — Com isso? Você não pode fazer isso, pai.
XAVIER: — O Tenório passou dos limites hoje.
A respiração do menino acelera. Ele e XAVIER se olham.
JERÔNIMO: — O senhor vai brigar com ele, pai?
XAVIER (sério): — Eu vou tirar satisfação. Homem nenhum levanta a mão pro meu filho. Nem o Tenório.
JERÔNIMO se aproxima. XAVIER o encara sério.
JERÔNIMO (aflito): — Pai… ele tava com muita raiva.
XAVIER se abaixa um pouco, olha para seu filho.
XAVIER: — Eu não tenho medo dele. E você vai ficar dentro de casa, Jerônimo. Eu espero ter sido bem claro.
JERÔNIMO engole seco. Ele olha para XAVIER.
JERÔNIMO: — Eu tô com medo.
XAVIER suaviza por um segundo. Coloca a mão no ombro do filho. A troca de olhares deles é genuína.
XAVIER: — Nada vai acontecer.
O silêncio da noite parece discordar.
XAVIER: — Você promete que não sai de casa por motivo nenhum? Eu quero você aqui protegido.
JERÔNIMO hesita. Olha para a porta. Depois para o pai.
JERÔNIMO: — Eu prometo, pai.
XAVIER segura o rosto do filho com firmeza.
XAVIER: — Seja homem e cumpra. Você entendeu?
JERÔNIMO confirma com a cabeça. XAVIER se levanta.
Abre a porta. A escuridão toma conta da entrada. Ele sai.
A porta se fecha. JERÔNIMO fica sozinho na casa.
O som dos passos do pai se afastando. O menino corre até a janela. Tenta enxergar algo na noite. Não vê nada.
Só escuridão. A tensão no ar é sufocante. JERÔNIMO aperta os punhos. Algo dentro dele diz que essa promessa pode ser difícil de cumprir.
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CENA 7. INTERIOR — FAZENDA FERREIRA LEMOS — CASA GRANDE — SALA DE ESTAR — NOITE
A sala está à meia-luz. TENÓRIO sentado na poltrona. Imóvel. O olhar fixo em algum ponto vazio. Eco na memória: “Homem nenhum levanta a mão pro meu filho.” Os olhos dele se enchem de ódio. Passos suaves.
Carlota surge atrás dele. Elegante, gélida e maléfica.
CARLOTA: — Você não está acostumado a ser enfrentado. Aquele Xavier te incomodou mesmo.
TENÓRIO não responde de imediato. Ele a encara.
CARLOTA contorna a poltrona. Fica diante dele.
CARLOTA: — E o que você decidiu fazer? Me diga.
Silêncio. TENÓRIO lança um olhar de fúria e ódio para sua esposa. CARLOTA se mantém em sua pose fria.
CARLOTA (ardilosa): — Porque um homem como Xavier não pode sair impune depois de afrontar o nome dos Ferreira Lemos. Ele precisa de uma lição urgente.
TENÓRIO se levanta. Anda devagar pela sala.
TENÓRIO: — Eu vou expulsar ele e o filho daquelas terras. (pausa) E tudo vai ser meu. Você pode apostar.
CARLOTA observa. Sem se impressionar.
CARLOTA (gélida): — Isso é pouco.
TENÓRIO a encara. CARLOTA se mantém firme.
TENÓRIO (sem acreditar): — Pouco?
CARLOTA (fria): — Muito pouco.
CARLOTA se aproxima. Quase sussurrando.
CARLOTA: — Eles precisam pagar com a vida.
Silêncio pesado. TENÓRIO mede as palavras.
TENÓRIO: — Você está falando de matar o Xavier? É isso mesmo que eu estou ouvindo, Carlota? Me diga. CARLOTA: — Estou falando de dar exemplo.
Ela sustenta o olhar. Enquanto isso encara TENÓRIO.
CARLOTA: — E podemos resolver dois problemas de uma vez. Você sabe bem do que eu capaz, Tenório.
TENÓRIO se aproxima. Fica frente a frente com ela.
TENÓRIO: — Explique. Eu não consigo entender isso.
CARLOTA (gélida): — Zé Bento está na cidade.
Quer abrir a boca só de o nascimento da Linda Flor.
Se Xavier morrer… E alguém disser que foi Zé Bento…
Ela deixa a frase no ar. TENÓRIO começa a entender.
Um brilho perigoso surge em seus olhos. Ele sorri.
CARLOTA (maquiavélica): — Nós acabamos com Xavier… E com Zé Bento ao mesmo tempo.
Silêncio. O canto da boca de TENÓRIO se curva.
Um sorriso sombrio. Quase que macabro e soturno.
TENÓRIO: — Você sempre pensa dois passos à frente.
CARLOTA não sorri.
CARLOTA: — Eu penso na sobrevivência. Apenas isso.
TENÓRIO segura o rosto dela. Eles se olham com frieza.
TENÓRIO: — Então está decidido. E não se fala mais nisso. O Xavier e o Jerônimo precisam morrer.
Ela se inclina. Os dois selam o acordo com um beijo frio. Sem amor. Só pacto. Atrás da porta entreaberta está
LINDA FLOR. Pequena. Pálida. Ela ouviu. Os olhos arregalados. Respiração trêmula. Ela leva a mão à boca para não fazer barulho. Vê o beijo. Não entende tudo.
Mas entende o suficiente. O horror se instala. Ela recua devagar. Sai pelo corredor. Sem que eles percebam. Na sala, TENÓRIO e CARLOTA continuam próximos.
Selando a maldade. A câmera se afasta lentamente.
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CENA 8. INTERIOR — CASA DE XAVIER — SALA — NOITE
A lamparina tremula. A luz dança no rosto de JERÔNIMO. Ele está parado na janela. Lá fora, só escuridão. O vento sopra forte. Ele olha para a porta.
Depois para a espingarda que o pai levou. Silêncio.
JERÔNIMO (baixinho): — Prometi que não ia sair…
Ele fecha os olhos. Lembra do tapa. Lembra do olhar de ódio de TENÓRIO. Lembra da voz do pai: “Você promete que não sai por motivo nenhum?” Ele engole seco. O olhar de JERÔNIMO é de bastante medo.
JERÔNIMO: — Mas e se ele fizer alguma coisa com o meu pai? Eu não sei o que fazer se isso acontecer.
A respiração acelera. Ele se afasta da janela. Anda de um lado para o outro. O semblante de JERÔNIMO pesa.
JERÔNIMO: — Ele tava diferente hoje… Com muita raiva… O coronel pode querer fazer mal ao meu pai.
Flash rápido na memória: LINDA FLOR sorrindo no campo. LINDA FLOR segurando a mão dele. LINDA FLOR dizendo: “A gente enfrenta junto.” Os olhos de Jerônimo se enchem de determinação.
JERÔNIMO: — Eu não posso deixar.
Ele olha para a porta novamente. O medo é visível.
JERÔNIMO: — Eu não tenho medo…
Mas a voz falha. Ele respira fundo. Endireita os ombros.
JERÔNIMO: — Eu preciso proteger meu pai. E ela.
Ele sopra a lamparina. A casa mergulha na penumbra.
JERÔNIMO abre a porta devagar. A escuridão da noite o engole. Antes de sair completamente, ele olha para trás.
Como se soubesse que está quebrando a promessa.
JERÔNIMO: — Desculpa, pai… Eu sinto muito.
Ele fecha a porta atrás de si. Corre pela estrada escura.
Pequeno. Mas decidido. O vento aumenta. A tensão cresce. O som dos passos dele ecoam na noite.
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CENA 9. INTERIOR — FAZENDA FERREIRA LEMOS — CASA GRANDE — QUARTO DE LINDA FLOR — NOITE
LINDA FLOR entra e fecha a porta com cuidado. Encosta as costas nela. A respiração está descompassada. Os olhos arregalados. Ela ainda ouve na memória: “Eles precisam pagar com a vida…” As lágrimas começam a cair. Ela está em total desespero.
LINDA FLOR (baixinho, em choque): — Não… não…
Ela leva as mãos à cabeça. Anda de um lado para o outro. O medo e o favor estão estampados em seu olhar.
LINDA FLOR: — Eles não podem fazer isso…
Pensa em JERÔNIMO. Pensa em Xavier. O medo vira urgência. O rosto de LINDA FLOR está bem tenso.
LINDA FLOR: — O Jerônimo… ele não sabe…
Ela corre até a janela. Abre. A escuridão invade o quarto.
O vento bate em seu rosto. Ela olha para baixo.
Não é tão alto. Mas é assustador. Ela hesita.
Olha para trás. Para o quarto. Para tudo que sempre conheceu. A voz sai trêmula — mas firme.
LINDA FLOR: — Eu não vou deixar vocês fazerem essa covardia. Eu não vou deixar o Jerônimo morrer.
As lágrimas escorrem. LINDA FLOR se enche de revolta.
LINDA FLOR: — Eu tenho vergonha… (pausa, mais forte.) Vergonha de ser filha de vocês.
Silêncio. O vento sopra mais forte. Ela respira fundo.
Fecha os olhos por um segundo. Pensa no campo.
No riacho. Na mão de JERÔNIMO segurando a dela.
Abre os olhos. A coragem vence o medo.
LINDA FLOR: — Eu vou avisar você… Jerônimo….
Eu prometo. Eu não vou deixar isso acontecer.
Ela sobe na beirada da janela. Olha mais uma vez para a escuridão. E pula. Cai no chão com leve impacto.
Levanta rapidamente. Olha para a casa grande. Depois corre na direção da estrada. Pequena. Mas determinada.
A noite agora engole as duas crianças que decidiram enfrentar o poder. Ela dome no meio da escuridão.
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CENA 10. EXTERIOR — FAZENDA FERREIRA LEMOS — CASA GRANDE — ENTRADA — NOITE
A lua ilumina parcialmente a entrada da casa grande. XAVIER surge na escuridão com a espingarda em mãos.
Antes que ele alcance a escadaria— Som de armas sendo engatilhadas. Ele para. Está cercado. Capatazes espalhados ao redor, apontando armas. No alto da escadaria, TENÓRIO. Calmo. Ele sorri satisfeito. Quase entediado. Na varanda lateral, CARLOTA observa.
Impecável. Fria. Saboreando. A frieza dela é calculada.
TENÓRIO: — Eu sabia que você vinha. Você é previsível.
XAVIER mantém a arma firme. Aponta direto para o peito de TENÓRIO. Os capangas fazem o mesmo com XAVIER. TENÓRIO não demonstra estar com medo.
XAVIER: — O seu erro foi ter levantado a mão pro meu filho. Ninguém mexe com o meu filho, Tenório.
Silêncio. O vento corta o terreiro. Os capangas ajustam a mira. O clima de tensão vai tomando conta da cena.
TENÓRIO (maléfico): — E você acha que vem armado na minha casa e vai sair daqui vivo? Coitado de você, Xavier. Em Tanhanhem eu é quem faço as leis.
XAVIER: — Eu não tenho medo de você.
TENÓRIO dá um passo à frente. Desce um degrau.
TENÓRIO: — Deveria ter. Eu sou Tenório Ferreira Lemos. E as suas terras ainda vão ser minhas, Xavier.
XAVIER: — Você mexeu com quem não devia.
TENÓRIO: — Eu faço o que eu quiser nessa cidade.
XAVIER aperta o gatilho levemente — sem disparar.
XAVIER: — Comigo não. Você entendeu, Tenório?
Os capangas ficam tensos. Um deles fala baixo:
CAPANGA: — Coronel… Tome cuidado.
TENÓRIO levanta a mão, pedindo silêncio. Ele encara XAVIER nos olhos. O vilão demonstra bastante frieza.
TENÓRIO: — Você entrou armado na minha propriedade. Eu poderia mandar te matar agora mesmo.
XAVIER não baixa a espingarda. Ele enxada TENÓRIO.
XAVIER: — Atira. Quero ver se você tem coragem.
Silêncio absoluto. Na varanda, Carlota observa com interesse. Um leve sorriso surge. Ela sussurra para si:
CARLOTA: — Vamos… faça. Agora nesse maldito.
TENÓRIO percebe a tensão. Mas não quer parecer precipitado. A espingarda de XAVIER continua apontada. O clima de tensão vai crescendo mais.
TENÓRIO: — Você é um homem morto se continuar me desafiando. Você não sabe do que eu sou capaz de fazer.
XAVIER: — Eu já disse. Eu prefiro morrer do que me curvar. E as minhas terras jamais vão ser suas, maldito.
Os olhos dos dois se enfrentam como lâminas. De repente— Um barulho ao longe. Passos correndo na estrada. Ainda não vemos quem é. Mas alguém está se afastando. TENÓRIO estreita os olhos.
TENÓRIO: — Você devia ter pensado no seu filho antes de vir aqui. Você não tem como vencer essa guerra.
A ameaça é clara. XAVIER reage.
XAVIER: — Não ouse envolver meu filho nisso!
Ele ajusta a mira. Os capangas tensionam os dedos nos gatilhos. CARLOTA inclina levemente o corpo na varanda. Ansiosa. O vento levanta poeira. A noite parece prender a respiração. TENÓRIO e XAVIER se encaram.
🌴FIM DO CAPÍTULO 🌴

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