Tocaia do Alto: Capítulo 03

TOCAIA DO ALTO 🌴 web novela

CAPÍTULO 3

Novela criada e escrita por: Luan Maciel
Produção executiva: LRTV

Abertura:

CENA 1. EXTERIOR — FAZENDA FERREIRA LEMOS — CASA GRANDE — ENTRADA — NOITE
Continuação imediata. Armas continuam apontadas.
XAVIER mantém a espingarda firme. TENÓRIO imóvel na escadaria. CARLOTA começa a descer lentamente os degraus da varanda. Salto ecoando na madeira. Ela para ao lado do marido. Olha para Xavier com desprezo.

CARLOTA: — Olha só… O homem que acha que pode enfrentar os Ferreira Lemos. Que inocência é essa?

XAVIER não abaixa a arma. Nem o olhar.

XAVIER (sério): — Eu não vim enfrentar nome. Eu vim falar de caráter. Uma coisa que vocês parecem não ter.

Um capanga se irrita, mas TENÓRIO levanta a mão.
Silêncio imediato. TENÓRIO olha XAVIER com frieza.

TENÓRIO: — Ninguém atira. É isso é uma ordem.

O clima continua elétrico. TENÓRIO desce mais um degrau. Agora ele e XAVIER ficam frente a frente.
TENÓRIO: — Você entrou armado na minha propriedade. Isso já é motivo suficiente pra eu acabar com essa história hoje. Você precisa fazer a escolha certa, Xavier. Para o seu bem e do seu filho.
XAVIER: — Então acaba. Me mate de uma vez.

CARLOTA observa, atenta a cada reação. TENÓRIO encara XAVIER longamente. Depois fala com frieza calculada. XAVIER mantém o seu olhar bem sério.

TENÓRIO (ardiloso): — Eu vou facilitar pra você. Entrega as suas terras. Antes que seja tarde demais.

O silêncio pesa. O semblante de XAVIER pesa mais.

TENÓRIO (frio): — Você e seu filho pegam o que for de vocês… E vão embora de Tanhanhem. Você ouviu?
CARLOTA: — E agradecem por saírem vivos.

XAVIER respira fundo. A espingarda ainda firme.

XAVIER: — Essas terras são do meu pai. Do pai dele antes. Eu não vendo. Pode esquecer disso, Tenório.

TENÓRIO dá um leve sorriso. Sem humor.

TENÓRIO: — Então o pior pode acontecer.

A ameaça ecoa. Os capangas apertam as armas.
XAVIER avalia o cenário. Ele sabe que está em desvantagem. Olha para cada homem armado. Depois volta para Tenório. O clima de tensão é palpável.

XAVIER: — Se alguma coisa acontecer com meu filho…
Ou comigo… Essa cidade vai saber de onde veio.

CARLOTA ri baixo.

CARLOTA (fria, diabólica): — Nessa cidade, as pessoas sabem muito bem quem manda. E não é você, Xavier.

Silêncio. XAVIER baixa a espingarda lentamente.
Não em submissão. Mas em decisão.

XAVIER: — Isso ainda não acabou.

Ele começa a recuar. Passo a passo. Sem virar as costas até o último instante. TENÓRIO observa. Imóvel.
Quando Xavier finalmente se afasta na escuridão—
TENÓRIO permanece em silêncio. Pensando. Calculando. CARLOTA, ao contrário, está raivosa.

CARLOTA: — Você vai deixar ele sair assim?

TENÓRIO não olha para ela. Ele fica mais frio.

TENÓRIO: – Ele acabou de cavar a própria cova.

O vento sopra forte. CARLOTA aperta os punhos.

CARLOTA: — Não podemos esperar. Você sabe disso.

TENÓRIO finalmente olha para ela. Frio.

TENÓRIO: — Não vamos. Pode apostar nisso, Carlota.

Ele encara a noite. Já planejando.
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CENA 2. EXTERIOR — ESTRADA PRÓXIMO A FAZENDA FERREIRA LEMOS — NOITE
A estrada é estreita. A lua ilumina o chão de terra.
JERÔNIMO caminha apressado. Respiração curta.
Olhos atentos. O medo da escuridão que o rodeia não é maior que a sua vontade de fazer aquilo que é correto.

JERÔNIMO (para si): — Eu tenho que chegar antes…

O vento sopra. De repente. Passos. Vindo na direção contrária. Ele para no meio da estrada. O coração dispara. A luz da lua revela uma silhueta pequena.
LINDA FLOR. Os dois ficam imóveis. Duas crianças na imensidão da noite. Eles ficam se olhando em silêncio.

JERÔNIMO: — Linda Flor? O que você tá fazendo aqui?

JERÔNIMO se aproxima. Preocupado.
JERÔNIMO: — Se o coronel descobrir, ele vai ficar com mais raiva ainda! Você sabe bem como o seu pai é.

LINDA FLOR respira rápido. Os olhos marejados.

LINDA FLOR: — Eu precisava vir. (pausa, quase sem voz.) Eles vão matar vocês. Eu precisava de contar.

JERÔNIMO congela. Ele encara LINDA FLOR.

JERÔNIMO: — O quê? Você tem certeza disso, Linda?
LINDA FLOR: — Meu pai… e minha mãe… Eu ouvi eles falando. Por isso que eu vim aqui. Para poder te avisar.

LINDA FLOR começa a tremer. A voz dela falha.

LINDA FLOR; — Eles querem culpar um homem…. O nome dele é Zé Bento…. Mas eles vão fazer alguma coisa contra você e seu pai. Isso não pode acontecer.

O mundo de JERÔNIMO parece parar.

JERÔNIMO: — Meu pai foi até a fazenda.

Silêncio. O medo toma o rosto de LINDA FLOR.

LINDA FLOR (apavorada): — Não…

LINDA FLOR leva a mão à boca.
LINDA FLOR: — A gente precisa impedir isso, Jerônimo. Ou então uma tragédia vai acontecer.

JERÔNIMO pensa rápido. O pânico tenta dominá-lo.
Mas ele respira fundo. Olha para ela. Ele segura a mão dela com cuidado. Pequena. Gelada. Eles se olham.

JERÔNIMO: — Eu não vou deixar nada acontecer.

LINDA FLOR o encara. Assustada.

LINDA FLOR (com a voz embargada): — Eles são meus pais… Eu tenho medo do que eles podem fazer.

JERÔNIMO aperta levemente a mão de LINDA FLOR.

JERÔNIMO: — Eu também tenho. E isso me assusta.

Silêncio. A troca de olhares entre eles é bem pura e forte.

JERÔNIMO (sério): — Mas eu prometo. Nada vai acontecer com você. Nem com meu pai. Eu juro.

Os olhos de LINDA FLOR brilham de lágrimas.

LINDA FLOR: — Você não pode prometer isso…

Ele puxa ela para um abraço. Um abraço apertado.
Infantil. Mas cheio de significado. A lua ilumina os dois no meio da estrada. Sozinhos contra algo muito maior.
LINDA FLOR fecha os olhos. JERÔNIMO apoia o queixo no ombro dela. O silêncio reina nesse momento.

JERÔNIMO: — A gente enfrenta junto.

Ela sussurra no ouvido de JERÔNIMO:

LINDA FLOR: — Junto.

O vento passa por eles. A noite continua. Mas agora eles não estão sozinhos. E o força deles é maior que tudo.
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CENA 3. INTERIOR — FAZENDA FERREIRA LEMOS — CASA GRANDE — SALA DE ESTAR — NOITE
CARLOTA anda de um lado para o outro. Passos secos.
A tensão é visível. TENÓRIO está sentado no sofá.
Tranquilo. Quase satisfeito. A raiva e o ódio no olhar de CARLOTA estão cada vez mais evidente. TENÓRIO a encara de uma forma bastante gélida. Ela respira fundo.

CARLOTA: — Eu não acredito que você deixou ele sair daqui. Principalmente depois de tudo que ele fez.

TENÓRIO cruza as pernas. Observa a irritação da esposa. Ele levanta o olhar de um jeito bem frio.
CARLOTA (esbravejando): — Xavier te enfrentou dentro da sua própria casa. E saiu andando. Isso não está certo.

TENÓRIO sorri. Um sorriso lento.

TENÓRIO: — Você é muito ansiosa.

CARLOTA para diante de TENÓRIO.

CARLOTA (irritada): — Ansiosa? Ele nos desafiou.

TENÓRIO se levanta. Anda até a janela.

TENÓRIO (cauteloso): — Se eu fizesse alguma coisa ali…
Na frente da casa grande… A cidade inteira ia desconfiar. E isso não seria nada bom para nós, Carlota.

CARLOTA fica pensativa. TENÓRIO a encara bem frio.

TENÓRIO: — Eu não construí meu nome com impulsividade. Precisamos agir com muita cautela.

CARLOTA cruza os braços. Ela enfrenta TENÓRIO.

CARLOTA: — Então qual é o seu grande plano?
TENÓRIO (maquiavélico): — Fogo.
CARLOTA: — Fogo? Do que é que você está falando, Tenório? Eu não consigo entender o que quer dizer.
TENÓRIO: — Eu vou colocar fogo naquele casebre miserável onde ele mora com o filho. Entendeu, agora?

A frase paira no ar.

TENÓRIO: — Ninguém sobrevive a um incêndio no meio da noite. O Xavier deveria ter aceitado a minha proposta. Ele vai aprender quem eu sou de verdade.

CARLOTA absorve a ideia. Os olhos começam a brilhar.

CARLOTA: — E a culpa? Ainda será do Zé Bento. Espero.que você não tenha mudado de ideia, Tenório.

TENÓRIO se aproxima dela.

TENÓRIO: — Eu uso minha influência. Algumas testemunhas certas. E Zé Bento vira o culpado perfeito.

Um silêncio pesado. Então— CARLOTA sorri. Maliciosa.

CARLOTA: — Você resolve dois problemas de uma vez.
TENÓRIO: Exatamente.

CARLOTA se aproxima mais. TENÓRIO a encara.

CARLOTA: — Esse plano tem que dar certo. (pausa) As terras de Xavier precisam ser nossas o quanto antes.

CARLOTA fala quase sussurrando:

CARLOTA: — E ninguém desafia o nome dos Ferreira Lemos e sai ileso. Com o Xavier não pude ser diferente.

TENÓRIO segura o queixo dela com firmeza.

TENÓRIO: — Isso nunca vai acontecer.
CARLOTA (ardilosa): — Eu espero isso mesmo, Tenório.
TENÓRIO: — Eu vou reunir os melhores capatazes.

Os olhos dele ficam mais sombrios.

TENÓRIO: — Dessa noite, Xavier e Jerônimo não passam. Eu vou mostrar quem manda em Tanhanhem.

Silêncio. CARLOTA o encara. Não há amor. Só ambição.
Só poder. Ela desliza a mão pelo peito dele.

CARLOTA (gélida): — Então não perca tempo.

Os olhares se cruzam. Desejo mórbido. Cumplicidade cruel. A decisão está tomada. E a morte foi selada.
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CENA 4. INTERIOR — CASA DE ZÉ BENTO — QUARTO — NOITE
O quarto simples. A luz da lua entra pela janela aberta.
ZÉ BENTO está deitado na cama. Nas mãos, uma fotografia antiga. MARIA DAS DORES sorrindo.
Ele passa o dedo pelo rosto dela na foto. A voz sai baixa.
Quebrada. Ele não consegue segurar a emoção.

ZÉ BENTO: — Eu ainda lembro do teu sorriso….

Uma lágrima escorre. Ele fecha os olhos por um instante. Respira fundo. Ele está bem emocionado.

ZÉ BENTO: — Sinto tanto a sua falta, Maria…

Silêncio. O vento balança levemente a cortina.
Ele se ajeita na cama. Olha novamente para a foto.

ZÉ BENTO: — Eu não consegui te proteger.

A culpa pesa. A voz falha.

ZÉ BENTO: — Mas eu vou proteger a nossa filha.

Ele aperta a fotografia contra o peito.

ZÉ BENTO: — Eu vou fazer de tudo pra Linda Flor descobrir a verdade. Ela vai descobrir quem o Tenório e a Carlota Ferreira Lemos são de verdade. Eu primeiro.

O olhar começa a endurecer. A dor se transforma em determinação. ZÉ BENTO está cada vez mais decidido.
ZÉ BENTO: — Eu não vou deixar Tenório e Carlota me ameaçarem. Eles não podem continuar mandando no destino da nossa filha, Maria. Isso não está certo.

ZÉ BENTO fica sentado na cama. A foto em suas mãos.

ZÉ BENTO: — Eu não vou descansar…

A respiração fica firme.

ZÉ BENTO: — Enquanto ela não souber que é nossa filha. A Linda Flor merece saber a verdade.

Ele se vira na cama. Os olhos brilham na luz da lua.

ZÉ BENTO: — E eu vou colocar aqueles dois atrás das grades. Isso é o mínimo que eles merecem. Eu juro.

A frase não é dita com raiva. É dita com certeza.
Ele olha mais uma vez para a foto. Beija com delicadeza.

ZÉ BENTO: — Eu te prometo, Maria.

Silêncio. A lua ilumina seu rosto decidido. Agora não é só saudade. É justiça. É fazer a coisa certa.
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CENA 5. EXTERIOR — ESTRADA DE TERRA — NOITE
A lua ilumina a estrada de terra. XAVIER caminha com a espingarda no ombro. Rosto fechado. De repente, ele vê duas silhuetas correndo na direção contrária. Ele para. Aponta a espingarda por instinto. Clima de tensão.

XAVIER: — Quem tá aí?! É melhor começar a falar.

As figuras param. A luz da lua revela: JERÔNIMO.
E LINDA FLOR. XAVIER abaixa a arma imediatamente.

XAVIER: — Jerônimo?!

Ele se aproxima, aflito.

XAVIER: — O que vocês estão fazendo aqui?!

JERÔNIMO respira ofegante. XAVIER o encara.

JERÔNIMO: — Desculpa, pai… Eu prometi que não ia sair… Eu não consegui cumprir a promessa.

JERÔNIMO abaixa a cabeça.

JERÔNIMO: — Mas eu fiquei com medo dele fazer alguma coisa com o senhor. O coronel é muito perigoso.

XAVIER olha para o filho. O medo nos olhos do menino.

XAVIER: — Você me mata de susto, menino…
Ele segura o rosto do filho.

XAVIER: — Mas eu sei por que você veio.

JERÔNIMO olha para ele. Aliviado. LINDA FLOR dá um passo à frente. Olha firme para XAVIER. Mesmo com medo. O silêncio da noite deixa tudo mais tenso.

LINDA FLOR: — Eu ouvi meus pais conversando.
(pausa) Eles querem matar o senhor… e o Jerônimo.

O silêncio pesa. XAVIER fica bastante pensativo.

LINDA FLOR (se enchendo de coragem): — Eu não podia deixar acontecer isso. Eu tinha que avisar vocês.

A respiração de XAVIER fica mais lenta. Ele absorve cada palavra. Depois olha para a menina. Com suavidade. LINDA FLOR não demonstra medo.

XAVIER: — Você teve coragem de sair sozinha pra avisar? Você é mais corajosa que eu pensei, Linda Flor.

Ela confirma com a cabeça. Os olhos marejados.

LINDA FLOR: — Eu não podia deixar eles fazerem isso.

XAVIER sorri de leve. Um sorriso triste.

XAVIER: — Você é diferente deles.

LINDA FLOR sorri. Ela e JERÔNIMO se olham.

XAVIER: — Mas isso não é coisa pra duas crianças resolverem. Isso quem vai resolver sou eu. Entendeu?

XAVIER olha ao redor da estrada. Decidido.

XAVIER: — Você vão pra minha casa, Linda Flor.

JERÔNIMO e LINDA FLOR se encaram.

XAVIER: — Amanhã, quando o sol nascer, a gente resolve tudo direito. Agora é hora de dormir.

LINDA FLOR solta o ar que estava preso. O medo dá lugar a um pequeno alívio. JERÔNIMO segura a mão dela discretamente. XAVIER começa a caminhar.

XAVIER: — E dessa vez… Os dois vão ficar dentro de casa. Nada de ficar saindo. Estamos entendidos?

JERÔNIMO ensaia um sorriso.

JERÔNIMO: — Prometo.

LINDA FLOR olha para trás. Na direção da fazenda.
Um arrepio passa. Mas ela segue. Os três caminham juntos pela estrada. Sem saber que o perigo pode já estar à frente. Eles acabam sumindo no meio da escuridão.
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CENA 6. EXTERIOR — FAZENDA FERREIRA LEMOS — FRENTE DA CASA GRANDE — NOITE
O terreiro está iluminado por tochas. Vários capatazes reunidos. Homens rudes. Armados. TENÓRIO está à frente deles. Imponente. Silêncio absoluto. Ele caminha devagar diante do grupo. O silêncio é ensurdecedor.

TENÓRIO: — Vocês sabem por que eu chamei cada um aqui. Essa noite ficará lembrada para todo o sempre.

Ninguém responde.

TENÓRIO: — Hoje um homem resolveu me enfrentar.

TENÓRIO olha para os capatazes com frieza.

TENÓRIO: — Entrou armado na minha propriedade.

Os capatazes murmuram, indignados.

CAPATAZ 1: — Isso é afronta, coronel.

TENÓRIO assente lentamente.

TENÓRIO: — E afronta não fica sem resposta.

TENÓRIO faz um gesto. Um dos homens entrega uma tocha acesa. A chama dança no escuro.

TENÓRIO: — Aquela casa miserável onde Xavier mora…

Ele olha um por um.

TENÓRIO: — Vai virar cinzas.

Silêncio pesado. Alguns homens trocam olhares.
Outros sorriem com expectativa. TENÓRIO os encara.

TENÓRIO: — Quem fizer o serviço completo… E garantir que ninguém saia de lá…

Ele aproxima a tocha do rosto. A luz ilumina seu olhar frio. Todos os homens olham para ele em silêncio.

TENÓRIO: — Vai ser muito bem recompensado.

Os capatazes se animam.

CAPATAZ 2: — Pode deixar com a gente, coronel!
CAPATAZ 3: — Até o sol nascer, não sobra nada!

TENÓRIO ergue a mão pedindo atenção.

TENÓRIO: — Sem testemunhas. E para que tudo saia conforme esperado eu vou junto com vocês. Ouviram?

O silêncio entre todos os capazes é ensurdecedor.

TENÓRIO: — E amanhã… a cidade inteira vai saber que foi Zé Bento quem fez isso. Ele é o bode expiatório.

Alguns homens riem baixo. TENÓRIO entrega a tocha ao capataz mais próximo. O clima de tensão é real.

TENÓRIO (frio): — Vamos!!! Hoje o Xavier vai descobrir o que eu faço com quem ousa me desafiar.

Os homens montam nos cavalos. O som dos cascos ecoa na noite. Eles partem. TENÓRIO permanece imóvel.
Observando. O fogo refletindo em seus olhos.
Frio. Calculista. A caçada começou.
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CENA 7. INTERIOR — CASA DE XAVIER — SALA — NOITE
A porta se abre. O rangido ecoa na casa simples.
XAVIER entra primeiro. JERÔNIMO e LINDA FLOR logo atrás. A lamparina ilumina o ambiente com luz amarelada. O silêncio da noite parece pesado demais.
XAVIER fecha a porta. Encosta a espingarda perto da parede. Respira fundo. Ele encara as duas crianças.

XAVIER: — Pronto. Agora vocês dois vão dormir.

XAVIER olha para os dois, firme mas carinhoso.

XAVIER: — Amanhã cedo eu levo você pra casa, Linda Flor. Mesmo que eu tenha que enfrentar o seu pai.

LINDA FLOR dá um passo à frente. Os olhos sérios demais para alguém da idade dela. XAVIER a olha.

LINDA FLOR (apreensiva): — Seu Xavier…

XAVIER para. LINDA FLOR engole seco.

LINDA FLOR: — Eu… eu queria pedir perdão.

XAVIER franze levemente a testa.

LINDA FLOR: — Pelo que meus pais estão tentando fazer. Até eu não consigo acreditar que isso aconteceu.

A voz falha. XAVIER olha LINDA FLOR com ternura.

Os olhos dela começam a marejar. XAVIER se aproxima devagar. Segura as pequenas mãos dela.

XAVIER (sério): — Escuta uma coisa.

Ele abaixa um pouco para ficar na altura dela.
XAVIER: — Você não tem culpa de quem são seus pais.

LINDA FLOR segura o choro.

XAVIER: — O que a gente escolhe fazer é que diz quem a gente é. E eu sei que você é uma boa menina, Linda Flor.

Os olhos dela brilham. JERÔNIMO se aproxima.

JERÔNIMO: — Eu falei pra você, Linda Flor.

Ele olha para LINDA FLOR Flor com segurança infantil.

JERÔNIMO: — Você pode confiar no meu pai. (pausa)
Eu sinto que vai dar tudo certo. Você pode acreditar.

XAVIER olha para o filho com ternura. Depois confirma com a cabeça. Ele olha para LINDA FLOR bem sério.

XAVIER: — O meu filho tá certo, Linda Flor.

XAVIER força um sorriso.

XAVIER: — A única preocupação agora é dormir.

Ele passa a mão no cabelo de JERÔNIMO.

XAVIER (firme): — O dia já teve emoção demais.

LINDA FLOR encara XAVIER por alguns segundos.
Como se quisesse guardar aquela imagem.

LINDA FLOR: — Obrigada… por não virar as costas pra mim. Eu não posso dizer o mesmo dos meus pais.

XAVIER responde sem hesitar.

XAVIER: — Eu jamais seria capaz de fazer isso.

Silêncio suave. JERÔNIMO segura as mãos de Linda Flor com delicadeza. Eles se olham de um jeito puro.

JERÔNIMO: — Vem.

Ele a puxa com leveza em direção ao quarto. A ingenuidade no gesto é pura.bLINDA FLOR olha para trás uma última vez. XAVIER faz um aceno tranquilo.
Os dois entram no quarto. XAVIER fica sozinho na sala.
Olha para a porta. Depois para a espingarda.
Suspira. Um leve alívio atravessa seu rosto.
Ele apaga parte da lamparina. A casa mergulha numa penumbra silenciosa. Lá fora… O vento aumenta.
E ao longe — quase imperceptível — o som distante de cavalos. Mas só que XAVIER não ouve.
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CENA 8. INTERIOR — FAZENDA FERREIRA LEMOS — CASA GRANDE — QUARTO DE LINDA FLOR — NOITE
A porta se abre com força. CARLOTA entra. O quarto está escuro. A cama arrumada. Vazia. Ela franze a testa. A cada passo que CARLOTA dá ela fica mais irritada.

CARLOTA (irritada): — Linda Flor? Onde você está?

Silêncio. Ela acende a lamparina. A luz revela o quarto intacto. Frio. Organizado demais. CARLOTA caminha até a janela. Aberta. A cortina balança com o vento.
O olhar dela endurece. A vilã fica com mais ódio ainda.

CARLOTA: — Não…

Ela começa a procurar. Abre o guarda-roupa. Olha debaixo da cama. Nada. A respiração fica mais pesada.

CARLOTA (com raiva): — Menina insolente…

Ela se aproxima da mesa de cabeceira. Algo chama sua atenção. Um papel dobrado. Carlota pega. Desdobra.
A letra infantil é evidente. Ela começa a ler em voz baixa.

CARLOTA: — “Eu tenho vergonha de ser filha de vocês…” Como você ousar dizer isso, Linda Flor?

A mandíbula trava. CARLOTA continua.
CARLOTA: — “Eu vou contar pro seu Xavier que vocês querem matar ele e o Jerônimo…” Isso é uma afronta.

O silêncio do quarto vira tensão. O papel começa a tremer nas mãos dela. CARLOTA fica descontrolada.

CARLOTA: — Vergonha….

Ela ri, mas é um riso seco. Sem humor.

CARLOTA (gélida): — Vergonha deveria ser o que você sente por desobedecer sua mãe. Isso é inadmissível.

CARLOTA amassa levemente a carta. Os olhos queimam de ódio. A respiração dela vai ficando mais pesada.

CARLOTA: — Você não sabe o que fez.

A voz sai baixa. Perigosa.

CARLOTA: — Quando eu encontrar você…

Ela respira fundo. O controle quase escapando.

CARLOTA: — Você vai aprender que ninguém me desafia… (pausa, olhos frios.) E fica por isso mesmo.

Ela olha para o espelho da penteadeira. Seu próprio reflexo a encara. Perfeito. Intocável. Mas por dentro, em fúria. CARLOTA pega um frasco de perfume. Observa por um segundo. E arremessa contra o espelho.
O vidro explode. O som ecoa pelo quarto.
Estilhaços caem pelo chão. O perfume escorre pela madeira. CARLOTA permanece imóvel. Respirando forte. O reflexo agora quebrado em vários pedaços.
Ela sussurra, quase para si em um tom gélido.

CARLOTA: — Você não faz ideia do que é ser minha filha. Mas eu vou fazer você aprender isso, garotinha.

A câmera foca nos pedaços do espelho. O rosto dela fragmentado. Multiplicado. Distante.
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CENA 9. INTERIOR — CASA DE XAVIER — QUARTO DE JERÔNIMO — NOITE
O quarto simples. A lamparina quase apagada.
Somente a luz suave iluminando o ambiente.
JERÔNIMO e LINDA FLOR sentados lado a lado na cama. Silêncio. Ainda dá para ouvir o vento lá fora.
A câmera desce lentamente… E foca no pescoço de LINDA FLOR. O colar de barbante. A pedrinha que Jerônimo deu a ela naquele mesmo dia. Ela segura o pingente entre os dedos. JERÔNIMO a encara.

LINDA FLOR (sorrindo): — Eu não tirei.

JERÔNIMO olha para o colar. Um pequeno sorriso.
JERÔNIMO (direto): — Eu sei.

LINDA FLOR olha para JERÔNIMO.

LINDA FLOR: — Como você sabe?
JERÔNIMO: — Porque você prometeu.

LINDA FLOR sorri de leve. Depois o sorriso some. O peso do dia volta. JERÔNIMO percebe a tristeza no olhar dela. Eles se olham em um silêncio absoluto.

LINDA FLOR: — Eu fiquei com medo hoje. Muito medo.

A voz sai baixa. JERÔNIMO apenas o observa.

JERÔNIMO: — Eu também.

Silêncio confortável. Ela olha para ele com uma seriedade que não combina com a idade.

LINDA FLOR: — Se alguma coisa tivesse acontecido com você… Eu nem sei o que seria de mim, Jerônimo.

A voz falha. Ele interrompe.

JERÔNIMO: — Não aconteceu.

LINDA FLOR insiste.

LINDA FLOR: — Mas e se um dia acontecer?

JERÔNIMO pensa. Ele não tem respostas grandes.
Só tem sentimento. LINDA FLOR percebe isso.

JERÔNIMO: — Eu vou estar sempre perto.

Ela o observa. Os olhos de LINDA FLOR marejam.

LINDA FLOR: — Mesmo quando a gente crescer?

Ele franze a testa, como se a ideia de crescer fosse distante demais. Ele e LINDA FLOR se olham.

JERÔNIMO: — Claro. (pausa) A gente vai crescer… mas vai continuar junto. E isso é uma promessa, Linda Flor.

LINDA FLOR respira fundo. Os olhos começam a ficar com lágrimas. Ela olha para JERÔNIMO com ternura.

LINDA FLOR: — E se o mundo tentar separar a gente?

JERÔNIMO segura a mão dela. Delicadamente.
Como se estivesse segurando algo muito frágil.

JERÔNIMO: — A gente segura mais forte.

Uma lágrima escorre pelo rosto dela. Ele percebe.
Com o polegar, limpa a lágrima com cuidado.
JERÔNIMO: — Você tá chorando, Linda Flor.
LINDA FLOR: — É que eu não quero perder você nunca.

JERÔNIMO aperta levemente a mão dela.

JERÔNIMO: — Você não vai. Eu prometo.
LINDA FLOR (com os olhos marejados): — Promete?
JERÔNIMO: — Eu prometo.

Silêncio. A lamparina oscila com o vento. Ela encosta a cabeça no ombro dele. Ele fica imóvel por um segundo.
Depois relaxa.bA câmera volta para o colar. A pedrinha simples. Mas cheia de significado.

LINDA FLOR: — Quando a gente for maior…
Você ainda vai segurar minha mão assim?

Ele olha para as mãos entrelaçadas. Depois para ela.

JERÔNIMO: — Vou. (pausa) E você vai continuar usando esse colar? E nunca esquecer de mim?

LINDA FLOR sorri com os olhos ainda molhados.

LINDA FLOR: — Vou. Eu prometo.

O silêncio se instala. Puro. Ingênuo. Do lado de fora…
Muito ao longe… Um brilho laranja começa a surgir no horizonte. Eles não veem. Eles só sabem que estão juntos. E acreditam que isso basta.
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CENA 10. EXTERIOR — FRENTE DA CASA DE XAVIER — NOITE
O silêncio da madrugada. Som de cavalos parando ao longe. Capatazes descem. Tochas acesas. Um deles joga querosene nas paredes de madeira. Outro risca o fósforo. A chama nasce pequena. Depois cresce.
Engole a parede. O fogo sobe rápido. O cheiro de fumaça invade o ambiente. XAVIER desperta no sofá. Ele sente.
Abre os olhos. Vê a luz alaranjada refletindo na parede.

XAVIER (gritando): — Não…

Ele corre até a porta. Abre. O fogo já tomou a varanda.
Ele fecha imediatamente. A fumaça começa a invadir.
Ele corre até o quarto. JERÔNIMO e LINDA FLOR acordam assustados. XAVIER olha eles com aflição.

JERÔNIMO (sem entender): — Pai?!

XAVIER entra, desesperado.

XAVIER: — Levanta! Agora!

A fumaça começa a entrar por baixo da porta. LINDA FLOR começa a tossir. O fogo está por todo o lado.

LINDA FLOR (tossindo): — Tá queimando…

XAVIER pega um cobertor. Molha rapidamente numa bacia. Cobre as crianças. O clima é de tensão total.

XAVIER: — Fiquem abaixados! Não soltem minha mão!

Eles correm até a sala. Parte do teto já começa a ceder.
Madeira estalando. O calor aumenta. TENÓRIO observa a cena. Montado a cavalo. Frio. Os olhos fixos na casa em chamas. Ele esboça um sorriso bem inescrupuloso.

TENÓRIO (baixo, para si): — Acabou.

Uma viga cai, bloqueando a porta principal. JERÔNIMO grita. O fogo dentro da casa se torna insuportável.

JERÔNIMO: — Pai!

XAVIER olha ao redor. Enxerga a janela lateral. Já tomada parcialmente pelo fogo. É a única saída.
Ele ajoelha diante das crianças. A voz firme, mas embargada. JERÔNIMO e LINDA FLOR o encaram.

XAVIER: — Escutem.

Ele segura o rosto de JERÔNIMO.

XAVIER: — Você é forte.

Olha para LINDA FLOR.

XAVIER: — Protege ela.

JERÔNIMO começa a chorar.

JERÔNIMO: — Não, pai! A gente sai junto!

O teto estala mais forte. Chamas caem ao redor.
XAVIER ergue LINDA FLOR primeiro. Empurra pela janela. Do lado de fora, um capataz se assusta ao ver a menina sair. LINDA FLOR cai no chão, tossindo.
JERÔNIMO é empurrado logo em seguida. Ele cai ao lado dela. Os dois se levantam atordoados. TENÓRIO arregala os olhos. Ele reconhece a sua própria filha.

TENÓRIO: — Linda Flor?

Fúria instantânea.

TENÓRIO: — Imbecis! Eu mandei fazer direito!

XAVIER tenta sair pela janela. Mas uma viga em chamas cai sobre ele. Ele é jogado para trás. JERÔNIMO vê.

JERÔNIMO (desesperado): — PAI!

XAVIER, no chão, envolto em fumaça. Ele tenta se levantar. Não consegue. Olha para o filho pela última vez. O fogo sobe ao redor. Ele grita:

XAVIER: — CORRE!

JERÔNIMO tenta voltar. LINDA FLOR segura sua camisa, desesperada. Os seus olhos cheio de lágrimas.

LINDA FLOR: — Não!

O fogo explode pelas janelas. Engole a sala inteira.
XAVIER desaparece entre as chamas.

JERÔNIMO grita. Um grito cru. Animal. De pavor absoluto. Ele cai de joelhos no chão chorando.

JERÔNIMO: — PAI!!!

Tenório observa. O rosto duro. Mas os olhos carregados de ódio ao ver LINDA FLOR ao lado de JERÔNIMO.

TENÓRIO (furioso): — Linda Flor…. Dessa vez você foi longe demais. Saia de perto desse maldito infeliz.

A casa desaba. Madeira cedendo. Chamas altas iluminando a noite inteira. JERÔNIMO continua de joelhos. Chorando. LINDA FLOR abraça ele. Ambos iluminados pelo fogo. Pequenos. Sozinhos. A câmera se afasta. A casa vira cinzas. O grito de JERÔNIMO ecoa.
🌴 FIM DO CAPÍTULO 🌴

Avaliação: 1 de 5.

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