
TOCAIA DO ALTO 🌴 web novela
CAPÍTULO 4
Novela criada e escrita por: Luan Maciel
Produção executiva: LRTV
Abertura:
CENA 1. EXTERIOR — FRENTE DA CASA DE XAVIER — NOITE
A estrutura já desabou. Só restam brasas. Fumaça subindo para o céu escuro. JERÔNIMO está de joelhos no chão. O rosto sujo de fuligem. Os olhos vermelhos.
LINDA FLOR ao lado dele. Ambos chorando. Silêncio pesado. Passos se aproximam.TENÓRIO surge diante deles. Frio. Imponente. Ele encara a filha. Sem qualquer compaixão. De repente, a puxa pelo braço com brutalidade. LINDA FLOR o encara decidida.
LINDA FLOR: — Ai! Você está me machucando.
JERÔNIMO levanta o olhar, furioso.
TENÓRIO: — Você é uma enorme decepção, menina.
TENÓRIO aperta o braço dela.
TENÓRIO: — Criada dentro da minha casa… E trai o próprio pai. Nas você ainda vai aprender a sua lição.
LINDA FLOR, mesmo chorando, o encara.
LINDA FLOR: — Eu não traí ninguém.
A voz treme, mas não quebra. TENÓRIO se inclina.
Olhos duros. LINDA FLOR não abaixa o olhar.
TENÓRIO: — Cuidado com o que fala. (pausa)
Agora eu vou ter que garantir que ninguém em Tanhanhem saiba da verdade. Ninguém mesmo.
Ele faz um gesto seco com a mão. Os capatazes levantam as armas. Apontam diretamente para JERÔNIMO.
Ele se levanta devagar. O medo é visível. LINDA FLOR se solta com força inesperada. Corre e fica na frente dele.
LINDA FLOR (gritando): — Não!
TENÓRIO perde a paciência.
TENÓRIO: — Sai da frente, Linda Flor!
LINDA FLOR (com coragem): — Eu não vou sair!
Os olhos dela queimam.
LINDA FLOR: — O senhor é um maldito!
O clima pesa. Um dos capangas engatilha a arma.
O som do metal cortando o silêncio. JERÔNIMO segura a mão dela por trás. Ele e LINDA FLOR se olham.
JERÔNIMO: — Linda…
TENÓRIO avança um passo.
TENÓRIO: — Última vez. Sai da minha frente.
LINDA FLOR respira fundo. Olha para JERÔNIMO.
Os dois entendem sem dizer. Quando o capanga ajusta a mira— LINDA FLOR grita com toda a força que tem:
LINDA FLOR (desesperada): — CORRE!
JERÔNIMO hesita.
JERÔNIMO: — Eu volto pra te buscar! Eu juro.
Os olhos deles se encontram. Lágrimas misturadas à fumaça. Ela balança a cabeça. Mandando ir. JERÔNIMO vira. E corre. Desesperado. TENÓRIO explode
TENÓRIO (esbravejando): — Peguem ele!
O tiro dispara. Erra. JERÔNIMO corre pela estrada escura. Os sons de cavalos e gritos ecoam.
TENÓRIO, tomado pela fúria, vira-se para LINDA FLOR. E lhe dá um tapa violento no rosto.
O som seco corta o ar. Ela cai de lado. Mas levanta o rosto lentamente. Sem chorar agora. Só decepção.
LINDA FLOR: — Eu tenho vergonha de ser sua filha.
TENÓRIO a encara. Por um segundo, o silêncio pesa.
Ao longe JERÔNIMO corre pela estrada. Escuridão total. Respiração ofegante. Som de cavalos atrás dele.
A caçada começou. A câmera acompanha JERÔNIMO correndo. Pequeno. Sozinho. Engolido pela noite.
🌴
CENA 2. INTERIOR — FAZENDA FERREIRA LEMOS — CASA GRANDE — SALA DE ESTAR — NOITE
A SALA DE ESTAR da CASA GRANDE está parcialmente escura. Apenas algumas velas acesas. CARLOTA anda de um lado para o outro.
A carta de LINDA FLOR ainda amassada em sua mão.
Os passos dela ecoam pelo piso de madeira.
CARLOTA (irritada) — Ingrata… insolente…
CARLOTA respira com dificuldade. Raiva contida.
A porta se abre. Um capataz entra, sujo de fuligem.
CARLOTA se vira bruscamente. Com muito desprezo.
CARLOTA: — Quem mandou você entrar sem anunciar?! Você está esquecendo quem eu sou?
O homem abaixa a cabeça.
CAPATAZ: — Desculpe, dona Carlota… eu vim dar notícia. E eu acho que a senhora vai gostar bastante.
Ela se aproxima lentamente. Olhar frio.
CARLOTA (gélida): — Então fale.
CAPATAZ: — A casa… já não existe mais. (pausa)
Xavier morreu no incêndio. Como foi ordenado.
Silêncio. CARLOTA fecha os olhos por um segundo.
Um sorriso discreto começa a surgir. Quase elegante.
CARLOTA: — Eu sabia que meu marido escolheria homens competentes. Finalmente o Xavier morreu.
CARLOTA ajeita a postura. A carta ainda em sua mão.
Mas o capataz continua. Ele fala com muito receio.
CAPATAZ: — Só que…
CARLOTA (interrompendo): — O que foi que houve?
CAPATAZ: — O menino escapou.
A expressão de CARLOTA endurece.
CARLOTA: — Que menino?
CAPATAZ: — O Filho do Xavier. Jerônimo.
O nome pesa no ar. O sorriso desaparece completamente. A raiva de CARLOTA fica evidente.
CAPATAZ: — E a senhorita Linda Flor estava com ele.
Silêncio absoluto. CARLOTA não pisca. A respiração começa a ficar mais forte. A vilã está incrédula.
CARLOTA (em choque): — Ela estava… com ele?
CAPATAZ: — Sim, senhora.
Ela se aproxima devagar. Perigosamente calma.
CARLOTA (ardilosa): — Você está me dizendo… que minha filha estava na casa daquele homem?
O capataz não responde. CARLOTA explode:
CARLOTA (gritando): — INÚTEIS!
Ela joga a carta contra o chão.
CARLOTA: — O meu marido mandou fazer um serviço simples! Agora trate de encontrar aquele moleque.
CAPATAZ: — Coronel Tenório já mandou os homens atrás do menino… Nós vamos encontrar ele, patroa.
Ela levanta a mão, interrompendo.
CARLOTA: — Saia. Eu não quero mais ver inúteis.
Ele sai apressado. A porta se fecha. Silêncio.
CARLOTA fica sozinha. Respiração pesada. Ela olha para a carta caída no chão. Se abaixa lentamente. Pega o papel. Lê novamente o trecho: “Eu vou contar…”
A mão dela começa a tremer. O ódio em seu rosto.
CARLOTA: — Se esse menino continuar vivo… Tudo o que nós construímos… Jerônimo precisa desaparecer.
O controle vai se perdendo. Ela derruba uma cadeira ao passar. Respira fundo. Mas o olhar agora é diferente.
Menos elegante. Mais desesperado. Ela entende. Não é mais apenas sobre poder. É sobre sobrevivência. A câmera se aproxima do rosto dela. Os olhos brilhando de fúria.
🌴
CENA 3. EXTERIOR — ARREDORES DE TANHANHEM — ESTRADA DE TERRA — MADRUGADA
Escuridão quase absoluta. JERÔNIMO corre.
Descalço. Respiração ofegante. Lágrimas misturadas com fuligem. O som de cavalos ecoa atrás dele. Gritos distantes. O pavor começa a tomar conta dele.
CAPANGA (em off): — Ele foi por ali!
JERÔNIMO não olha para trás. Corre mais. A visão começa a falhar. Ele tropeça. Cai. Levanta. Continua.
Flash rápido na mente dele:
— O fogo consumindo a casa.
— O pai gritando “CORRE!”
— Linda Flor chorando.
A voz dela ecoa na memória:
LINDA FLOR (ECO): — Corre!
JERÔNIMO começa a chorar correndo.
JERÔNIMO (em prantos): — Pai…
Os cascos parecem mais próximos. Ele atravessa a estrada sem perceber. Faróis surgem na escuridão.
Um carro antigo. O motorista não vê a tempo. FREIO BRUSCO. O impacto. JERÔNIMO é lançado e cai no chão de terra. Silêncio. O motor ainda ligado. A porta do carro se abre com urgência. Um homem de cerca de 55 anos desce. É SEVERINO (Osmar Prado). Uma mulher, EMERENCIANA (Zezé Motta), sai do outro lado. Ela leva a mão à boca. A tensão é bastante palpável.
EMERENCIANA (em choque): — Meu Deus do céu!
SEVERINO corre até o menino caído. Se ajoelha.
Vira-o com cuidado. Vê o rosto sujo de cinzas.
SEVERINO: — É só um menino…
EMERENCIANA (aflita): — Ele tá vivo?
SEVERINO encosta a mão no peito do garoto. Sente a respiração fraca. Ele olha para sua esposa com um sim.
SEVERINO (sério): — Tá. Mas desmaiado.
Ela olha ao redor, nervosa. A estrada deserta.
Ao longe, quase imperceptível, ecos de vozes e cavalos.
EMERENCIANA: — Severino… a gente não pode se meter em confusão. Isso tem que ficar do jeito que está.
SEVERINO: — E vai fazer o quê? Deixar ele aqui pra morrer? Você sabe que isso não é certo, Emerenciana.
EMERENCIANA: — Ele não tem nem idade pra estar nessa estrada sozinho… Onde estão os pais dele?
SEVERINO: — Se Deus botou ele na nossa frente, não foi por acaso. É o nosso dever ajudar ele agora.
Ele pega JERÔNIMO nos braços com cuidado.
O menino não reage. EMERENCIANA abre a porta do banco de trás. Eles o deitam com delicadeza. Ela ajeita a cabeça dele no colo. Passa a mão em seus cabelos.
EMERENCIANA: — Quem fez isso com você, meu filho?
SEVERINO entra no carro. Liga o motor. Faróis cortam a escuridão. Ele olha para JERÔNIMO com cautela.
SEVERINO: — Primeiro a gente salva. Depois pergunta.
O carro arranca. Desaparece na estrada escura. Pouco depois— Os capangas surgem a cavalo. Param no meio da estrada. Um deles desce. Olha marcas de pneu no chão.
CAPANGA 1: — Ele passou por aqui…
CAPANGA 2: — Mas não tá mais.
Silêncio. Só o vento. A câmera corta para o carro ao longe. Pequeno ponto de luz. Sumindo na madrugada.
JERÔNIMO desacordado. Entre a vida e o esquecimento. A noite engole tudo.
🌴
CENA 4. EXTERIOR — CASA DE XAVIER DESTRUÍDA — MADRUGADA
O fogo já se apagou. Fumaça ainda sobe da madeira carbonizada. O céu começa a clarear. ZÉ BENTO caminha devagar pelo terreno destruído. Os passos pesados. O olhar perdido. Ele para. Ajoelha-se.
Entre as cinzas, um corpo irreconhecível. Mas ele sabe.
A voz sai em um sussurro.
ZÉ BENTO: — Xavier….
Ele fecha os olhos. Engole o choro. Passos se aproximam. O Delegado da cidade surge acompanhado de dois policiais.
DELEGADO: — Afaste-se do corpo.
ZÉ BENTO olha, confuso.
ZÉ BENTO (inconformado): — Que história é essa?
Um dos policiais segura seu braço.
DELEGADO: — Você está preso.
ZÉ BENTO solta um riso incrédulo.
ZÉ BENTO: — Preso? Pelo quê?
DELEGADO: — Pela morte do Xavier… E pelo desaparecimento do filho dele. Agora entendeu?
Silêncio pesado. ZÉ BENTO encara o homem, sem acreditar. Os policiais vão cercando ele rapidamente.
ZÉ BENTO: — Isso é alguma piada de mau gosto?
O Delegado não reage.
ZÉ BENTO: — Vocês enlouqueceram?
Ele olha ao redor. Depois encara o Delegado.
ZÉ BENTO: — Ou foram comprados?
DELEGADO: — Se o senhor continuar com esse tipo de insinuação… sua situação pode piorar. É isso que quer?
ZÉ BENTO se solta bruscamente.
ZÉ BENTO (enfático): — Xavier era meu amigo!
Um dos policiais puxa suas mãos para trás.
As algemas se fecham com um clique seco.
ZÉ BENTO: — Isso não faz sentido
O segundo policial se aproxima. Inclina-se discretamente ao ouvido dele. E ele Sussurra:
POLICIAL 2: — Em Tanhanhem… O coronel Tenório é quem faz a lei. E você não pode fazer nada com isso.
ZÉ BENTO congela. O olhar muda. Ele entende.
É uma armadilha. Mas não tem como provar.
Ele encara o Delegado.
ZÉ BENTO (sério): —- Vocês estão cometendo um erro.
DELEGADO: — Levem ele daqui agora.
Eles o conduzem até a viatura antiga estacionada ali perto. Antes de entrar, ZÉ BENTO enfia a mão dentro da camisa. Retira uma pequena foto amassada. MARIA DAS DORES. Ele segura contra o peito. Sussurra:
ZÉ BENTO: — Isso não vai me calar. (pausa)
Eu vou contar a verdade pra Linda Flor. Eu juro.
Os policiais o empurram para dentro da viatura. A porta bate. O motor liga. A viatura se afasta lentamente das cinzas. A câmera fica no terreno vazio. O vento sopra. Cinzas voam pelo ar. A casa já não existe. XAVIER não existe mais. JERÔNIMO desapareceu. ZÉ BENTO preso.
E a verdade… engolida pelo silêncio da madrugada.
🌴
CENA 5. INTERIOR — FAZENDA FERREIRA LEMOS — CASA GRANDE — SALA DE ESTAR — MADRUGADA
CARLOTA está sentada em sua poltrona. Postura impecável.BOlhar gélido. A porta da casa se abre com violência.BTENÓRIO entra arrastando Linda Flor pelo braço. A menina tenta se soltar. Ele a encara.
LINDA FLOR: — Me solta! Tá doendo!
TENÓRIO a empurra para o centro da sala.
TENÓRIO (furioso): — Você foi longe demais!
A voz ecoa por toda a CASA GRANDE.
TENÓRIO: — Ajudando aquele moleque a fugir!
LINDA FLOR o encara, chorando, mas firme. CARLOTA se levanta lentamente. Caminha até a filha.
Sem pressa. De repente— Ela dá um tapa no rosto de LINDA FLOR. O som seco corta o ar. LINDA FLOR leva a mão ao rosto. Os olhos marejados.
CARLOTA (fria): — Você é uma enorme decepção.
A voz é baixa. Controlada. Muito mais assustadora que um grito. LINDA FLOR respira fundo. As lágrimas descem. Mas ela encontra coragem e olha para CARLOTA. A vilã não perde a postura gélida.
LINDA FLOR: — Eu fiz a coisa certa. Eu sei que fiz.
Silêncio pesado. CARLOTA a encara como se não
reconhecesse aquela criança. Tensão no ar.
CARLOTA (irritada): A coisa certa? Não me faça rir, Linda Flor. O que você fez foi desafiar a mim e o seu pai.
A vilã se aproxima ainda mais de LINDA FLOR.
CARLOTA (esbravejando): — Você desafiou seu pai.
Você me desafiou. E isso não vai ficar por isso mesmo.
LINDA FLOR treme, mas sustenta o olhar. TENÓRIO se posiciona diante dela. Imponente. LINDA FLOR o olha.
TENÓRIO: — O que você fez hoje foi a gota d’água.
(pausa) Amanhã você vai para um orfanato na capital.
O mundo de LINDA FLOR parece desmoronar.
LINDA FLOR (sem acreditar): — Não… Por favor, não….
TENÓRIO (autoritário): — Aqui você não pisa mais.
LINDA Flor começa a chorar de verdade.
LINDA FLOR: — Se o Jerônimo morrer… Eu nunca vou perdoar vocês. O que vocês fizeram é uma covardia.
CARLOTA avança. Segura o rosto da filha com força.
Os dedos cravam na pele. LINDA FLOR fica com medo.
CARLOTA (fria): — Escute bem o que eu vou dizer.
Os olhos de CARLOTA queimam de raiva.
CARLOTA: — Quando você voltar um dia… (pausa dura)
Você nunca vai se lembrar que esse infeliz do Jerônimo existiu. E você verá que fizemos tudo para o seu bem.
LINDA FLOR a encara com mágoa profunda. Depois olha para TENÓRIO. Decepção. Silêncio. Ela não diz mais nada. Apenas sobe as escadas. Passos pequenos.
Mas decididos. A porta do quarto bate. Silêncio na sala.
CARLOTA respira fundo. Ainda tremendo de ódio.
Vira-se para Tenório.
CARLOTA (ardilosa): — Eu quero aquele menino morto.
A voz sai fria. Calculada.
CARLOTA: — Ou tudo que nós construímos vai ser arruinado. E isso não pode acontecer. Você ouviu?
TENÓRIO a observa em silêncio. Olhar duro.
Sem emoção. Depois responde, baixo:
TENÓRIO: — Ele não vai voltar. Eu prometo.
CARLOTA o encara. Mas o silêncio dele não é reconfortante. É sombrio. A câmera sobe lentamente.
O casarão imponente. Mas por dentro— Corroído.
🌴
CENA 6. INTERIOR — HOTEL SIMPLES LONGE DE TANHANHEM — QUARTO — MANHÃ
AMANHECE. Luz do sol entrando pela janela.
Um quarto modesto. JERÔNIMO está deitado na cama.
Curativos simples na testa e no braço. SEVERINO está sentado numa cadeira ao lado. EMERENCIANA segura um pano úmido nas mãos. Os dois observam o menino com ternura silenciosa. JERÔNIMO começa a se mexer.
Respiração muda. Ele desperta. Abre os olhos devagar.
Estranha o teto. O quarto. Se levanta assustado.
JERÔNIMO (assustado): — Onde eu tô?!
Ele tenta recuar na cama. Olha para SEVERINO e EMERENCIANA. Desconhecidos. O medo volta.
JERÔNIMO (apavorado): — Quem são vocês?!
EMERENCIANA fala com voz doce.
EMERENCIANA: — Calma, meu filho… calma.
SEVERINO se inclina um pouco.
SEVERINO: — A gente te encontrou na estrada.
JERÔNIMO arregala os olhos. A memória volta como um golpe. O fogo. O pai. LINDA FLOR. Ele começa a respirar rápido. Ele olha para SEVERINO e EMERENCIANA de um jeito bastante sério.
JERÔNIMO: — Eu tenho que voltar!
Ele tenta se levantar. A tontura o faz quase cair.
Severino o segura com firmeza, mas cuidado.
SEVERINO: — Você sofreu um acidente. Foi atropelado.
JERÔNIMO congela. Olha para os próprios braços.
Curativos. A voz começa a falhar.
JERÔNIMO (entristecido): — Meu pai…
Silêncio. EMERENCIANA sente o peso da palavra.
EMERENCIANA: — O que aconteceu com seu pai?
JERÔNIMO tenta falar. Mas a garganta trava.
Os olhos se enchem de lágrimas.
JERÔNIMO: — Eles botaram fogo… Na nossa casa.
EMERENCIANA leva a mão à boca. SEVERINO fica imóvel. As lágrimas escorrem dos olhos de JERÔNIMO.
SEVERINO: — Quem fez isso?
JERÔNIMO aperta os punhos.
JERÔNIMO (chorando): — O coronel Tenório.
(pausa) Ele mandou matar meu pai. O meu pai.
Ele começa a chorar como criança. Sem força. Sem proteção. SEVERINO coloca a mão no ombro dele.
JERÔNIMO: — Eu vi ele… (voz engasgada.)
Eu vi ele pegar fogo. Ele morreu para me salvar.
EMERENCIANA não se contém. Se aproxima.
Abraça o menino com cuidado. Ele resiste por um segundo. Depois cede. Chora no ombro dela.
SEVERINO respira fundo. O olhar dele muda.
De susto para indignação. De raiva bem visível.
SEVERINO (indagando): — E a sua mãe?
JERÔNIMO balança a cabeça.
JERÔNIMO: — Eu não tenho mãe. Só tinha o meu pai.
EMERENCIANA: — E mais alguém sabe que você sobreviveu? Eles podem querer vir atrás de você.
JERÔNIMO lembra. Os cavalos. Os tiros. Ele olha para eles assustado. Os olhos dele revelam muita dor.
JERÔNIMO (com medo): — Eles estavam atrás de mim.
SEVERINO troca um olhar com EMERENCIANA.
SEVERINO: — Então ninguém pode saber que você tá aqui. Eles podem querer tentar terminar o serviço.
JERÔNIMO ergue o olhar. Pequeno. Mas decidido.
JERÔNIMO: — Eu vou voltar. Eu vou contar pra todo mundo o que ele fez. Que o Tenório matou meu pai.
SEVERINO o encara. Com respeito.
SEVERINO (firme): — Pra isso você precisa viver.
EMERENCIANA segura o rosto do menino com carinho.
EMERENCIANA: — Agora você tá seguro.
JERÔNIMO respira fundo. Olha pela janela. O mundo lá fora parece distante. Mas o trauma ainda pulsa.
JERÔNIMO: — A Linda Flor… (pausa) Ela ficou lá.
EMERENCIANA: — Primeiro a gente cuida de você.
SEVERINO: — Depois a gente decide o que fazer.
JERÔNIMO fecha os olhos por um instante. Lágrimas silenciosas. Mas algo novo nasce ali. Não só dor.
Promessa. A câmera se afasta do quarto simples.
Uma nova história começa ali. Longe de TANHANHEM.
Mas não longe da vingança.
🌴
CENA 7. EXTERIOR — ESTAÇÃO DE TREM DE TANHANHEM — PLATAFORMA — MANHÃ
Movimentação intensa. Pessoas com malas. Apitos.
Vapor subindo da locomotiva. CARLOTA segura Linda Flor pelo braço com firmeza excessiva. A menina tenta acompanhar o ritmo, mas o rosto está pálido. Os olhos inchados de tanto chorar. CARLOTA a encara bem fria.
CARLOTA: — Você vai ficar no orfanato o tempo que for necessário. E só vai vingar quando eu disser que pode.
A voz é fria. Controlada. De quem está no controle.
CARLOTA: — E só sai de lá quando esquecer esse nome de uma vez por todas. Eu espero ter sido bem clara.
LINDA FLOR a encara. Ferida. Mas firme.
LINDA FLOR: — Eu nunca vou esquecer o Jerônimo.
CARLOTA aperta o braço dela com mais força.
CARLOTA: — Você vai. (pausa) Nem que eu precise arrancar isso de você. E você vai me obedecer, Linda Flor. Ou eu não me chamo Carlota Ferreira Lemos.
O apito do trem ecoa. O embarque começa. CARLOTA conduz LINDA FLOR até a porta do vagão. Sem abraço.
Sem despedida. Apenas controle.
CARLOTA: — Considere isso uma oportunidade de aprender a ser digna do seu sobrenome. Entendeu?
LINDA FLOR sobe o degrau. Antes de entrar, encara a mãe. CARLOTA a sua pose fria e totalmente gélida.
LINDA FLOR: — Eu tenho vergonha do meu pai e de você. Eu nunca vou esquecer tudo o que fizeram.
Silêncio pesado. CARLOTA não reage com violência.
Só com um olhar gelado. LINDA FLOR entra no trem.
A porta se fecha. O trem começa a se mover lentamente. Já dentro do trem LINDA FLOR está sentada perto da janela. As lágrimas escorrem silenciosas. Ela olha a paisagem da cidade passando devagar. As ruas. A igreja.
Os campos. Ela leva a mão ao pescoço. Segura a pedrinha no cordão. Aperta contra o peito.
LINDA FLOR: — Eu nunca vou esquecer você.
Os olhos dela se fecham por um instante.
LINDA FLOR: — E eu espero… que onde você esteja…
nunca me esqueça também. Você prometeu voltar.
O trem ganha velocidade. TANHANHEM começa a ficar distante. CARLOTA permanece parada. Imóvel. Observando o trem desaparecer no horizonte. O vapor some no ar. O barulho diminui. Um leve sorriso surge.
Frio. Vitorioso. Ela ajeita as luvas com elegância.
E diz, para si mesma:
CARLOTA: — Agora… ninguém nunca mais vai desafiar os Ferreira Lemos. Tudo vai voltar ao normal.
Ela se vira. O salto ecoa firme na plataforma.
A câmera sobe. O trem vira um ponto distante.
Duas crianças separadas pelo destino. Mas unidas pela promessa. Uma promessa que nem os anos vão apagar.
🌴
CENA 8. INTERIOR — DELEGACIA DE TANHANHEM — CELA ZÉ BENTO — TARDE
Luz dura entrando pelas grades. ZÉ BENTO sentado no banco de cimento. Olhar cansado, mas digno. Passos ecoam pelo corredor. Lentos. Seguros. TENÓRIO surge diante da cela. Impecável. Chapéu na mão. Olhar frio.
TENÓRIO (ardiloso): — Boa tarde, Zé Bento.
ZÉ BENTO levanta os olhos devagar. Silêncio pesado.
ZÉ BENTO (sério): — O que o senhor quer aqui?
TENÓRIO se aproxima das grades. Observa o homem preso. O vilão demonstra toda a sua frieza.
TENÓRIO: — Só vim ver se está sendo bem tratado.
ZÉ BENTO solta um riso seco.
ZÉ BENTO: — O senhor devia ter vergonha.
TENÓRIO inclina levemente a cabeça.
TENÓRIO: — Vergonha? (pausa) Vergonha é coisa pra quem perde. E eu sou e sempre serei um vencedor.
Silêncio. ZÉ BENTO se levanta. Vai até as grades.
Fica frente a frente com ele. TENÓRIO sorri.
ZÉ BENTO: — Você matou o Xavier.
TENÓRIO sustenta o olhar. E então. Sem hesitar.
TENÓRIO: — Matei. E eu não me arrependo.
O silêncio parece rachar o ar. ZÉ BENTO arregala os olhos. Mesmo esperando, ouvir é diferente.
TENÓRIO: — Coloquei fogo naquela casa. E faria de novo. O poder em Tanhanhem serão todos meus.
A revolta cresce no rosto de ZÉ BENTO. Ele segura as grades com força. TENÓRIO o encara com desprezo.
ZÉ BENTO (gritando): — Você é um covarde.
TENÓRIO: — Infelizmente… o menino escapou.
A mandíbula dele trava por um segundo.
TENÓRIO: — Mas não por muito tempo.
ZÉ BENTO respira fundo. O ódio controlado.
ZÉ BENTO: — Você pode mandar na polícia. Pode mandar na cidade. (pausa) Mas não manda no tempo.
TENÓRIO observa, curioso.
ZÉ BENTO: — Um dia… mais cedo ou mais tarde… Linda Flor vai descobrir a verdade. Vai saber quem é o verdadeiro pai dela. E você não vai poder impedir.
O silêncio agora pesa diferente. TENÓRIO sorri. Lento.
Confiante. ZÉ BENTO se aproxima da grade da cela.
TENÓRIO: — Isso jamais vai acontecer. Porque a verdade… é escrita por quem sobrevive. E você não passa de um perdedor, Zé Bento. Trate de aceitar isso.
ZÉ BENTO encara TENÓRIO. Sem medo.
ZÉ BENTO: — A mentira nunca dura pra sempre.
TENÓRIO: — Dura o suficiente. Pode acreditar.
TENÓRIO se vira para sair. Mas antes, lança a última provocação. Ele olha ZÉ BENTO com frieza e ódio.
TENÓRIO: — Aproveite o tempo aqui. (pausa) É o mais perto da justiça que você vai chegar. Você me ouviu?
Ele vai embora. Os passos ecoam até desaparecer.
ZÉ BENTO permanece parado. Respiração pesada.
Depois olha para o céu através da pequena janela.
ZÉ BENTO: — Você ainda vai cair.
A câmera se afasta da cela. Grades fechando o quadro.
Mas a promessa ecoa. ZÉ BENTO imerso na injustiça.
🌴
CENA 9. EXTERIOR — BEIRA DA ESTRADA/ RIACHO — MANHÃ
Interior da BAHIA. Manhã dourada. O som de pássaros e água corrente. O carro para na beira da estrada de terra. Ao lado, um riacho de águas claras serpenteia entre pedras e vegetação. JERÔNIMO, ainda criança, olha fixamente para o riacho. Os olhos brilham — não de tristeza, mas de lembrança.
EMERENCIANA (estranhando): — Severino… por que você parou? Está acontecendo alguma coisa?
SEVERINO não responde de imediato. Ele observa JERÔNIMO. O menino abre a porta devagar. SEVERINO o acompanha. O som da água parece chamar. JERÔNIMO fica bastante pensativo.
SEVERINO (voz mansa): — Eu sei o que é isso…
Saudade dá um aperto que parece que não cabe no peito.
JERÔNIMO mantém os olhos na correnteza.
JERÔNIMO: — Linda Flor…. Eu prometi pra ela.
Prometi que um dia eu ia voltar. Eu tenho que cumprir.
SEVERINO respira fundo.
SEVERINO: — Promessa é coisa séria. Mas promessa também exige preparo. E você ainda é só um menino.
JERÔNIMO olha para ele.
JERÔNIMO: — O senhor acha que eu vou conseguir?
SEVERINO (sério): — Eu não acho. Eu sei. Mas você vai ter que virar homem antes de voltar pra Tanhanhem.
Silêncio. O barulho da água aumenta.
JERÔNIMO: — Posso dar um mergulho?
SEVERINO sorri, emocionado.
SEVERINO: — Pode, meu filho. Às vezes a gente precisa atravessar um rio pra descobrir quem é.
JERÔNIMO o abraça forte. Um abraço de pai e filho.
Emerenciana observa de longe, com lágrimas discretas. JERÔNIMO corre e mergulha. A câmera o acompanha por debaixo d’água. O som fica abafado. A correnteza envolve seu corpo. A trilha sobe. A imagem se mistura com flashes: O incêndio O grito do pai. LINDA FLOR chorando na estação. A pedrinha no cordão. A água envolve tudo. Escuridão. O tempo se passa. Quinze anos se vão como um sopro. A água se rompe. Um homem emerge. Agora é JERÔNIMO adulto. O olhar é outro.
Não há mais ingenuidade. Há cicatriz. Ele caminha até a margem. A água escorre pelo rosto.nSEVERINO e EMERENCIANA não estão mais ali. É como se o tempo tivesse passado num único fôlego. JERÔNIMO (Chay Suede) olha para o horizonte de um jeito sério.
JERÔNIMO (voz firme, contida): — Quinze anos…
O nosso protagonista fecha os punhos.
JERÔNIMO (decidido): — Pai… Eu não esqueci.
Olha para a estrada que leva de volta a TANHANHEM.
JERÔNIMO (respira fundo): — Chegou a hora. Hora de fazer justiça pelo que fizeram com você, pai.
O olhar suaviza levemente.
JERÔNIMO: — E de cumprir a promessa que eu fiz. Linda Flor… Eu tô voltando. Por favor…. Me espera.
A câmera se afasta lentamente. JERÔNIMO sobe em sua moto que está estacionada à beira da estrada. O sol ilumina sua silhueta. A trilha cresce.
TRILHA SONORA: Sangue Latino — Secos e Molhados
🌴
CENA 10. INTERIOR — TREM EM MOVIMENTO — MANHÃ
O som ritmado dos trilhos. A câmera percorre o vagão lentamente. Um senhor cochila com o chapéu no rosto.
Uma mãe embala um bebê. Dois jovens riem baixo.
Uma senhora reza com o terço entre os dedos. O trem avança. TANHANHEM se aproxima. A câmera para.
Uma mulher sentada próxima à janela. Elegante. Postura firme. Mas o olhar… ainda doce.
É LINDA FLOR (Alice Wegmann). O vento entra levemente pela fresta da janela. Ela observa a paisagem passando. Campos. Estrada de terra. Um céu alaranjado.
A mão dela sobe devagar até o pescoço. A pedrinha.
O mesmo cordão. Os dedos a apertam com cuidado.
Silêncio. Um quase sorriso surge. Mas não dura.
LINDA FLOR (sussurrando): — Quinze anos…
Ela fecha os olhos por um instante.
Flash rápido na memória:
— O menino correndo na estrada.
— “Eu volto pra te buscar!”
— O incêndio refletido nos olhos dele.
Ela abre os olhos. A mágoa aparece. Contida.
LINDA FLOR: — Você não voltou.
A voz não é acusação. É dor guardada. Ela respira fundo. Tenta se recompor. Olha o próprio reflexo no vidro.
Agora é uma mulher. Segura. Educada. Treinada para não demonstrar. Mas o coração trai. Ela aperta a pedrinha de novo. Os olhos brilham.
LINDA FLOR (baixo, quase sem querer): — Eu esperei.
O trem começa a diminuir a velocidade. O anúncio distante trazendo LINDA FLOR para a realidade.
CONDUTOR (em off): — Próxima parada… Tanhanhem.
O nome ecoa dentro dela. O coração acelera.
Ela engole seco. Tenta esconder o que sente. Mas não consegue. A lembra de JERÔNIMO ainda é bem viva.
LINDA FLOR: — (baixinho) Onde você estiver…
Pausa. Um fio de esperança ainda vive.
LINDA FLOR: — Espero que não tenha me esquecido também. Porque eu nunca esqueci você, Jerônimo.
O trem entra nos trilhos da estação. A luz do pôr do sol invade o vagão. O reflexo dela se mistura à paisagem da cidade. Ela segura firme a pedrinha. O olhar agora não é só saudade. É pressentimento. Como se algo estivesse prestes a acontecer. O trem para. Mas a câmera não corta. Ela permanece olhando pela janela. Segurando o cordão. O coração acelerado.
🌴FIM DO CAPÍTULO 🌴

Deixe um comentário