Tocaia do Alto: Capítulo 05

TOCAIA DO ALTO 🌴 web novela

CAPÍTULO 5

Novela criada e escrita por: Luan Maciel
Produção executiva: LRTV

Abertura:

CENA 1. EXTERIOR — FAZENDA FERREIRA LEMOS — CASA GRANDE — SALA DE JAT OI
A mesa posta com elegância excessiva. Prata polida.
Toalha impecável. TENÓRIO, agora mais velho, postura imponente, toma café em silêncio. Sobre a mesa — ao lado do prato — um chicote. Símbolo de poder.
Passos ecoam no assoalho. CARLOTA entra.
Elegante. Fria. Controlada. Ela se senta à mesa.
Silêncio inicial. Apenas o tilintar da xícara. Carlota quebra o silêncio. TENÓRIO apenas e encara.

CARLOTA (fria): — Hoje fazem quinze anos.

TENÓRIO não reage. Continua mexendo o café.

CARLOTA: — Quinze anos desde o incêndio. Desde a morte de Xavier. E você sabe o que quero dizer, Tenório.

Ele coloca a colher sobre o pires. O som ecoa seco.

CARLOTA: — E desde que Jerônimo desapareceu.

TENÓRIO levanta o olhar devagar. Frio.
TENÓRIO (ardiloso): — Fique calada. Estou mandando.

TENÓRIO inclina o corpo levemente na direção dela.

TENÓRIO (firme): — Antes que alguém ouça você falando esse nome dentro da minha casa. Eu fui claro?

Silêncio tenso. CARLOTA sustenta o olhar.

CARLOTA: — Eu só estou dizendo que—
TENÓRIO (interrompe): — Tudo aconteceu da forma que tinha que acontecer. Não era isso que queríamos?

Ele pega a xícara. Bebe com calma.

TENÓRIO: — Xavier morreu. (pausa) O menino sumiu.
E aquelas terras agora são nossas. Fim desse assunto.

CARLOTA cruza os braços. O olhar dela não é de medo.
É de cálculo. TENÓRIO continua a enfrentando.

CARLOTA: — Mesmo assim… eu tenho receio.
TENÓRIO (desdenhando): — Receio de quê?
CARLOTA: — De que ele volte. Você sabe quem.

O nome não é dito. Mas está no ar. TENÓRIO solta um leve riso nasal. Frio. Quase um olhar macabro.

TENÓRIO: — Depois de quinze anos? Se estivesse vivo… já teria aparecido. O Jerônimo não vai voltar. Entendeu?

CARLOTA estreita os olhos.

CARLOTA: — E se ele estiver esperando?

Silêncio. TENÓRIO pega o chicote sobre a mesa.
Passa a mão pelo couro. Lentamente.

TENÓRIO: — Se aquele moleque pisar em Tanhanhem… Ele será um homem morto. Isso você pode acreditar.

CARLOTA observa. Não há hesitação na voz dele.
Mas também não há prova. Ela se inclina na direção dele. A troca de olhares é bastante venenosa.

CARLOTA: — Eu espero que você esteja certo. Porque eu não vou admitir perder o poder que sempre tivemos… Por causa de um moleque sem família.

O silêncio entre os dois é pesado. Há cumplicidade.
Mas também tensão. TENÓRIO coloca o chicote novamente sobre a mesa. Com firmeza.

TENÓRIO (direto): — O passado está enterrado.

Do lado de fora, o vento começa a soprar mais forte.
Uma janela bate ao longe. CARLOTA olha na direção do som. Por um segundo — apenas um — há inquietação em seus olhos. Mas ela disfarça. TENÓRIO volta a tomar o café. Como se nada pudesse ameaçar aquele império. A câmera se afasta lentamente da mesa. O chicote em destaque.
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CENA 2. INTERIOR — SALVADOR — CASA DE SEVERINO E EMERENCIANA — QUARTO DE JERÔNIMO — DIA
O quarto é simples, organizado. Uma mala aberta sobre a cama. Roupas sendo colocadas às pressas. JERÔNIMO com expressão fechada, movimentos decididos. A porta se abre devagar. EMERENCIANA aparece. Percebe a mala. O silêncio pesa antes mesmo da primeira palavra.

EMERENCIANA: — O que está acontecendo, Jerônimo?

Ele não responde de imediato. Continua dobrando uma camisa. EMERENCIANA se aproxima dele.

EMERENCIANA (séria): — Por que essa pressa.

JERÔNIMO fecha a mala por um segundo… mas volta a abri-la. Ele respira fundo e encara EMERENCIANA.

JERÔNIMO (decidido): — Eu vou pra Tanhanhem.

O nome da cidade ecoa no quarto. EMERENCIANA sente o golpe. Agora ela está na frente de JERÔNIMO.

EMERENCIANA: — Pra quê? Você não precisa disso.
JERÔNIMO: — Para fazer justiça. (pausa) Pra fazer Tenório pagar pela morte do meu pai. Só por isso.

EMERENCIANA se aproxima. Com cuidado redobrado.
Como se estivesse pisando em vidro.

EMERENCIANA: — Meu filho… você precisa esquecer isso. Essas lembranças só te fazem mal, Jerônimo.

JERÔNIMO solta um riso seco. Sem alegria.

JERÔNIMO: — Esquecer? Você sabe que isso é impossível. 15 anos se passaram e eu não esqueci.
EMERENCIANA: — Eu sei que é difícil, meu filho. Você precisa tentar. Antes que isso te envenene por dentro.

JERÔNIMO a encara. Os olhos brilham — não de lágrima, mas de raiva contida.

JERÔNIMO: — Eu não consigo esquecer. (pausa, engole seco) Toda noite eu sonho com meu pai mandando eu correr. E agora você quer que eu esqueça tudo isso?

Silêncio. A dor dele é crua. EMERENCIANA sente.
Ela leva a mão ao rosto dele. Eles se olham fixamente.
EMERENCIANA: — Nós falhamos. Eu sei disso.

A voz dela treme. JERÔNIMO fica em silêncio.

EMERENCIANA: — Nós não conseguimos salvar você daquele inferno. Mas eu não quero te ver assim.

JERÔNIMO segura as mãos dela. Com firmeza.

JERÔNIMO: — Não diz isso. Vocês salvaram aquele menino perdido na estrada. (pausa) Vocês me deram um nome… um futuro… uma família. Eu sou grato.

Os olhos dele suavizam por um instante. Mas endurecem de novo. EMERENCIANA percebe a determinação dele.

JERÔNIMO: — Mas agora eu preciso fazer justiça.
EMERENCIANA: — Eu não posso compactuar com isso.

Silêncio. Ela o observa. Com medo do que ele está se tornando. EMERENCIANA se aproxima cautelosamente de JERÔNIMO. O olhar dele cada vez mais decidido.

EMERENCIANA: — E quando você encontrar a Linda Flor? Porque isso é algo que você precisa pensar.

O nome muda algo nele. Uma rachadura na armadura.

EMERENCIANA (indagando): — O que você vai escolher? (pausa) O amor da menina que você sempre amou…. (pausa mais longa) Ou a sua vingança?

JERÔNIMO fecha os olhos por um segundo. A lembrança da pedrinha. A promessa. Ele abre os olhos.
Confusão ali. Mas também obstinação.

JERÔNIMO.(respirando fundo): — Eu ainda não sei. Eu prometi que voltava pra buscar ela.

A voz baixa. Quase arrependida.

JERÔNIMO (firme): — Mas fazer justiça pelo meu pai… Está acima de qualquer coisa, Emerenciana.
EMERENCIANA: — Até mesmo do amor?
JERÔNIMO: — O amor por ela nunca foi embora. Mas a dor também não. Eu não consigo esquecer isso.

Silêncio absoluto. EMERENCIANA entende. Ele já partiu por dentro. Ela segura o rosto dele. Com carinho.

EMERENCIANA: — Só não deixa o ódio apagar o homem que você se tornou. Eu te peço isso.

JERÔNIMO fecha a mala. Dessa vez, definitivo.

JERÔNIMO: — Eu não vou voltar o mesmo.

EMERENCIANA percebe. O caminho dele é sem volta.
Ela apenas o abraça. Um abraço demorado. De despedida antes da despedida. A câmera se afasta lentamente do quarto. A mala em primeiro plano.
O futuro incerto.
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CENA 3. EXTERIOR — ESTAÇÃO DE TREM DE TANHANHEM — PLATAFORMA — FIM DE TARDE
O apito ecoa pela cidade. O trem reduz a velocidade.
Fumaça sobe pelos trilhos. A plataforma se enche de movimento. Homens descem com malas pesadas. Mulheres ajeitam crianças. Conversas cruzadas. Risos. Reencontros. A porta de um dos vagões se abre. Salto elegante toca o chão da plataforma. É LINDA FLOR.
Postura firme. Beleza serena. Vestido leve, chapéu delicado. Ela observa a estação. O mesmo lugar de quinze anos atrás.bO mesmo chão. Mas ela não é mais a menina que partiu chorando. Ela anda lentamente pela plataforma. Cada passo é carregado de memória. LINDA FLOR para no meio da plataforma. Tira o chapéu. O vento toca seus cabelos. Ela fecha os olhos e respira fundo. O murmúrio da cidade. Ela abre os olhos.

LINDA FLOR: — Agora… nada vai me impedir….

Ela olha ao redor. Como se encarasse o passado.

LINDA FLOR (séria): — Eu não sou mais aquela menina. Eu sou uma mulher que voltou para casa.

A mão sobe até o cordão. A pedrinha. Ela aperta com firmeza. Os seus olhos brilham de uma forma mágica.

LINDA FLOR: — Eu vou ser livre. Eu sou livre.

A voz não é alta. Ela olha para a cidade além da estação.

LINDA FLOR: — Eu voltei pra fazer o que sempre quis.
(pausa) Dar aula pras crianças que ninguém enxerga.

O olhar endurece levemente.

LINDA FLOR (firme): — E se meu pai tentar me impedir… Ele vai comprar uma guerra da qual não vai sair vencedor. Isso é algo que eu não abro mão.

A trilha cresce levemente. Ela começa a caminhar para fora da estação. Sem perceber… Do outro lado da plataforma. Encostado em uma pilastra. Um homem observa. Chapéu baixo. Rosto marcado pelo sol. É um dos capatazes da fazenda FERREIRA LEMOS. Ele estreita os olhos. Reconhece. Um meio sorriso surge.
Perigoso.bEle cospe no chão. E sai na direção oposta. LINDA FLOR caminha pela rua principal da cidade. Luz dourada do fim de tarde. Firme. Determinada. O capataz montando a cavalo. Esporeia o animal. Ele segue em direção à fazenda. O som do galope ecoa.
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CENA 4. EXTERIOR — FAZENDA FERREIRA LEMOS — PLANTAÇÃO DE CACAU — FIM DE TARDE
O sol castiga. Fileiras intermináveis de pés de cacau.
Homens trabalham suados, curvados, exaustos. Facões cortam frutos. Sacos são arrastados. O som é pesado.
No alto de um pequeno morro de terra, um homem observa. Chicote na mão. O olhar bastante perigoso.
É PEDRO (Emílio Dantas), o principal capataz.
Olhar duro. Sem piedade. Ele caminha entre os trabalhadores. Ele sorri de um jeito bem frio.

PEDRO: — Quero ver essas mãos correrem!
Cacau não se colhe sozinho! Andem logo.

Um trabalhador mais idoso, curvado demais pelo tempo, tenta levantar um saco pesado. As mãos tremem.
A visão escurece. Ele desmaia no meio da plantação.
O saco cai ao lado. Silêncio momentâneo. Os outros trabalhadores trocam olhares, mas continuam — por medo. PEDRO se aproxima. Irritado e furioso.

PEDRO (gritando): — Levanta!

Sem resposta. Ele cutuca o homem com o pé.
PEDRO (esbravejando): — Aqui não é lugar de dormir!

O homem permanece desacordado. PEDRO perde a paciência. Levanta o chicote. Antes que desça— Uma voz firme ecoa. MACÁRIO (Enrique Diaz) se aproxima.

MACÁRIO (firme): — Já chega, Pedro!

PEDRO vira lentamente. Ele e MACÁRIO se encaram.
Ele se aproxima e se coloca entre PEDRO e o homem caído. O vilão não gosta nenhum pouco disso.

PEDRO (nervoso): — Sai da frente, Macário. Agora.
MACÁRIO: — Ele tá passando mal. Tenha piedade.

PEDRO dá um passo à frente. Enfrenta MACÁRIO de perto. PEDRO olha para MACÁRIO com desprezo.

PEDRO: — Eu não te perguntei nada. Agora trate de fazer aquilo o que eu mandei, Macário. Sai da frente.
MACÁRIO.(corajoso): — E eu não pedi sua permissão pra defender ninguém. Você não manda em mim, Pedro.

O clima esquenta.vOs outros trabalhadores fingem que não olham — mas ouvem tudo. PEDRO ri com desprezo.

PEDRO (ardiloso): — Desde quando você virou médico?
MACÁRIO: — E desde quando você virou Deus?

Silêncio pesado. O vento sopra entre as folhas de cacau.
PEDRO aperta o chicote na mão. MACÁRIO observa.

PEDRO: — Eu sou o braço direito do coronel Tenório.

Ele se aproxima ainda mais de MACÁRIO. Nariz com nariz. MACÁRIO por sua vez não demonstra medo.

PEDRO: — E quem não gostar disso… eu trato de acabar. Para mim isso seria uma coisa bastante fácil.
MACÁRIO (sério): — O coronel pode mandar na fazenda. (pausa) Mas não manda na vida de ninguém.

PEDRO sorri. Bastante perigoso.

PEDRO (venenoso): — Você vai pagar caro por essa humilhação, Macário. Principalmente por falar assim comigo no meio desses malditos infelizes.

MACÁRIO ignora. Ajoelha-se ao lado do homem desmaiado. Tira o chapéu. Pega uma pequena cabaça com água.vLevanta a cabeça do idoso com cuidado.

MACÁRIO: — Calma, meu amigo…. Bebe devagar.

Ele molha o rosto do homem. Alguns trabalhadores se aproximam discretamente.bIsso só aumenta a fúria de PEDRO. O vilão vai ficando cada vez mais irritado.

PEDRO: — Voltem pro trabalho! Isso é uma ordem.

Ninguém se move imediatamente. PEDRO estala o chicote no ar. O som corta o silêncio. A maioria volta, com medo. Mas os olhares já não são os mesmos.
MACÁRIO encara PEDRO uma última vez.bSem baixar a cabeça. PEDRO aponta o chicote para ele.

PEDRO: — Você acabou de cavar sua própria cova.
MACÁRIO: — Se for pra defender gente inocente…
eu cavo quantas forem necessárias.

PEDRO cospe no chão. E se afasta. Mas o olhar promete vingança. A câmera sobe lentamente. Mostra a imensidão da plantação. Pequenos homens sob um sol impiedoso. O império de TENÓRIO parece forte.
Mas há rachaduras. E elas começaram a aparecer.
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CENA 5. INTERIOR — IGREJA DE TAMHANHEM — FIM DE TARDE
A igreja de TANHANHEM é um local calmo e bastante tradicional. O PADRE BELARMINO (Marcos Caruso), homem de fala mansa e olhar bondoso, organiza os livros no púlpito. Ele ajeita o microfone.
Folheia a Bíblia. Suspira. Nesse momento, o som de passos ecoa pelo corredor central. Firmes. Cadenciados.
Uma mulher vestida com roupas discretas, véu na cabeça e terço nas mãos caminha em direção ao altar.
É MARIA DO CÉU (Letícia Colin). Olhar aparentemente sereno. Mas atento demais. Ela para diante do padre. Inclina levemente a cabeça.

MARIA DO CÉU: — A paz do Senhor, padre Belarmino.
PADRE BELARMINO: — A paz, minha filha.

Ele sorri com gentileza.

PADRE BELARMINO: — Veio cedo hoje. Como sempre.

MARIA DO CÉU aperta o terço entre os dedos.

MARIA DO CÉU: — A casa de Deus sempre merece zelo.

Ela olha ao redor. Observadora. Calculista.

MARIA DO CÉU (fria): — Aliás… notei que algumas flores do altar já estão murchas. Que falta de cuidado.

O PADRE BELARMINO olha para o arranjo. Simples.

PADRE BELARMINO (sereno): — Ah, sim… vou pedir pra trocar amanhã. Você não precisa se preocupar.

MARIA DO CÉU se aproxima do altar. Passa o dedo discretamente sobre uma superfície imaginariamente empoeirada. PADRE BELARMINO a observa.

MARIA DO CÉU: — A igreja é o reflexo da moral da cidade, padre. (pausa) E ultimamente… Tanhanhem anda precisando de direção. E o senhor sabe disso.

O PADRE BELARMINO fecha a Bíblia com cuidado.

PADRE BELARMINO: — A direção vem da fé, minha filha. Não do julgamento. Mas você não entende isso.

MARIA DO CÉU sorri. Um sorriso suave demais.

MARIA DO CÉU (ardilosa): — Claro… claro. Mas alguém precisa zelar pelos bons costumes. Esse alguém sou eu.

O PADRE BELARMINO a encara. Atento.

PADRE BELARMINO: — Está se referindo a quem?

MARIA DO CÉU suspira. Como se estivesse preocupada.

MARIA DO CÉU: — Ouvi dizer que a filha do coronel retornou. Uma moça que passou anos longe… sem a devida orientação. Ela representa a imoralidade.

O padre mantém a calma.

PADRE BELARMINO: — Linda Flor é uma jovem educada. Muito diferente de algumas jovens daqui.

MARIA DO CÉU aperta o terço.

MARIA DO CÉU: — Esperemos que continue sendo.

Ela caminha lentamente pela igreja.

MARIA DO CÉU (sorrindo): — A juventude de hoje se perde fácil, padre. E a cidade já tem problemas demais.

MARIA DO CÉU para diante da imagem de um santo.
Olha para cima. Mas seus olhos não são devotos.

MARIA DO CÉU: — Eu só quero ajudar. Apenas isso.
PADRE BELARMINO: — A ajuda verdadeira não humilha, Maria do Céu. Isso não está certo.

MARIA DO CÉU volta-se para ele. Sorriso doce.

MARIA DO CÉU: — Jamais faria isso, padre.
(pausa curta) Tudo que faço é pelo bem de Tanhanhem.

MARIA DO CÉU se afasta pelo corredor central. O som do salto ecoa na igreja vazia. O PADRE BELARMINO fica parado. Pensativo. Preocupado. A câmera fecha no rosto de MARIA DO CÉU já na porta da igreja. O sorriso doce desaparece. O olhar endurece. Ela observa a praça da cidade. Como quem escolhe seu próximo alvo.
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CENA 6. INTERIOR — RÁDIO “A VOZ DA TERRA” — FACHADA PRINCIPAL/ ESTÚDIO — FIM DE TARDE
Um prédio simples. Fachada modesta.
Luz acesa na sala principal. Uma placa antiga: RÁDIO A VOZ DA TERRA — 820 AM. O letreiro pisca levemente.
A câmera dá um corte para dentro do ESTÚDIO da RÁDIO. Ventilador barulhento no teto. Mesa de madeira gasta. Microfone antigo no centro. Pilhas de papéis.
No ar, a vinheta da rádio termina. ZECA BATISTA (Lázaro Ramos), olhar firme, camisa arregaçada, aproxima-se do microfone. Ele ajusta os fones. Respira fundo. O operador faz sinal: AO VIVO. A luz vermelha acende. Silêncio. ZECA BATISTA toma coragem.

ZECA BATISTA: — Boa tarde, Tanhanhem. (pausa) Hoje eu não venho aqui falar de festa na praça…
nem de previsão do tempo. E sim de algo mais sério.

ZECA BATISTA olha para um papel, mas não lê.

ZECA BATISTA (sério): — Eu venho falar de medo.

O ventilador range.

ZECA BATISTA: — Há quinze anos, um homem morreu queimado dentro da própria casa. E seu filho… desapareceu. E todos fingem não saber o que houve.

Ele não menciona nomes. Mas todos sabem.

ZECA BATISTA (alterando a voz): — A cidade engoliu essa história como se fosse cinza levada pelo vento.

ZECA BATISTA se inclina mais perto do microfone.
A voz fica mais intensa. Uma voz de revolta.

ZECA BATISTA: — Mas a verdade não vira pó. Nós vivemos sob um sistema antigo. E esse sistema tem nome e sobrenome: Tenório Ferreira Lemos.

Um sistema que tem nome. Coronelismo. Ele deixa a palavra ecoar. ZECA BATISTA sabe o que vai acontecer.

ZECA BATISTA (enfático): — Roubo de terras.

Silenciamento. Trabalhadores explorados.

ZECA BATISTA: — Os homens da plantação de cacau estão sendo tratados como se não fossem gente.
E isso precisa ter um fim. O quanto antes.

O operador da rádio o olha, nervoso.

ZECA BATISTA continua. Sem hesitar.

ZECA BATISTA (sério): — Capatazes que confundem autoridade com violência. Homens que usam chicote como se estivessem acima da lei. Mas não estão.

A voz dele cresce. ZECA BATISTA parece não ter medo.

ZECA BATISTA (firme): — Mas eu digo uma coisa aqui, ao vivo, pra todo mundo ouvir. Nenhum poder é eterno.

O operador faz sinal para ele maneirar. ZECA ignora.

ZECA BATISTA (determinado): — E enquanto eu tiver esse microfone na mão… Tanhanhem vai ter quem fale.

A respiração dele está acelerada. Mas firme.

ZECA BATISTA (se enchendo de coragem): — Porque o medo só governa quando o silêncio vence. E eu não vou me calar. Jamais os poderosos vão calar a verdade.

Ele tira os fones lentamente. Mas a transmissão ainda está no ar. Ele sabe. E deixa tudo ocorrer normalmente.

ZECA BATISTA: — Se alguém se incomodar…
que venha aqui me responder de frente.

Ele faz sinal para encerrar. A vinheta sobe.
A luz vermelha apaga. Silêncio no estúdio.
O operador encara Zeca. Assustado.
OPERADOR: — Você tá mexendo com gente grande.
ZECA BATISTA: — Alguém precisa mexer. E rápido.

ZECA BATISTA olha pela janela. A praça da cidade iluminada. E ele sabe que mexeu com o homem mais poderoso da cidade. E TENÓRIO não vai perdoar.
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CENA 7. INTERIOR — FAZENDA FERREIRA LEMOS — CASA GRANDE — SALA DE ESTAR — NOITE
Anoitece. A sala é imponente e pesada. Móveis de madeira escura. Retratos antigos nas paredes. Sobre uma mesa, um rádio antigo transmite o programa de ZECA BATISTA. TENÓRIO está com muito ódio.

VOZ DE ZECA BATISTA (NO RÁDIO): — “…e enquanto o povo de Tanhanhem trabalha até cair de cansaço nas plantações de cacau, tem coronel sentado em cadeira confortável achando que a cidade ainda vive nos tempos da senzala! Mas eu aviso: a verdade sempre encontra um jeito de aparecer!”

O rosto de TENÓRIO está tomado por um ódio silencioso. A mandíbula travada. Nesse momento, a porta se abre devagar. Um CAPATAZ entra tirando o chapéu com respeito. Ele para na frente de TENÓRIO.

CAPATAZ: — Coronel Tenório…
TENÓRIO não olha para ele imediatamente.
Ele continua ouvindo o rádio. Frio e prático.

TENÓRIO (voz baixa e perigosa): — Se você entrou aqui sem motivo… reze pra Deus ter piedade de você.

O capataz engole seco.

CAPATAZ: — Eu… eu vi o trem chegar da capital agora há pouco na estação… Eu achei que iria querer saber.

TENÓRIO finalmente vira o rosto. Ele encara o CAPATAZ de uma forma bastante gélida.

TENÓRIO: — E desde quando chegada de trem virou assunto pra me tirar do meu sossego?

O CAPATAZ respira fundo.

CAPATAZ: — É que… a sua filha chegou no trem. Linda Flor voltou pra Tanhanhem. E ela estava vindo em direção a fazenda. O patrão tinha que saber.

O rádio continua ao fundo.

ZECA BATISTA (NO RÁDIO): — “Porque mais cedo ou mais tarde os coronéis vão ter que prestar conta do que fizeram! E o povo de Tanhanhem finalmente terá paz”.

TENÓRIO se levanta lentamente. Cada passo ecoa na sala. O CAPATAZ o olha com medo e apreensão.

TENÓRIO (dentes cerrados): — Saia.

O capataz não se move.

TENÓRIO (mais alto): — EU MANDEI SAIR!

O capataz praticamente corre para fora da sala. Assim que a porta fecha— TENÓRIO encara o rádio. O programa continua em alto e bom som.

ZECA BATISTA (NO RÁDIO): — “E quem acha que manda no destino do povo dessa terra vai descobrir que Tanhanhem não pertence a coronel nenhum!”

A raiva explode. TENÓRIO pega um jarro de flores sobre a mesa e o arremessa contra a parede. O objeto se despedaça. A imagem dele reflete nos cacos de vidro.

TENÓRIO (gritando): — DESGRAÇADO!

Ele respira pesado. Andando de um lado para o outro.

TENÓRIO (frio): — Primeiro esse radialista imundo achando que pode cuspir veneno contra mim no rádio…

Ele aponta para o aparelho.
TENÓRIO: — Zeca Batista… você acabou de assinar sua sentença. Você vai aprender do pior jeito possível o que acontece com quem afronta Tenório Ferreira Lemos!

Ele desliga o rádio com violência. Silêncio. Mas o olhar dele continua ardendo. O ódio só vai aumentando.

TENÓRIO (sério): — Então você voltou, Linda Flor. Se você pensa que veio me enfrentar… vai aprender uma lição que devia ter aprendido quinze anos atrás.

Ele sussurra, ameaçador:

TENÓRIO: — Ninguém me desafia… e sai impune.

Atrás de uma coluna na penumbra da sala CARLOTA observa tudo. O rosto duro. Os olhos queimando de raiva. Ela surge lentamente das sombras.

CARLOTA (voz fria): — Então é verdade…
TENÓRIO: — Você estava ouvindo?
CARLOTA (gélida): — Linda Flor voltou.

Os olhos dela estão cheios de desprezo.

CARLOTA: — Eu mandei aquela menina embora pra que ela nunca mais voltasse a nos causar problemas.

Ela se aproxima devagar.
CARLOTA (ardilosa): — Mas parece que nossa filha ainda não aprendeu a ficar no lugar dela.

TENÓRIO encara CARLOTA. Um silêncio pesado.
CARLOTA fala quase como uma sentença.

CARLOTA: — Se Linda Flor voltou pra nos enfrentar…
então está na hora de lembrá-la de quem manda nesta cidade. E ela vai aprender a não me enfrentar de novo.

A câmera fecha no olhar sombrio dos dois.
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CENA 8. EXTERIOR — ENTRADA SE TANHANHEM — ESTRADA — NOITE
A estrada é quase deserta. O vento sopra fraco entre as árvores. Ao fundo, o letreiro simples de madeira anuncia: “BEM-VINDO A TANHANHEM” O som de um motor de moto quebra o silêncio da noite. Uma moto surge no meio da escuridão e vai diminuindo a velocidade até parar diante da placa da cidade. O homem sobre a moto permanece alguns segundos imóvel. Ele então tira o capacete. É JERÔNIMO.
O rosto mais velho, marcado pela vida. Os olhos carregados de lembranças. Ele observa a estrada que leva para dentro da cidade. Respira fundo.

JERÔNIMO (baixo, com emoção contida): —
Quinze anos… O tempo pareceu que voou.
Ele desce da moto devagar. Olha para o horizonte da cidade. A mágoa e a dor do passado vêem juntos.

JERÔNIMO: — Quinze anos longe desse lugar…

A memória invade. O incêndio. Os gritos. O pai mandando ele correr. Ele fecha os olhos por um instante. As lágrimas escorrem de seu rosto.

JERÔNIMO: — Eu voltei, pai. (pausa) E dessa vez… eu não vou fugir. Eu vou fazer aquele homem pagar.

Ele leva a mão ao peito e puxa um cordão escondido dentro da camisa. Na ponta dele, uma pequena pedrinha. Idêntica à que LINDA FLOR tem. JERÔNIMO segura o objeto com força. Os olhos dele marejam.

JERÔNIMO (respirando fundo): — Linda Flor…

JERÔNIMO sorri com tristeza.

JERÔNIMO: — Eu prometi que ia voltar. E eu voltei.

Mas o sorriso desaparece lentamente. O olhar dele endurece. Ele olha para a escuridão da noite.

JERÔNIMO: — Eu não sei se você ainda pensa em mim… (pausa) Ou se você me odeia por nunca ter ido te buscar. Eu nunca te esqueci esses anos todos.
Ele aperta o cordão.

JERÔNIMO: — Se eu te encontrar… eu espero que você consiga me perdoar. Por tudo o que eu vou fazer.

Os olhos dele ficam sombrios.

JERÔNIMO: — Mas tem uma coisa que eu não posso perdoar. Uma coisa que me aconteceu há 15 anos.

A raiva cresce.

JERÔNIMO: — O que Tenório fez. Ele tirou o meu pai de mim. Queimou minha casa… destruiu minha vida…
(pausa) E me obrigou a viver quinze anos com isso queimando aqui dentro. E isso é imperdoável.

Ele coloca a pedrinha de volta dentro da camisa. O olhar agora é frio. Determinado. De quem sabe o que quer.

JERÔNIMO (decidido): — Agora acabou. Eu não sou mais aquele menino que fugiu pela estrada.

A moto é ligada. O motor ronca forte no silêncio da noite. JERÔNIMO encara a estrada que leva para dentro da cidade. O silêncio é invadido pela chegada dele.

JERÔNIMO: — Eu voltei pra fazer justiça. (pausa)
E dessa vez… Ninguém vai me impedir.

Ele acelera. A moto dispara pela estrada.
A câmera fica parada na placa da cidade.
“TANHANHEM” O som da moto se perde na noite.
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CENA 9. INTERIOR — IGREJA DE TANHANHEM — NOITE
A igreja está quase vazia. A luz da noite entra pelos vitrais coloridos, pintando o chão com tons suaves.
O PADRE BELARMINO está diante do altar terminando sua última oração. Ele está bastante compenetrado.

PADRE BELARMINO (em voz baixa): — …e que a paz do Senhor esteja sempre conosco. Amém.

Ele faz o sinal da cruz. Nesse momento, a porta da igreja se abre lentamente. Passos suaves ecoam pelo corredor.
É LINDA FLOR. Elegante, serena… mas com uma tristeza guardada no olhar. Ela caminha devagar até o altar. O padre se vira… e ao reconhecê-la, seus olhos se iluminam de surpresa e emoção. LINDA FLOR se ajoelha diante dele. Ela o olha com serenidade.

LINDA FLOR (baixinho): — A sua benção, padre.

PADRE BELARMINO sorri com ternura. Ele coloca a mão sobre a cabeça dela. LINDA FLOR sorri.
PADRE BELARMINO: — Que Deus te abençoe, minha filha… Hoje e sempre. Com a graça do senhor.

LINDA FLOR faz o sinal da cruz. O padre a observa.

PADRE BELARMINO: — É uma alegria enorme ver você de volta, Linda Flor. (pausa) Quinze anos… Quinze anos fora de Tanhanhem. Você voltou uma mulher feita.

LINDA FLOR tenta sorrir, mas não consegue esconder o peso em seu olhar. O PADRE BELARMINO percebe.

LINDA FLOR (abatida): — É… muito tempo.
PADRE BELARMINO: — Você está triste. (pausa)
O que foi que aconteceu, minha filha? Pode me dizer.

LINDA FLOR suspira profundamente. Ela olha para os bancos vazios da igreja. Os seus olhos ficam marejados.

LINDA FLOR (séria): — Voltar para essa cidade… traz lembranças que eu tentei esquecer por muito tempo.

O PADRE BELARMINO a encara com delicadeza.

PADRE BELARMINO: — Você está falando do Jerônimo. Os seus olhos não conseguem mentir.

LINDA FLOR abaixa o olhar. Depois de alguns segundos… Ela confirma com um movimento de cabeça.
LINDA FLOR: — Sim estou, Padre.

A voz dela fica embargada.

LINDA FLOR (magoada): — Ele prometeu que ia voltar pra me buscar. (pausa) Prometeu que a gente nunca ia se separar. Mas ele nunca voltou, Padre.
PADRE BELARMINO: — Você foi levada pra capital, minha filha. E Ele era apenas um menino. Igual a você.

LINDA FLOR permanece em silêncio. O PADRE BELARMINO observa seu rosto por um momento.

PADRE BELARMINO: — Mas uma coisa eu sei…
(pausa) Está estampado no seu olhar. Você nunca esqueceu aquele menino. Não adianta negar.
LINDA FLOR: — Não, padre… isso foi há muito tempo…

Ela para no meio da frase. Porque sua mão, quase instintivamente, segura o cordão com a pedrinha em seu pescoço. O PADRE BELARMINO observa o gesto.
LINDA Flor desiste de negar. Uma lágrima escorre.

LINDA FLOR (baixinho): — Eu nunca deixei de amar o Jerônimo, Padre. Nem por um dia. Mas agora…
eu preciso de força. E isso é algo que não pode esperar.

PADRE BELARMINO a observa com atenção.

PADRE BELARMINO: — Força pra quê, minha filha?

LINDA FLOR respira fundo. O olhar dela muda.
Agora existe firmeza. Ela respira fundo e o encara.

LINDA FLOR (séria): — Pra enfrentar meu pai. Eu sei que ele não vai aceitar minha volta. (pausa) E eu sei também… que se ele tentar me impedir de ajudar as crianças dessa cidade… Eu vou enfrentar ele.
PADRE BELARMINO: — Linda Flor…
LINDA FLOR: — Tem uma coisa que nunca saiu da minha cabeça nesses quinze anos. (pausa) Nem por um instante. Eu tenho certeza que foi meu pai que mandou matar Xavier… E o Jerônimo. Eu sei muito bem disso.

Silêncio pesado. PADRE BELARMINO fica completamente imóvel.vEle não responde. Apenas abaixa os olhos… profundamente perturbado.bLINDA FLOR percebe o silêncio. Ela fica bastante pensativa.

LINDA FLOR: — Padre… (pausa) Se isso for verdade…
Como é que eu vou conseguir viver sabendo que o homem que me criou… é um assassino?

PADRE BELARMINO continua em silêncio.
O peso daquela pergunta ecoa dentro da igreja.
A câmera se afasta lentamente dos dois diante do altar.
O som distante do sino da igreja começa a tocar.
🌴
CENA 10. EXTERIOR — ANTIGAS TERRAS DE XAVIER/ PROPRIEDADE DE TENÓRIO — NOITE
A noite é silenciosa. O vento balança as plantações de cacau ao redor. Um arame farpado delimita a propriedade. Uma sombra se aproxima. É JERÔNIMO.
Ele observa a terra diante dele por alguns segundos.
Respira fundo. Então passa por baixo do arame farpado com cuidado. Seus pés tocam o chão daquelas terras que um dia foram de seu pai. JERÔNIMO caminha lentamente. Cada passo carrega memórias dolorosas.
O olhar dele percorre o local. A câmera acompanha o rosto dele… e flashes de memória invadem sua mente:
— XAVIER gritando: “CORRE, MEU FILHO!”
— A casa em chamas
— LINDA FLOR chorando
— Capangas armados
JERÔNIMO fecha os olhos com força. A respiração fica pesada. Ele continua caminhando até parar no meio do terreno. Ali… Onde um dia ficava a casa de XAVIER. JERÔNIMO olha ao redor. Os olhos começam a marejar.

JERÔNIMO (baixo, para si mesmo): —Foi aqui… (pausa) Foi aqui que tudo acabou. Que meu pai morreu.

Ele se ajoelha lentamente no chão. As lágrimas caem.

JERÔNIMO: — Pai…

A voz falha. Ele passa a mão pela terra.

JERÔNIMO (chorando): — Eu ainda consigo ouvir o senhor gritando pra eu correr. (pausa) Eu corri… pai.

Ele fecha os olhos. A dor volta com força.

JERÔNIMO: — Eu corri… mas deixei o senhor pra trás.

As lágrimas agora caem livremente. JERÔNIMO abaixa a cabeça. A tristeza e a raiva estão mais evidentes.

JERÔNIMO: — Eu era só um menino… (pausa)
Eu não pude salvar o senhor. Eu sinto muito.

O vento sopra mais forte. JERÔNIMO aperta a terra nas mãos. Então outra lembrança invade sua mente.
LINDA FLOR criança chorando. “Corre, Jerônimo! Corre!” Ele abre os olhos. A dor agora se mistura com saudade. E a sua dor só vai aumentando mais.

JERÔNIMO: — Linda Flor… (pausa) Eu prometi que ia voltar pra te buscar. Mas eu não cumpri o que disse.

Ele respira fundo. A expressão muda lentamente.
A tristeza começa a dar lugar a algo mais forte.
RAIVA. JERÔNIMO pega um punhado de terra e o ergue na mão. Ele olha para o céu escuro da noite.
A voz agora é firme. Carregada de anos de dor.
JERÔNIMO (determinado): — Eu juro… (pausa) Eu juro por essa terra… Pela memória do meu pai… Que eu vou fazer Tenório Ferreira Lemos pagar por tudo o que ele fez! A morte do meu pai não vai ficar enterrada.

O vento levanta a poeira da terra. JERÔNIMO se levanta lentamente. Os olhos agora estão cheios de fogo.

JERÔNIMO: — Quinze anos… (pausa) Quinze anos carregando essa dor.. Tenório que me espere.

JERÔNIMO encara a fazenda ao longe.

JERÔNIMO (com raiva): — Mas acabou. (pausa)
Eu voltei. E dessa vez ninguém vai me impedir.

Ele aperta o cordão com a pedrinha no peito. JERÔNIMO olha novamente para o céu. Um brilho no olhar.

JERÔNIMO: — O que aconteceu naquela noite…
não vai ser esquecido. (pausa) Eu vou arrancar a verdade dessa terra. Isso é uma promessa.

Ele dá um último olhar ao local. A voz sai baixa… mas cheia de promessa. JERÔNIMO está determinado.

JERÔNIMO (firme): — E quando tudo isso acabar…
(pausa) Tanhanhem nunca mais vai ser a mesma.

A câmera se afasta lentamente. JERÔNIMO permanece parado no meio da terra escura. Pequeno diante da imensidão da fazenda. Mas com um olhar decidido a mudar o destino da cidade.
🌴FIM DO CAPÍTULO 🌴

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